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Grotesca e monstruosa, eis a Clarice Lispector (re)criada por Rita Calçada Bastos e Carla Maciel

E se Clarice Lispector nunca tivesse existido e fosse um espelho onde cada um de nós pode ver a sua verdade mais complexa? Um monólogo que é um desafio e que rejeita a imagem cliché da escritora.

Clarice São Luiz Carla Maciel
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"Eu Sou Clarice" é um monólogo para a atriz Carla Maciel a partir da figura da escritora Clarice Lispector

Estelle Valente

"Eu Sou Clarice" é um monólogo para a atriz Carla Maciel a partir da figura da escritora Clarice Lispector

Estelle Valente

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Toda ela é improvável, toda ela incapturável, toda ela é um mistério numa época que não gosta de mistérios; que quer levantar todos os véus, abrir todas as tumbas, desenterrar todos os cadáveres,  ler todas as cartas, arrombar todos os diários, sempre em nome do direito à visibilidade, à verdade, como se ambas fossem sinónimas. Clarice Lispector, que dizia sem afetação “sou tão misteriosa que nem eu própria me entendo”, teve sabedoria suficiente para mergulhar em todos os mistérios sem trazer de lá nada senão mistérios ainda maiores. Por isso, quando foi ao Egito e encarou a esfinge, não tentou decifrá-la, mas também não se deixou decifrar. É até provável que tenha, com ela, selado um pacto, inacessível aos mortais.

Tornada uma celebridade desde que a biografia de Benjamin Moser a colocou na mesma rota que as estrelas de Hollywood, idolatrada no seu rosto de loba e nos seus olhos delineados a eyeliner negro, Clarice tornou-se um lugar comum, uma imagem banalizada, comercializada, apocrifamente citada, imoralmente imitada. “Eu sou Clarice”, que se estreia esta segunda-feira, 18 de outubro, no teatro S. Luiz, em Lisboa, rasura tudo isto e apresenta-nos, corajosamente, a face grotesca, monstruosa da escritora brasileira, num exercício teatral que a confirma Rita Calçada Bastos como uma das jovens encenadoras mais interessantes da atualidade.

É pois, com estranheza e desconforto, que encaramos a atriz Carla Maciel, pele muito branca, cabelo loiro, rosto nu, descalça, vestida de tule e pendurada num baloiço. Nada mais distante dessa imagem replicada das fotos de Clarice, da sua aura de  sofisticação, da força de carácter que emanava o seu rosto, da sensualidade do seu corpo. Quem é aquela boneca ali pendurada, a cheirar demasiado a terra para não acreditarmos que está morta? Ela é uma armadilha, é um espelho, é uma acusação: com que direito vocês pensam saber mais de mim do que eu própria sei? Ela é um desafio: até que ponto estamos disponíveis para abandonar a imagem mental que criamos da escritora e aceitamos vê-la com outros olhos?

Nas palavras de Rita Calçada Bastos, a peça “Eu Sou Clarice” parte das obras da escritora judia brasileira e das biografias feitas por Nádia Gotlib e Benjamin Moser “para a criação objeto teatral onde coloco aquilo que me marcou na vida e na obra da Clarice: a persistência da infância, a morte, a crueldade, a ruindade humana que ela nunca julga. A sua relação com a palavra e o real. Onde está a existência real? Mas também questionar o que é isso de ser um autor, quando o que se escreve nunca está desligado da pessoa que vive. Onde começa e onde acaba a escritora, a mulher, a vida corpórea, concreta e começa a vida imaterial das personagens?”.

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"Eu reduzida a uma palavra? Mas que palavra me representa? De uma coisa eu sei: eu não sou o meu nome"

Estelle Valente

Só quem não acede à literatura com um olhar superficial e só quem  ouve o que ela diz por detrás de cada palavra, pode perceber como o Mal, o errado, o amoral, são uma constante na sua obra. Desde Joana, de Perto do Coração Selvagem, a criança que nasceu ruim de tanto ver a verdade das coisas, até à criança que mata o pintainho de tanto amor que não sabia expressar, o universo de Lispector é composto por gente, animais, objetos, cidades onde a vida é coisa ruim, onde se nasceu para dar errado.

“Eu sou Clarice” não é um espetáculo sobre a afirmação de uma identidade — pelo contrário, é a afirmação de uma possibilidade. Ela não é Clarice, ela é tudo e todos, ela é o espelho onde cada um de nós pode ver refletido o lado grotesco da vida, como naquelas fotografias falhadas, de que falava Roland Barthes no ensaio A Câmara Clara, aquelas que escondemos ou apagamos, porque somos confrontados com uma imagem anormal, grotesca, feia, monstruosa de nós mesmos. Aquele lado que aprendemos a não ver e a esquecer que existe, mesmo quando  cometemos as maiores crueldades, julgando sempre que somos heróis.

