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A Austrália vai disponibilizar uma verba de 5.000 dólares australianos (cerca de 3.200 euros) para vítimas de violência doméstica que procurem abandonar os seus parceiros agressores, uma medida iniciada na última terça-feira.

O programa Escaping Violence Payment (pagamento para escapar à violência) faz parte de um pacote total de 1.1 mil milhões de dólares australianos (cerca de 709 milhões de euros) destinado à segurança das mulheres, anunciado em maio, diz a CNN.

Apesar de a iniciativa se estender a todos os géneros, é esperado que a maioria dos candidatos a estes fundos seja de sexo feminino, num país onde, a cada nove dias, uma mulher é assassinada pelo seu parceiro, de acordo com dados do governo local.

Mary Crooks, diretora do Victorian Women’s Trust, diz que o debate da desigualdade de géneros se deve concentrar na cultura patriarcal, que coloca os homens como chefes de família, e na maioria das posições de poder, e questiona porque devem ser as mulheres a abandonarem o seu lar:

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Há aqui uma grande questão moral e ética. Porque é que uma mulher tem de passar por mais traumas e uma deslocação da sua vida quando não foi ela que provocou os problemas? Porque tem de ser ela a pegar nas crianças e animais de estimação à pressa, e, possivelmente, não conseguir encontrar um lugar num centro de apoio?”, disse Mary.

O Global Gender Gap Report, da World Economic Forum, que analisa a disparidade entre os géneros, colocou a Austrália no 50º lugar do seu ranking, muito atrás de países como os Estados Unidos, o Reino Unido, França e a “vizinha” Nova Zelândia. No entanto, o governo australiano tem movido esforços para “encurtar” esta diferença, pelo menos em termos económicos: a discrepância de salários entre homens e mulheres encontra-se, neste momento, em 13,4%, de acordo com o Women’s Budget Statement (Declaração do Orçamento das Mulheres) do governo.

O poder local aponta, também, para o aumento dos casos de violência doméstica, provocado pelos confinamentos para conter a pandemia da Covid-19, como um dos grandes problemas.

O estado de New South Wales anunciou um investimento de 484 milhões de dólares australianos (311 milhões de euros) para a construção de 75 novos centros de apoio a mulheres. Apesar da iniciativa do governo australiano, as medidas tomadas ainda estarão longe de o conseguir atingir: de acordo com os sindicatos do Conselho do Comércio Australiano, o custo de contratar um advogado e uma empresa de mudanças, e preparar uma casa nova para viver, será, em média, de 18.000 dólares australianos ( 11.600 euros).

O problema de violência contras as mulheres no país é bastante grave entre a população indígena, de acordo com a Our Watch: sofrem mais ataques, e têm uma probabilidade 11 vezes maior de morrer às mãos dos seus parceiros.

A diretora do Victorian Women’s Trust afirmou que, por muito difícil que seja, para mulheres brancas, acusar os seus parceiros de violência e sair de casa, os preconceitos judiciais no sistema australiano fazem com isso seja ainda mais difícil por parte das indígenas.