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A saída de Hansi Flick e a entrada de Julian Nagelsmann no Bayern Munique foi uma das grandes histórias do final da época passada. Assim que Joachim Löw anunciou que iria deixar a seleção da Alemanha depois do Euro 2020, as peças do puzzle alinharam-se e o carrossel começou a andar, levando Flick para selecionador e tirando Nagelsmann do RB Leipzig para o colocar nos bávaros. Com pouco mais de 30 anos, o treinador assumia uma das melhores e maiores equipas da Europa, começava a ter o reconhecimento merecido de ser um dos técnicos mais entusiasmantes da atualidade e abria a porta à possibilidade de conquistar os primeiros títulos da carreira.

Tudo isto, à entrada para o jogo desta quarta-feira entre o Benfica e o Bayern Munique, já era conhecido. O que não se sabia sobre Julian Nagelsmann era que o treinador, que chegou a ter a alcunha de “mini-Mourinho” quando foi adjunto no Hoffenheim, é um admirador de Jorge Jesus. “Tem um futebol atrativo. Não é um jovem como eu, tem mais experiência. É interessante ver como continua a viver esta profissão com toda a sua paixão. É uma das pessoas que acompanho no futebol e estou entusiasmado por encontrá-lo”, disse o técnico alemão, 33 anos mais novo do que Jesus, na antevisão.

Ficha de jogo

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Benfica-Bayern Munique, 0-4

Fase de grupos da Liga dos Campeões

Estádio da Luz, em Lisboa

Árbitro: Ovidiu Hategan (Roménia)

Benfica: Vlachodimos, Lucas Veríssimo, Otamendi, Vertonghen, André Almeida (Diogo Gonçalves, 40′), João Mário (Taarabt, 81′), Weigl, Grimaldo, Rafa (Pizzi, 81′), Yaremchuk (Everton, 76′), Darwin (Gonçalo Ramos, 81′)

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Suplentes não utilizados: Helton Leite, Gilberto, Meïté, Radonjic, Paulo Bernardo, Morato, Ferro

Treinador: Jorge Jesus

 

Bayern Munique: Neuer, Pavard (Gnabry, 66′), Upamecano, Süle, Lucas Hernández (Tolisso, 86′), Kimmich, Sabitzer (Richards, 86′), Coman (Musiala, 86′), Müller (Stanisic, 76′), Lewandowski, Sané

Suplentes não utilizados: Früchtl, Choupo-Moting, Sarr, Marc Roca, Nianzou

Treinador: Julian Nagelsmann

Golos: Sané (70′ e 84′), Everton (ag, 80′), Lewandowski (82′)

Ação disciplinar: cartão amarelo a Otamendi (45′), a João Mário (51′), a Upamecano (56′), a Lucas Hernández (59′)

Nagelsmann voltava à Luz, onde venceu com o RB Leipzig em setembro de 2019 também na fase de grupos da Liga dos Campeões, no ano em que os alemães acabariam por chegar às meias-finais da competição. Já o Bayern Munique voltava ao local onde, também na fase de grupos da Champions mas em 2018/19, bateu o Benfica de Rui Vitória com golos de Lewandowski e… Renato Sanches. Esta quarta-feira, os encarnados procuravam inverter um histórico de resultados que é manifestamente negativo: em 11 partidas contra os alemães, o Benfica nunca ganhou, perdeu sete vezes e empatou três.

Sem Lázaro, Seferovic, Gedson Fernandes e Rodrigo Pinho, todos lesionados, Jorge Jesus não surpreendia e lançava o onze inicial que, em teoria, é o mais forte. Vertonghen, Otamendi e Lucas Veríssimo formavam o trio de centrais, André Almeida era titular na direita da defesa e Grimaldo na esquerda, João Mário e Weigl ocupavam o meio-campo e Rafa, já recuperado da lesão que até o afastou da Seleção Nacional, juntava-se a Darwin e Yaremchuk no ataque. Do outro lado, Julian Nagelsmann não podia contar com Alphonso Davies, por lesão, e Goretzka, que está a recuperar de um gripe. O Bayern Munique alinhava assim com Lucas Hernández a lateral esquerdo, em substituição do canadiano, um meio-campo com Sabitzer e Kimmich e o trio Müller, Sané e Coman no apoio a Lewandowski. A grande surpresa era mesmo a titularidade de Coman, o jogador que marcou na Luz o golo que deu a Liga dos Campeões aos alemães em 2020, ao invés de Gnabry, que começava no banco.

A primeira notícia do jogo apareceu ainda antes do apito inicial, com o Bayern Munique a revelar que Julian Nagelsmann não estaria no banco a orientar a equipa devido a uma “infeção tipo gripe”. Nos instantes iniciais, o Benfica deu desde logo a intenção de que iria procurar pressionar alto e recuperar bolas na zona intermédia enquanto mantinha a linha defensiva de cinco muito fixa e compacta. Os alemães também entraram bem e criaram as duas primeiras grandes oportunidades do jogo, com Sané a rematar cruzado mas ao lado (5′) e Lewandowski a forçar Vlachodimos a uma enorme defesa na sequência de um cabeceamento (9′). Do outro lado, Yaremchuk apareceu em boa posição para atirar de cabeça, depois de um cruzamento de Rafa na direita (13′), mas o desvio do ucraniano saiu muito desenquadrado.

Nesta fase, Darwin era o elemento que se ia destacando no Benfica — mas principalmente pelas tarefas defensivas. O jogador uruguaio mostrava-se muito responsável na hora de ser o primeiro jogador a pressionar, recuava para ir buscar jogo, aproximava-se de João Mário e Weigl e era uma ferramenta importante para encurtar os espaços de Kimmich. A partir do primeiro quarto de hora, o Bayern desacelerou e deixou de entrar com tanta facilidade no último terço adversário, permitindo aos encarnados discutir mais a partida na zona do meio-campo e conquistar mais metros e minutos contínuos de posse de bola.

