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Um grupo de médicos denunciou a empresa de assistência médica Prevent Senior por obrigá-los a receitar o “kit Covid” aos doentes infetados por SARS-CoV-2 que recorriam aos serviços desta empresa. Um doente testemunhou também, na Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) do Brasil à pandemia, como ia morrendo por causa dos tratamentos prestados.

Tadeu Frederico Andrade, de 65 anos, teve uma consulta de 10 minutos online num hospital privado da rede Prevent Senior onde lhe foi prescrito o “kit Covid”, noticiou o El Confidencial. Ao fim de cinco dias, o seu estado de saúde piorou e foi internado e entubado com uma pneumonia bacteriana. Esteve internado 120 dias e os médicos tentaram que a família aceitasse desligá-lo das máquinas porque já não se podia salvar. Valeu-lhe a família ter contratado outro médico para fiscalizar os procedimentos.

Não se sabe quantas vezes o “kit Covid” foi recomendado ou quantas pessoas podem ter morrido por falta de cuidados adequados para a doença, mas há suspeitas de que a empresa estivesse a testar o efeito do kit num ensaio sem autorização das autoridades competentes nem o conhecimento dos doentes.

Se o médico não mostrava lealdade e obediência aos protocolos, sofria castigos”, denunciou a advogada que representa o grupo de médicos, Bruna Morato.

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O “kit Covid” inclui oito medicamentos, alguns deles promovidos pelo Presidente Jair Bolsonaro, apesar de não apresentarem uma eficácia comprovada no tratamento dos doentes Covid-19. O antimalárico hidroxicloroquina, medicamento para piolhos ivermectina, o antiparasitário nitazoxanida, o antibiótico azitromicina, vitamina D, fazem parte do cocktail.

Jair Bolsonaro defende tratamento sem validação científica para conter pandemia

Prevent Senior em investigação desde março

A Prevent Senior foi fundada em 1997 pelos irmãos Eduardo Parrillo e Fernando Parrillo, também visados nos Pandora Papers.

A empresa está sob investigação da Promotoria de Saúde do Ministério Público de São Paulo desde março, noticiou a Globo (G1). Agora, o Ministério Público propõe um “ajustamento de conduta” à empresa, nomeadamente que deixe de distribuir o “kit Covid”, que deixe de fazer experiências com os doentes sem autorização das entidades competentes e que contrate uma fiscalização externa.

Além disso, entre as medidas da esfera civil, o Ministério Público pede ainda que a empresa publique em jornais de grande circulação que o estudo realizado em 2020 para testar a eficácia da cloroquina não tem validade científica.

Na esfera criminal decorre uma outra investigação à Prevent Senior, com uma task force de oito promotores, que querem perceber se houve crime de homicídio, falsidade ideológica e fraude na notificação da doença.

Um dos médicos que fizeram a denúncia na CPI diz que a empresa, dedicada a fornecer serviços aos mais idosos, tem um modelo de negócio focado na gestão dos custos e não no bem estar dos doentes.

Covid-19. Supremo do Brasil confirma decisão que ditou investigação a governo na pandemia

Relatório da Comissão de Inquérito deveria ser entregue esta terça-feira

Na investigação à gestão da pandemia de Covid-19, a CPI também se focou numa comissão paralela, à margem do Ministério da Saúde, e que se desconfia que tenha tentado promover a disseminação natural do vírus para se alcançar a imunidade de grupo.

Um dos médicos denunciantes diz que a Prevent Senior também parecia ter esse objetivo, uma vez que proibiu os profissionais de saúde de usarem máscaras ao pé dos doentes.

O relatório da CPI, em curso desde maio deste ano, está previsto ser divulgado esta terça-feira. O jornal El Confidencial diz poderá atrasar-se, mas que se espera que contenha pelo menos 11 crimes contra Bolsonaro, incluindo crimes contra a saúde pública e contra a humanidade. O objetivo dos senadores é entregar o relatório no Tribunal Penal Internacional.