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Herbert Diess convidou e Elon Musk aceitou. Os CEO do Grupo Volkswagen e o da Tesla, respectivamente, são conhecidos por ter uma relação de concorrência e de proximidade, algo que neste sector é pouco habitual – pelo menos, de forma publicamente assumida. Mas nada faria prever que Musk fosse o “elemento-surpresa” via videoconferência com 200 executivos do Grupo Volkswagen, a convite de Herbert Diess. Porém, aconteceu mesmo.

O propósito de Diess, de acordo com a Reuters, seria galvanizar os quadros do grupo para a transição eléctrica. Algo que, no entender no CEO do maior fabricante europeu de veículos, é um objectivo que fica seriamente ameaçado quando se perde tempo, nomeadamente com burocracias. Herbert Diess, conforme já aqui noticiámos, promoveu recentemente um encontro com os mais importantes dirigentes do grupo que dirige, onde, juntamente com o responsável máximo da Volkswagen, procurou passar a mensagem de que algo está mal quando a Tesla e os construtores chineses conseguem ser muito mais rápidos e eficientes a produzir veículos eléctricos do que o gigante alemão.

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Na tentativa de “espicaçar” a mudança, Diess convocou o fantasma dos despedimentos, alertando que estariam em risco 30.000 postos de trabalho. Na sequência dessas duas fortes mensagens, aconteceu o inesperado. Novo encontro com altos dirigentes, mas desta feita tendo como convidado um concorrente. Nem mais nem menos que o CEO da Tesla, a marca que dias antes o conglomerado germânico se tinha proposto combater sob o lema “Lutar contra Grünheide” – numa referência à Gigafactory de Berlim. E daí a surpresa de Elon Musk participar por videoconferência num encontro que, à partida, ficaria limitado aos elementos da casa.

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Segundo o Handelsblatt, o CEO da Tesla reconheceu a VW como um “ícone”, não sendo a primeira vez que o faz, e admitiu também que considera o conglomerado germânico o seu principal adversário. Algo que Diess, nas redes sociais, aproveitou para enfatizar, ao escrever que ficava “feliz” por “saber que até o nosso concorrente mais forte pensa que teremos sucesso (na transição), se conduzirmos a transformação com total empenho”.

O objectivo de Diess, conforme o próprio esclareceu nas redes sociais, foi tornar evidente que o momento que o grupo que dirige é de tal forma exigente que não pode haver distracções nem hesitações. O gestor entende que a VW precisa de ser mais rápida a decidir e mais ágil a executar. E, como exemplo, deu o caso da Tesla, marca que não tem sofrido como as demais com a falta de semicondutores, porque é expedita a encontrar alternativas. Segundo Diess, bastaram duas a três semanas para que os programadores do construtor norte-americano reescrevessem o software de forma a poderem substituir um microchip, que estava esgotado, por outro disponível.

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Na interacção com Musk, o responsável máximo do conglomerado germânico não se terá mesmo inibido de ir directo ao assunto e perguntou a Elon como é que a Tesla conseguia ser mais ágil que a concorrência. E o chefe da Tesla, ainda de acordo com a Reuters, não fugiu à questão. A resposta à tácita questão “como é que vocês conseguem” foi uma espécie de “porque eu é que mando nisto”. Musk explicou que o desempenho da Tesla depende muito do seu próprio estilo enquanto gestor [muito peculiar] e, acima de tudo, porque é engenheiro. Duas características da sua liderança a que juntou ainda um faro apurado para tudo o que se relacione com cadeias de fornecedores, logística e produção.

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Depois desta inédita troca de dicas entre rivais, ficou a promessa de que a Volkswagen vai passar por Grünheide. E, muito possivelmente, não será uma visita de mera cortesia, apenas para dizer “olá”. Isto porque uma das chaves para a Giga Berlim conseguir vir a produzir um Tesla Model Y a cada 45 segundos passa pelo mega casting. Solução que, ao que tudo indica, a VW está igualmente decidida a implementar nas suas futuras plataformas dedicadas, na tentativa de optimizar a produção, ganhando tempo e dinheiro. Afinal, regra geral é esse o principal desejo dos accionistas…