Tem acesso livre a todos os artigos do Observador por ser nosso assinante.

Samuel Umtiti formou-se e destacou-se no Lyon. Ganhou uma Taça de França e uma Supertaça ao longo das cinco épocas em que esteve na equipa principal, atuando ao lado de nomes como Lloris, Lacazette ou o português Anthony Lopes, e em 2016 chamou a atenção do Barcelona. Assinou pelos catalães, tornou-se opção regular ao lado de Piqué com o passar dos anos, foi duas vezes campeão espanhol e mereceu a convocatória para o Mundial 2018, onde conquistou o troféu enquanto titular no eixo defensivo francês na final contra a Croácia. Mas, de repente, Umtiti desapareceu.

Tudo começou, aparentemente, nesse mesmo ano do Mundial da Rússia. No final da temporada 2017/18, o central sofreu uma lesão no joelho e foi rapidamente aconselhado a ser submetido a uma cirurgia de forma breve. Ora, o problema era que, se fosse operado naquela altura, Umtiti não poderia ser convocado por Didier Deschamps e falharia o Campeonato do Mundo. Dando prioridade total à seleção e à competição, o jogador optou por adiar a cirurgia, realizou apenas tratamento conservador e foi conquistar o troféu ao lado de Pogba, Griezmann e companhia. De forma natural, passou grande parte de 2018/19 lesionado e sem ser opção para o Barcelona.

O defesa que começou como avançado, que não abdica da sesta e que esteve para ser notícia por trocar o Barça pelo Real

A segunda parte da justificação para o desaparecimento de Umtiti prende-se com a chegada de Ronald Koeman à Catalunha. O central francês não é nem nunca foi opção para o treinador, que prefere juntar Piqué a Ronald Araújo e Lenglet ou até aos jovens Eric García e Mingueza, e Umtiti participou em apenas 16 partidas ao longo de toda a época passada. Este ano, contudo, ainda não somou um único minuto. “Não me sinto o sexto central do plantel mas, de momento, é o que sou. Preciso de uma oportunidade. Senti-me sozinho, sim. É essa a palavra. O mundo é assim mas pelo menos agora estou forte e posso continuar a trabalhar. Acreditei sempre que poderia voltar a jogar e a desfrutar do futebol mas foi muito duro”, começa por contar o jogador numa longa entrevista ao Mundo Deportivo.

PUB • CONTINUE A LER A SEGUIR

“Sinto-me muito bem fisicamente. Aguento os treinos e tenho muita vontade de jogar. Estou à espera do momento de o voltar a fazer, mas a nível físico estou bem. Foi um pouco duro… Vivi momentos duros com esta lesão mas, agora que estou bem, estou feliz. Gostaria de jogar e ajudar a equipa, tal como todos os jogadores, mas por agora tenho de continuar a treinar ao mais alto nível. Há um treinador que toma as decisões e eu tenho de aceitar. Se não jogo, devo treinar mais do que os outros e demonstrar que tenho nível para o fazer”, acrescenta o francês, que garante que está em melhor forma física do que quando chegou ao Barcelona, em 2016.

Belgium v France: Semi Final - 2018 FIFA World Cup Russia

O central marcou o golo da vitória de França contra a Bélgica, na meia-final do Mundial 2018, carimbando a passagem francesa à final que acabaria por ganhar

Umtiti garante que “ama” o Barcelona e que, apesar de ter recebido várias sondagens para dar um novo passo na carreira, não quis sair. Pediu uma reunião com Joan Laporta durante o verão, para discutir a possibilidade de regressar ao Lyon ou de assinar pelo Manchester United (onde a alternativa acabou por ser Varane), e não escondeu a emoção. “Chorei, sim. Conversámos sobre assuntos muito difíceis e foi tudo muito intenso para mim. Sou uma pessoa que não fala muito mas, se digo algo, digo-o com o coração”, revela o central, sublinhando que não se imagina a jogar noutro clube. “É impossível. Quero mostrar que tenho nível para jogar aqui”, atira, confessando depois que nem sempre sente que o esforço que fez para recuperar é reconhecido pelos adeptos.

“Ninguém sabe o que fiz ou o que faço. Os treinos que faço, as duplas sessões… Sou um trabalhador. O futebol é a minha vida, o Barcelona é a minha vida. No final do dia, tenho de trabalhar mais do que todos os outros. Como não falo, as pessoas acham que não faço nada, que estou no sofá todos os dias sem fazer nada. Mas trabalho até em casa, treino todos os dias”, explica Umtiti. Mesmo afastado da equipa e das grandes competições, o jogador de 27 anos garante que sofre com o período negativo do Barcelona e não esconde que o clube foi apanhado pela evolução do futebol e não soube adaptar-se a tempo.

Samuel Umtiti lesiona-se no segundo treino do FC Barcelona

“É duro para toda a gente e ainda mais para nós. Tentamos sempre jogar bem, ganhar os jogos, e isso é muito complicados. Temos de saber que, no futebol atual, é cada vez mais complicado ganhar. Há mais intensidade. O futebol mudou e nós temos de mudar também. Estamos a mudar a forma de jogar, antes só precisávamos de ter posse de bola para ganhar. Agora existem muitos detalhes, também a nível tático. O futebol mudou, qualquer equipa pode ferir-te e antes isso não acontecia. Agora temos de estar muito preparados, mais do que antes. Temos de mudar a mentalidade porque no Barça era só a posse, jogar tranquilos. Agora não, temos de jogar como antes, com a bola, mas com muito mais intensidade e com um bom posicionamento. São detalhes táticos e, se não os tens, podes perder os jogos”, termina Umtiti.