“Dei-lhe de tal forma a minha vida que ela parece mais real que eu. Ela tem um olhar adoidado. Ela tem medo da loucura e acha-se estranha. Eu também me acho um pouco estranha, mas não tenho medo da loucura. Vejo tudo, ouço tudo,sinto tudo. Sou sozinha no mundo: tive por isso de inventar um ser que fosse todo meu, mas… Ela é tão livre que um dia será presa por excesso de liberdade por que a liberdade ofende. Mas ela está a ganhar força de mais.” [excerto do monólogo ‘Eu Sou Clarice’]

Mais do que um espetáculo sobre Clarice Lispector, onde excertos dos seus escritos são colados para dar a ver as muitas faces que se guardam atrás do que é visível, este é também um trabalho sobre a forma como os eventos de uma biografia individual são influenciados por tudo o que está adormecido em nós, desde o nosso nascimento ao nascimento da civilização, à história da espécie. Ou, citando o filosofo alemão Schelling, é sobre o Unheimlichen ou a “inquietante estranheza”, de encontrarmos o familiar dentro do que é estranho, do que está escondido, do que se oculta. Ao ligar partes de livros, crónicas, contos segundo uma leitura muito sua, Rita Calçada Bastos faz com que se exponham faces de Clarice e das suas personagens que estavam ocultas, que se encontrem novos sentidos para o que se leu, novas reflexões sobre o drama humano que ela reflete, recomeçado a cada nova geração.

Uma constelação chamada Clarice

Num cenário minimalista, uma mulher convive com os seus espectros e as vozes na sua cabeça. Ela é Joana, é Lori, é Ulisses, é Lúcio, é Mauri, Macabea, Martim, é a galinha, a avó em dia de aniversário, a baleia morta na praia do Leblon, ela é o pintainho sufocado, a criança que não sabia o que fazer com tanto amor, moça feia, a mulher que espera, o homem que foge, o criminoso, a vítima, a barata, é G.H, é a irmã incestuosa, é a mãe da sua mãe, é Chaya, a criança judia da Podólia que um dia desembarcou no Recife…

Carla Maciel Clarice Lispector São Luiz Teatro

Em 2020 celebrou-se o centenário de Clarice Lispector , que morreu em 1977, deixando uma das maiores obras escritas em Língua Portuguesa

Estelle Valente

Sem nunca ceder à tentação de se colar à imagem da escritora, nem mesmo quando enrola os “rr” como ela fazia, Carla Maciel mostra uma enorme versatilidade como atriz, entregando-se a cada espectador para que este trace o seu desenho constelar sobre todas as estrelas que brilham na abóbada celeste onde Clarice Lispector riscou dezenas de figuras, ousando fazer os traços mais invulgares, experimentando todas as formas de liberdade de ser em si.

“Eu quero a verdade que só me é dada através do seu oposto, da sua inverdade. E não aguento o quotidiano. O resultado disso tudo é que vou ter de criar uma personagem. Porque eu sozinha não consigo: a solidão, a mesma que existe em cada um, faz-me inventar. E haverá outro modo de nos salvarmos? Se não o de criar a própria realidade? Estou cheia de personagens na cabeça mas só Ela ocupa o meu espaço mental. Sou séria e honesta e se não digo a verdade é por que esta é proibida. Quanto a mim, não sei de nada”

[excerto do monólogo ‘Eu Sou Clarice’]

Como explica a encenadora, “o espetáculo faz parte de uma trilogia que começou com Se eu fosse Nina, que cruza a personagem da peça A Gaivota, de Tchekov, com a biografia da encenadora, uma mulher que se fecha no teatro porque se recusa a aceitar o seu fim, numa reflexão sobre as fronteiras para personagem e do ator”. Em julho, Rita Calçada Bastos encenou Cenas da Vida Conjugal, de Ingmar Bergman, que esteve no palco do S. Luiz e no Festival de Teatro de Almada.

“Eu Sou Clarice” tem a primeira apresentação esta segunda-feira, dia 18, pelas 19h30, na sala estúdio Mário Viegas, no Teatro S. Luiz, em Lisboa, e fica em cena até domingo, 24 de Outubro. Bilhetes 12 euros.

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