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Acreditam que voam muitos quilómetros, que a poção mágica os torna à prova de balas e que os companheiros só morreram e foram feridos porque um traidor deu de comer carne de porco a uns líderes. Quase nove meses depois dos confrontos entre manifestantes e forças de segurança em Cafunfo, Angola, alguns dos intervenientes continuam fiéis à ideia de que “com a potência ‘botânica'” não adulterada teriam “garantido a vitória”. A magia fez parte destas madrugada e manhã sangrentas e não foi só de um lado.

A violência do dia 30 de janeiro deste ano poder-se-ia contar com o número (controverso) de mortos (mais de 20 segundo os ativistas; seis, de acordo com a polícia), de feridos e desaparecidos resultante da repressão de forças policias e militares de um protesto organizado pelo Movimento do Protectorado Português Lunda-Tchokwe (MPPLT) na província da Lunda-Norte.

Mas Rafael Marques, profundo conhecedor da região (com 30 anos de trabalho de que resultaram vários livros, entre eles o polémico “Diamantes de Sangue: Corrupção e Tortura em Angola” que lhe valeu pena de prisão suspensa em 2015) quis ir mais longe. Passou mais de 40 dias na localidade, entre março e junho, a investigar os trágicos acontecimentos.

O resultado é um livro de 150 páginas que será esta segunda-feira apresentado em Cafunfo, com a presença de manifestantes, de testemunhas e da mais alta autoridade tradicional das Lundas, o rei Mwatchissengue. A ideia é  “dialogar, trabalhar com todos, para evitar que situações como estas se repitam no futuro, para que as pessoas deixem de se manifestar com magia e não permitam que sejam manipuladas de forma grosseira”, explica o jornalista e ativista ao Observador, pelo telefone, a partir do Cafunfo.

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“Os rituais de magia ocuparam um lugar instrumental na mobilização de massas, sobretudo de camponeses, como um comando do poder tradicional contra a ordem político-constitucional”, defende o também fundador do Centro Ufolo, organização não governamental angolana, e diretor do Maka Angola.

Em “Magia&Miséria: Revolta em Cafunfo”, o ativista revela como as crenças nos feitiços potenciaram a violência; como as forças policiais torturaram, perseguiram e mataram, mesmo após a manifestação;  como o MPPLT manipula uma população que vive em pobreza extrema e como o governo de Luanda e o MPLA têm responsabilidades estruturais no que se passa nas Lundas.

Com mais de uma centena de entrevistas no local, consulta de correspondência trocada entre o MPPLT e a polícia, diligências de reconstituição no terreno e cruzamento de dados, Rafael Marques concluiu que morreram 13 pessoas, 16 ficaram feridas (incluindo Garcia Benvindo, de nove anos, atingido enquanto tomava o pequeno almoço) e seis estão desaparecidas.

Os números estão longe de ser definitivos, pois a “situação foi muito confusa, com testemunhos contraditórios e logo assumindo um caráter ideológico”. Para além disso, alguns dos participantes só agora estão a regressar das “matas, lavras e outras localidades onde se refugiaram”, alguns feridos, sem cuidados médicos, entregues apenas a curandeiros.

“Passei meses a investigar, não sei como no dia seguinte algumas pessoas tinham certezas e números certos” comenta Rafael Marques, para quem “houve alguma leveza na abordagem da questão”: “As pessoas na verdade não se preocupam com a vida humana, com quem está no terreno, mas com a notícia não confirmada que vai incendiar as redes sociais” critica ao Observador.

