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Jens Weidmann vai deixar o Bundesbank, o banco central alemão, no final do ano – e “sai por razões pessoais”. Weidmann, que chegou a ser candidato à liderança do Banco Central Europeu sendo preterido pela francesa Christine Lagarde), foi nos últimos anos o maior crítico dos estímulos monetários promovidos pelo BCE desde aqueles que foram lançados sob a liderança do italiano Mario Draghi.

Ao longo de mais de 10 anos, Weidmann defendeu de forma acérrima a ortodoxia alemã no seio do Conselho do BCE. E acabou por ser “sacrificado” quando Angela Merkel decidiu não insistir na sua nomeação para suceder a Mario Draghi – isto porque Weidmann era visto por muita gente, sobretudo em França e Itália, como o “homem mais perigoso da Europa” por ter alertado sempre para os riscos da política monetária que facilitou o financiamento desses e de outros países, incluindo Portugal, nos últimos anos.

O “homem mais perigoso da Europa” fora da corrida ao BCE. Portugal deve deitar foguetes?

A saída de Weidmann foi comunicada através da conta oficial do Deutsche Bundesbank no Twitter. “Cheguei à conclusão de que mais de 10 anos é uma boa medida de tempo para agora virar a página – para o Bundesbank e também para mim, pessoalmente“, pode ler-se na mensagem. O banqueiro tinha mais cinco anos de mandato para cumprir.

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Todos os anúncios mais emblemáticos de Mario Draghi — desde a promessa de garantir que o euro era “irreversível” até ao programa de compra de dívida dos países, passando pelas taxas de juro negativas — tiveram como principal opositor Jens Weidmann, o alemão que foi consistentemente vencido nas votações do Conselho do BCE, em variadíssimas reuniões do organismo. Em poucas palavras, quando na conferência de imprensa os jornalistas perguntavam a Draghi se esta ou aquela decisão tinha sido “unânime”, uma resposta “não” normalmente indicava que Weidmann, em representação do alemão Bundesbank, tinha votado contra.

Apesar dos vários anos em que orgulhosamente vestiu a pele de lobo solitário no Conselho do BCE, a maioria dos economistas e analistas de bancos de investimento apostavam que seria Weidmann a suceder a Draghi, em outubro de 2019. Essa era a visão predominante (mas não unânime) entre os investidores — em parte porque foi noticiado que essa posição lhe tinha sido prometida por Angela Merkel e, por outro lado, porque, depois de um holandês (Wim Duisenberg), um francês (Jean-Claude Trichet) e um italiano (Mario Draghi), muitos viam aqui o momento ideal para que um alemão assumisse o cargo. Assim que, em fevereiro, foi nomeado para vice-presidente o espanhol Luis de Guindos (que tomou o lugar do português Vítor Constâncio), Weidmann passou ainda mais intensamente a sinalizar o óbvio: queria o cargo para si.

Penso que todos os membros do Conselho do BCE devem ter a motivação criativa de se envolverem na política monetária num papel diferente”, afirmou em maio de 2018.

O apoio alemão ao espanhol De Guindos era parte desse plano que, a dada altura, Merkel estaria a engendrar para colocar Weidmann ao leme do BCE. Quer esse plano tenha sido real ou, apenas, uma ficção servida aos jornais alemães (acompanhada de salada de batata) a realidade é que Merkel já não estará interessada em colocar o seu “delfim” económico no lugar ocupado por Mario Draghi. Draghi que é, desde 2012, uma figura muito mal vista na Alemanha por estar a comprimir as taxas de juro e “confiscar” as poupanças dos alemães, com o intuito de dar “borlas” aos países do sul.

Jens Weidmann não foi apenas um crítico da política expansionista do BCE. O presidente do banco central alemão também nunca perdeu uma oportunidade para defender maior rigor também na Comissão Europeia. Sobre as metas orçamentais e as saídas (e entradas) no Procedimento por Défices Excessivos, Weidmann criticou várias vezes a forma “politicamente motivada” como essas decisões são tomadas, na sua opinião. Weidmann defendeu a “transferência dos poderes de vigilância orçamental para uma agência independente” que tivesse um “mandato claro e sem ambiguidades”, isto é, escudado de influência política.