Já à passagem da meia-hora, Vlachodimos voltou a ser decisivo com uma grande defesa na sequência de um remate cruzado de Coman (29′). Pouco depois, porém, a Luz explodiu para ver Darwin ficar perto do golo: o avançado uruguaio apareceu isolado depois de um passe longo de Lucas Veríssimo, aproveitando o trabalho sem bola de Yaremchuk, e driblou Süle para depois atirar à baliza (33′). Neuer respondeu com uma enorme defesa e evitou o golo do Benfica. Sané também surgiu com muito espaço no corredor central (38′), atirando rasteiro e ao lado naquele que foi talvez o único lance em que a defesa do Benfica esteve desatenta. Já perto do intervalo, Jorge Jesus foi forçado a realizar a primeira substituição da partida, já que André Almeida ressentiu-se dos problemas físicos que o têm afetado e saiu para deixar entrar Diogo Gonçalves, e Lewandowski acabou por conseguir colocar a bola na baliza — mas com pouco sucesso.

O avançado polaco apareceu a desviar a bola ao primeiro poste, em antecipação a Vlachodimos e depois de um cruzamento de Coman na direita, e abriu o marcador durante alguns segundos (22′). O árbitro da partida, porém, acabou por anular o golo depois de ouvir o VAR porque Lewandowski tocou a bola com o braço. Benfica e Bayern Munique chegavam assim ao intervalo ainda empatados a zeros, algo que não deixava de ser muito positivo para os encarnados, e a equipa de Jorge Jesus ia realizando uma exibição assinalável. Apesar do natural ascendente dos bávaros, o Benfica estava praticamente perfeito a defender — com destaque para o acerto de Otamendi e Vertonghen e a saída de bola de Veríssimo –, o meio-campo funcionava muito bem enquanto tampão para a criatividade de Kimmich e Darwin estava a ter uma noite de grande sacrifício mas de enorme qualidade, entre as tarefas defensivas e a preponderância ofensiva.

Na segunda parte, nenhum dos treinadores fez substituições e o Bayern Munique voltou a ensaiar um arranque demolidor como havia feito no primeiro tempo. Pavard acertou no poste logo nos primeiros instantes, num remate que Vlachodimos ainda desviou com o pé (47′), e o Benfica precisou de alguns minutos para voltar a agarrar a partida. Foi nesse período que os alemães acabaram por colocar novamente a bola no fundo da baliza, desta feita através de uma recarga de Müller depois de um pontapé inicial de Sané (52′), mas o golo voltou a ser anulado pelo VAR por fora de jogo de Coman no início do lance.

Depois do susto, a equipa de Jorge Jesus recompôs-se. Diogo Gonçalves teve uma enorme oportunidade para abrir o marcador, com um remate cruzado depois de um contra-ataque exímio do Benfica, mas Neuer voltou a ser decisivo (55′). Lucas Veríssimo cabeceou ao lado logo a seguir (59′), o mesmo Diogo Gonçalves atirou ao lado em posição frontal (67′) e Yaremchuk ganhou em força a Upamecano para depois também falhar o alvo (68′) — os encarnados viviam o melhor momento na partida, somavam transições rápidas consecutivas depois de recuperações de bola em zona adiantada e ficava a ideia de que um eventual golo do Benfica já nem seria uma surpresa. O Bayern reagiu a essa instabilidade com a primeira substituição, tirando Pavard e lançando Gnabry para lateral direito, numa clara indicação de que era preciso arriscar um pouco mais.

A 20 minutos do fim, porém, a qualidade individual fez a diferença. Num livre descaído na direita, Sané atirou direto de pé esquerdo e não deu hipótese a Vlachodimos (70′), ficando a ideia de que a barreira dos encarnados poderia ter feito melhor. O Benfica reagiu bem à desvantagem, mantendo as linhas elevadas e a capacidade para sair em velocidade e com perigo, mas começou a ser notório o desgaste físico dos jogadores. Jesus tentou responder a isso mesmo ao trocar Darwin, que estava praticamente exausto, por Everton — e o brasileiro acabou por ficar ligado ao início do desmoronar do castelo de cartas que o Benfica vinha a construir.

Gnabry desequilibrou na direita, tentou cruzar para Sané mas Everton colocou a bola na própria baliza com um toque de cabeça (80′). A partir daí, já pouco foi possível: Lewandowski aumentou a vantagem com um desvio depois de Lucas Veríssimo não conseguir desarmar Sané (82′) e o mesmo Sané bisou, de primeira, na sequência de um cruzamento de Gnabry (84′). Pizzi, Taarabt e Gonçalo Ramos ainda entraram, apesar de não terem tido praticamente qualquer impacto no jogo, e o Benfica perdeu o jogo com quatro golos sofridos em menos de um quarto de hora e na sequência de um total desnorte depois do autogolo de Everton.

O Benfica sofreu a primeira derrota na Liga dos Campeões mas mantém-se no segundo lugar do Grupo E, atrás do Bayern Munique e à frente do Barcelona, muito graças à vitória alcançada frente aos catalães na jornada anterior. Darwin, que foi quase sempre o melhor jogador dos encarnados à exceção de Vlachodimos e ficou até muito perto de marcar, quis construir um castelo a defender e a atacar — quando deixou a torre, as cartas caíram com um sopro. Ainda assim, a equipa de Jorge Jesus deixa na memória uma exibição muito positiva e para lá de corajosa onde a sorte, se tivesse aparecido, poderia ter permitido um resultado bastante diferente.