 Cafunfo, Cuango, Lunda Norte, Angola, 3 de fevereiro de 2021. Testemunhas ouvidas pela Lusa contam mais de 20 mortos durante os incidentes ocorridos sábado na vila mineira da Lunda Norte. (ACOMPANHA TEXTO DE 04/02/2021) AMPE ROGÉRIO/LUSA

Cafunfo. Nove em cada dez pessoas das Lundas é pobre

De uma coisa Rafael Marques não tem dúvidas: “A manifestação não foi pacífica”, garante o jornalista e ativista, contrariando o que alguns elementos da sociedade civil, do MPPLT e deputados da oposição argumentaram então. As mesmas forças que, denuncia, tentaram boicotar a sua investigação:

“Os membros do Movimento do Protectorado Potuguês Lunda-Tchokwe que nos acompanhavam [no Cafunfo] começaram a receber várias ameaças, incluindo de morte por via do oculto ou pela violência. Com extraordinária rapidez e amplo apoio, essas chefias bem identificadas uniram esforços com políticos de um partido da oposição e ativistas associados, em Luanda. Essa articulação permitiu difundir campanhas de desinformação e calúnia nas redes sociais que visavam impedir a livre recolha de depoimentos e desencorajar a continuidade do trabalho”.

E continua: “Nos piores momentos das nossas anteriores investigações nas Lundas, mesmo quando fomos emboscados e corremos sérios riscos de vida, nunca lidámos com ameaças desta natureza contra as nossas fontes”. Nada que o fizesse desistir, já que, justifica, “em momento algum aceitamos como justificável o recurso à violência, seja para protestar, seja para reprimir”.

A blindagem contra as balas e o satélite internacional

À medida que ia visitando as comunidades e falando com os participantes, percebeu que tinham “recorrido a rituais de magia na preparação da marcha” de protesto. Isso mesmo revelam muitos depoimentos transcritos no livro. Um dos mais claros é o de António Samussuia ao descrever como durante três dias, mais de 200 manifestantes acamparam na margem do rio Kandanje para a preparação que incluía banhos rituais “com botânica”, jejum durante três dias e abstinência sexual. “Quem não cumpre com as txijilas [leis da tradição] morre”, explicou, referindo que os mais-velhos (líderes tradicionais e do MPLT) já anteviam mortes com a manifestação.

Na noite que antecedeu a marcha (que começou às quatro da madrugada ) os manifestantes entoaram cânticos mágicos e cristãos “e entretiveram-se com uma roda de dança animada por mais de 20 mulheres, algumas só vestidas com mulambas [vestimenta que cobre apenas os órgãos genitais]”. Alguns pernoitaram mesmo nas imediações da esquadra da polícia, sem serem detetados.

Uma hora antes da marcha “deu-se o processo da ‘botânica’, como é conhecido o ritual da blindagem mágica dos manifestantes”. Distribuíram fitas vermelhas a alguns para porem na cabeça, “senhas de bravura, de motivação para o não recuo”, recordou Samussuia e um pó.

O pó branco colocado na mão e na testa é o mucundo. Trata-se da blindagem do indivíduo para a proteção contra as balas. O outro pó branco, a pemba, era para o avanço destemido diante do fogo”.  A pemba e o mucundo são feitos a partir de raízes extraídas à beira de rios locais.

As mulheres, a quem Samussuia dá um pendor fantástico, dizendo serem da tradição “e que os inocentes não viam a dançar”, deviam ser posicionadas na primeira linha da manifestação, servindo como as guardiãs dos segredos da txijila.

Feitos os preparativos, os líderes da marcha introduziram aqui um elemento de modernidade:  “Recebemos um telefonema da nossa liderança, em Luanda, com a orientação de que o satélite internacional já nos estava a filmar e o mundo acompanharia a nossa manifestação em direto, logo tínhamos de partir”, conta outro interveniente.

E partiram, depois de três dias sem comer nada. Foram com paus, catanas, fisgas, foices, arcos e flechas, pedras e uma espécie de espada: poku ya muela. Surpreenderam a polícia, atacaram o inspector-chefe 23 com catanadas na cabeça, tendo sido esfaqueado quatro vezes nas costas e duas nas nádegas, a pouco mais de 11 metros da esquadra. As autoridades reagiram com balas de borracha e gás lacrimogéneo. Da investigação de Rafael Marques resulta que o inspetor foi a primeira vítima e não um manifestante, Borges Maunda como alguns disseram, justificando a investida contra a esquadra.

