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Não é um torneio do Grand Slam (Roland Garros, Wimbledon, US Open e Austrália), mas é tido por muitos como o torneio que, logo a seguir, mais se assemelha a um major do ténis. O Masters 1000 de Indian Wells tem muita reputação, é disputado pelos melhores tenistas do mundo e, entre 2004 e 2019, visto que em 2020 devido à Covid-19 não se realizou, apenas por uma vez não teve Djokovic, Nadal ou Federer na final. Este ano, nenhum destes três chegou ao jogo decisivo da madrugada de domingo para esta segunda-feira: esteve a cargo do britânico Cameron Norrie e de Nikoloz Basilashvili, da Geórgia.

Norrie, de 26 anos, acabou por vencer pelos parciais de 3-6, 6-4 e 6-1, conquistando assim o seu segundo título depois de Los Cabos, no México, naquela que está a ser, sem sombra de dúvida, a melhor época da sua carreira. O britânico começou o ano na posição n.º 71 do Ranking ATP e subiu ao 15.º posto com a vitória em Indian Wells. Além disso, com as ATP Finals, que se realizou em Turim, a chegarem e à espera de oito atletas, Norrie é agora décimo na corrida, o que lhe dará certamente ainda mais alento para os torneios que se seguem.

Para o britânico a vitória e a semana que teve em Indian Wells são “um pouco surpreendentes”: “Ao começar o torneio estás um bocado nervoso, sem certezas, nem habituado às condições. Não te sentes bem. Tive jogos complicados muito cedo. Mas acho que isto mostra o que acontece se formos ficando nestes grandes torneios. Obviamente que foi algo miraculoso que todos os jogadores de topo tenham perdido e, quando olhei para os semifinalistas, pensei que tinha uma boa oportunidade. Mas não quis adiantar-me em demasia mentalmente”.

O tenista referiu ainda que os resultados são reflexo do que tem feito “lentamente, ficando melhor todos os anos, melhorando pequenas coisas”. “Tenho trabalhado no duro e à minha volta estão pessoas fantásticas que querem o melhor para mim. Tratamos dos detalhes no court e fora dele, tendo sempre o mesmo objetivo. Quando tudo se junta, ajuda definitivamente. Que semana incrível tive aqui. Ainda nem sei o que estou a experienciar. Estou muito contente com a maneira como geri todas os momentos e muito feliz por ter ganho o meu maior título “, acrescentou.

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Mas as coisas não começaram bem para Norrie.

Antes do maior jogo da carreira, o tenista foi à procura dos ténis para calçar… mas tinham desaparecido. “Todos os dias deixei os meus ténis no topo do cacifo. Alguém, não faço ideia quem, pegou nos três pares de ténis e atirou-os fora. Procurei todo o dia e meti toda a gente à procura. Não sei o que é que as pessoas têm contra os britânicos que lhes estão sempre a roubar os sapatos. Foi difícil, mas felizmente não tinha lá nenhuma aliança de casamento, pelo que não perdi isso. Foi um bónus para mim”, explicou, aludindo ao caso do compatriota Andy Murray, antigo n.º 1 do mundo, que no início da semana deixou os ténis debaixo do carro a arejar durante a noite e, quando acordou, tinham desaparecido, juntamente com a aliança que estava nos atacadores. A história tem um final feliz, porque Murray recuperou tudo.

Para Norrie, que se tornou assim o primeiro britânico a levantar o troféu de Indian Wells, a questão dos ténis “não importou muito”, mas confessa que a sua mente chegou a divagar para esse facto. “Idealmente gosto de jogar com ténis que já usei cinco ou seis vezes. Gosto que já estejam um pouco usados, porque sinto-os pesados se forem mais novos. Algumas vezes eu pensei nisso, o que não é o ideal. Não queres estar a pensar no que tens calçado. Demorei um pouco a habituar-me mas depois pensei ‘ok, são estes os ténis que tenho, vou apenas focar-me no que posso controlar agora'”, explicou o vencedor de Indian Wells.

O tenista esquerdino jogou o torneio da sua vida e para isso muito terá contribuído a sua forma física, mais do que necessária para aguentar vários dias de um torneio super exigente a todos os níveis. Esta questão, no entanto, nem era a mais problemática, por motivos que o treinador de Norrie, Facundo Lugones, explicou ao Times. Mas o próprio Lugones só se aparcebeu da total força física do seu pupilo no ano passado, em Londres, durante um torneio entre atletas britânicos, o “Battle of the Brits”. Norrie usou uma peça de roupa que monitorizava alguns dados médicos e de performance, com os resultados a serem surpreendentes. “Lembro-me de um treinador do Andy Murray nos dizer que num jogo o Norrie esteve na red zone durante oito minutos, o que é quase impossível. Uma pessoa normal morreria após dois minutos e ele jogou oito minutos entre 180 e 200 pulsações por minuto, a sentir-se normal”, explicou o treinador de 29 anos.

E aqui a questão dos genes também é muito importante, pois a mãe de Cameron era corredora de grandes distâncias na juventude e o pai também foi um bom atleta ao nível universitário.

Ele consegue subir o seu ritmo cardíaco e jogar normalmente por longos períodos de tempo. Ele corria muito com a mãe e é um animal nesse aspeto. Ele aguenta longas distâncias e jogos que durem muito tempo. Eu fiquei lesionado ao jogar com ele todos os dias. Os adversários sabem que vão ter um dia longo contra ele e que não lhes vai dar nada. Têm de trabalhar muito estas bem fisicamente para derrotá-lo. O Cameron leva os adversários a sítios físicos e mentais onde se sentem desconfortáveis e começam a jogar pior. Ele compete de uma forma inacreditável”, destacou Lugones.

O treinador de Cameron Norrie destacou ainda quando o atleta quase foi expulso da Texas Christian University em 2016, aquando de um pequeno acidente com um motociclo que lhe valeu seis pontos no queixo e falhou ainda um torneio. Foi ameaçado com a expulsão da equipa da escola e começou então a “levar as coisas mais a sério”, segundo o seu treinador. “Foi uma chamada de atenção para ele começar a fazer melhor as coisas e maximizar a oportunidade de tornar-se jogador de ténis. Acho que às vezes estas coisas têm de acontecer para que alguém fique mais dedicado à carreira e à vida no geral. Foi o que aconteceu com ele”, finalizou.