Seguiram-se outros confrontos, que Rafael Marques descreve cronologicamente, com a polícia já reforçada com as Forças Armadas e a usar balas reais, depois de um tenente-coronel que tentou acalmar a multidão com os braços no ar ter sido violentamente atacado. Até que o pior aconteceu no “matadouro”, o Jango: a polícia matou vári0s manifestantes, chegando a espezinhar e maltratar feridos.

Vimos o Adilson a ser pisoteado na cara por um polícia. Ele gritava não me matem como um animal. Um dos polícias respondeu-lhe: ‘Você é um animal e tem de morrer aqui’. Morreu mesmo ali”.

Os voadores, alguns com excesso de peso, e o mais-velho que se transformou em gato

A crença nos feitiços existiu dos dois lados. “Os participantes sentiam-se com extraordinários poderes para confrontar, com violência, as forças de defesa e segurança”, escreve Rafael Marques, para quem os chefes do MPPLT consolidaram, com estes rituais, o seu poder junto das massas, em Cafunfo, “sujeitas a um sistema rigoroso de quotização monetária para o seu próprio sustento”.

Acreditavam ser imunes aos ferimentos e à morte, tinham ordens para continuar: “Recebemos orientação dos nossos chefes segundo a qual quem morreu, morreu, como na guerra. E era preciso avançar, avançar mesmo contra os disparos”, recorda um dos participantes.

“Só tive noção do valor da vida depois de regressar a casa, em segurança. Quando nos juntámos para a concentração, não havia medo nem valorização da vida”, confessa Xapassa Maluembe, destacado membro do MPPLT.

O mundo “do realismo mágico” está sempre presente nos relatos: “Com a magia, conseguimos travar os dois carros” da polícia, acredita Samussuia.

Entoando cânticos, baixávamos, atirávamos terra ao ar e assim corríamos com a tropa”, diz Nelito Natxiqueira. “Quando os tiros se intensificaram junto ao Boss Kim, os que tinham a boa preparação botânica começaram a voar e a desaparecer diante dos polícias”, crê Kavula Manuel.

São vários os depoimentos destes voos. O mais curioso é o de Cauinuine Mwatxilungo: “Para nos protegermos das balas atirávamos areia para o ar e avançávamos a cantar. Eu tinha a proteção da botânica e também tinha uma pomba que, na tradição chamamos de liembe“. Com ela, diz que conseguiu socorrer duas pessoas que o ladeavam.

Voámos os três mas, por causa do excesso de peso, não conseguimos ir muito longe. Voámos até ao Rio Nossa [a pouco mais de dois quilómetros]. Já Moisés Kavula, que também diz ter voado, contou a Rafael Marques que quando os manifestantes voavam “a polícia via fumo”.

Um dos oficiais da Polícia da Guarda Fiscal terá acreditado mesmo que “os manifestantes eram imbatíveis, à prova de bala, e desatou aos gritos”, fazendo a sua própria magia.

‘Todos pisamos na terra, cada um tem a sua tradição. Peguei na minha arma, atirei-a ao chão. Saltei a arma algumas vezes. Passei areia no cano da arma, cuspi lá dentro, e fiz uma invocação’“. De seguida, “‘retirei as balas do carregador e coloquei uma bala especial preparada de acordo com a tradição, que eu tinha no bolso'”.

Disse ter praticado “o lukassa, ritual para destruir a blindagem”. Disparou contra a perna de um manifestante, ele começou a coxear, “‘os outros perceberam que já não tinham blindagem e muitos começaram a fugir”. O atirador atingiu depois, “com um tiro na perna, a mulher que levava à cabeça ‘a panela de barro da tradição onde caíam as balas disparadas contra os manifestantes’. A panela caiu, a ginguba [amendoins] nela contida espalhou-se pelo chão. Aí, os manifestantes já não tinham qualquer proteção botânica”.

Conta ainda que disparou “contra um conhecido líder local. ‘Olhámo-nos e quando disparei o mais-velho transformou-se em gato e fugiu. Mas abriu o caminho para a fuga de muitos manifestantes'”.

Quatro dias depois dos incidentes em que vários dos seus filhos perderam a vida, Cafunfo chora os mortos, procurando ainda os corpos das vítimas, e lamenta a perda das vidas de inocentes, Cafunfo, Cuango, Lunda Norte, Angola, 3 de fevereiro de 2021. Testemunhas ouvidas pela Lusa contam mais de 20 mortos durante os incidentes ocorridos sábado na vila mineira da Lunda Norte. (ACOMPANHA TEXTO DE 04/02/2021) AMPE ROGÉRIO/LUSA

Cafunfo não tem infraestruturas básicas como saneamento, por exemplo

Mas se os manifestantes creram que eram à prova de bala como explicam as mortes e os feridos? “Segundo os anciãos, para que a magia funcione é necessário observar a txijila — os mandamentos de proibição: abstinência sexual durante alguns dias, não comer certos alimentos, como carne de porco e seus derivados, etc.” Ora, dizem-se traídos por um dos mais influentes mestres que deu de comer carne de porco a alguns importantes membros do MPPLT.

Por outro lado, houve quem matasse duas galinhas antes da marcha porque estavam com fome, quebraram o jejum. Também “violaram o princípio do ritual, de luta pacífica, ao terem derramado sangue do inspector-chefe. ‘A botânica, para ter efeito, recomendava a não violência’“, explica Xapassa Maluembe. E Adolfo Xamutela acrescenta mais uma infração às txijilas: muitos não seguiram à risca a abstinência sexual.

A verdade, lamenta Rafael Marques, é que “alguns participantes citam a magia como fonte de empoderamento para a sua defesa contra a repressão policial. Também a mencionam como um instrumento para a agressão contra a polícia e para a vitória.” A questão fundamental, aquela que esta segunda-feira vai reforçar ao lançar o seu livro, é só uma, diz ao Observador:

É saber se queremos ser governados pela magia ou pela ciência. A resposta é que vai determinar o tipo de sociedade que queremos”.

“Aliados ou não a uma causa errada, matam-nos sempre. Aqui acabam com a nossa vida”

Nos depoimentos recolhidos, a pobreza, mais do que a autonomia preconizada pelo MPPLT — “reivindica a independência de praticamente metade do território angolano, englobando as províncias de Kuando-Kubango, Lunda-Norte, Lunda-Sul e Moxico” — foi o grande motivo para a manifestação. “Aqui, nesta terra rica em diamantes, matabichar [tomar o pequeno-almoço], almoçar e jantar é um milagre”, diz Angelino Samutondo. “Chegámos à Polícia Fiscal a cantar em tchokwe: ‘Podem bater-nos, podem matar-nos, as riquezas são dos Tchokwe. Não vamos parar'”. Com 36 anos, desabafa: “Em Cafunfo, ter emprego é ter magia”.

Alberto Samussuia, de 47 anos, vai no mesmo sentido: “O governo só promete e não cumpre. Aqui só vemos o avanço das ravinas, a ausência de empregos e a miséria”. Mais desencantado ainda mostra-se Kavula Manuel: “Foi o sofrimento que nos levou a nos juntarmos a esta causa. Aliados ou não a uma causa errada, matam-nos sempre. Aqui acabam com a nossa vida, com ou sem manifestação. Qualquer movimento que apareça a prometer mudanças é para apoiar”.

Não foi a primeira vez que incidentes deste género ocorreram: em 2004 houve repressão policial, precisamente em frente à mesma esquadra, na chamada manifestação dos geradores, tendo morrido 12 pessoas, vários feridos e 17o detenções. A tragédia só não foi maior porque quando a esquadra da polícia fiscal foi cercada, o comandante René proibiu os agentes de dispararem evitando um banho de sangue. “Preferiu ser brutalmente atacado pela multidão, bem como os seus homens”. Rafael Marques, que há muitos anos tem alertado para o potencial de revolta na Lunda-Norte, enaltece a “bravura deste homem que escolheu proteger vidas humanas, dos agressores, arriscando a sua”.

Cafunfo, com 290km2 e mais de 162 mil habitantes, “não tem qualquer estatuto político-administrativo”. Não é bairro, nem distrito, nem comuna nem município. A principal instituição do Estado é a 2ª esquadra da Polícia Nacional, com cerca de 60 agentes e oficiais. Recorre à infantaria das Forças Armadas de Angola para reforçar a capacidade de resposta. “Cafunfo é o único ponto do país onde os efetivos das FAA exercem regularmente funções de ordem pública”.

Cafunfo, Cuango, Lunda Norte, Angola, 3 de fevereiro de 2021. Testemunhas ouvidas pela Lusa contam mais de 20 mortos durante os incidentes ocorridos sábado na vila mineira da Lunda Norte. (ACOMPANHA TEXTO DE 04/02/2021) AMPE ROGÉRIO/LUSA

Com muitas ravinas e buracos, Cafunfo não tem estatuto politico-administrativo

A rainha Mwana Cafunfo, a mais alta autoridade tradicional em Cafunfo, chora a falta de estradas, de água e luz. “Somos uma população abandonada pelo governo. Há muito que o país está em paz, mas aqui nem a paz vemos”. São 50 quilómetros de terra batida que separam Cafunfo da sede municipal, no Cuango, quase intransitáveis, lamenta Rafael Marques, que demora mais de quatro horas a percorrer. Não é por falta de dinheiro, está-se na “maior zona de exploração aluvial de diamantes do país”, apesar de “9 em cada dez pessoas nessas localidades serem pobres”.

O ativista cita dois exemplos do dinheiro gerado com os diamantes das Lundas para “bolsos alheios”. David Reinous, o antigo “comprador  de diamantes, demonstrou que, de 2003 a 2008, a empresa belga Omega Diamonds, associada a Isabel dos Santos [filha do ex-Presidente José Eduardo dos Santos], engendrou um esquema de branqueamento de capitais”, avaliado em 4,6 mil milhões de dólares (3,9 mil milhões de euros). “Comprava diamantes angolanos a preços abaixo do valor de mercado nos Emirados Árabes Unidos e na Suíça, e levava-os para a Antuérpia”.

O segundo caso referido em “Magia&Miséria” é o das concessões diamantíferas do Catoca, Cuango e Chitolo: reportaram perdas combinadas entre 2012 e 2018 de 754 milhões de dólares [650 milhões de euros] pela venda de diamantes, “24% abaixo dos preços do mercado, aos clientes preferenciais da Sodiam”. Ou seja a “Iaxhon, Odyssey e Relactant, todos do universo de Isabel dos Santos e do seu malogrado esposo, que depois os revendiam com lucros extraordinários”.

O que se passou em Cafunfo tem na sua génese vários factores, enumera Rafael Marques: “Ignorância, miséria, negligência e incompetência política são a argamassa para a radicalização sangrenta a que se assistiu em Cafunfo, aproveitada por política e intransigência, cujos resultados só podem ser funestos”.

E se é um “facto óbvio que a situação estava extremamente tensa antes de 30 de janeiro”, não é menos evidente “que assim permanece”, escreve o ativista.

É por isso que o ativista, não deixa de apontar claramente o dedo ao governo angolano e ao MPLA  pelos anos de omissão no terreno. “A realidade das Lundas confundiu-se permanentemente com a das companhias de diamantes, que aí actuaram com verdadeiros exércitos privados impondo as suas leis”. Os compradores de diamantes, sobretudo os estrangeiros, “aí estabelecidos com a proteção de altos governantes e altas patentes, potenciaram um quadro de violência e absoluta exploração de mão-de-obral local”.

O livro/relatório de Rafael Marques não termina sem algumas recomendações. Estas passam por um Plano Integrado de Desenvolvimento das Lundas assente no crescimento económico auto-sustentado, educação e saúde” financiado com os proventos dos recursos naturais da região” e envolvendo o Estado, sociedades mineiras e comunidades locais.

Rafael Marques já tem vindo a trabalhar no campo da educação: estava aliás, a poucos quilómetros de Cafunfo a 30 de janeiro, para implantar no terreno um projeto tripartido de educação envolvendo o Centro de Estudo para a Boa Governação Ufolo o Ministério da Educação e a fundação Ulwazi.