Tem acesso livre a todos os artigos do Observador por ser nosso assinante.

Uma pintura de Vincent van Gogh vai ser leiloada em novembro, depois de mais de um século sem ser vista em público. Estima-se que o preço de venda chegue aos 30 milhões de dólares (cerca de 25 milhões de euros).

O quadro em questão foi pintado em 1888, numa fase em que a saúde do pintor piorou. Na altura, procurando melhores ares, retirou-se para Arles, no interior de França, onde ficou encantado com o estilo de vida rural que o rodeava, tendo pintado vários quadros relacionados com o campo e com as colheitas.

“Meules de blé” (“Fardos de Trigo”, em português), mostra exatamente isso — grandes pilhas de trigo acabadas de colher pelas trabalhadoras, também elas representadas na pintura, num cenário bucólico e colorido.

A história da pintura que nasceu em Arles, em contraste com a tranquilidade que transparece, veio a tornar-se longa e atribulada, segundo a casa de leilões Christie’s, que a dá a conhecer.

PUB • CONTINUE A LER A SEGUIR

Inicialmente, “Meules de blé” pertenceu ao irmão de Vincent, Theo van Gogh, e posteriormente à descendente Johanna van Gogh-Bonger. A pintura deixou de ser vista em público desde que esteve exposta no museu Stedelijk, em Amesterdão, em 1905.

Depois de algumas mudanças de mãos, foi comprada por Max Meirowsky, um industrialista judeu, em 1913. Durante o regime Nazi, Meirowsky foi forçado a fugir da Alemanha, nos finais de 1938, por causa da perseguição antissemita, e deixou a pintura a um comerciante de arte alemão em Paris.

Miriam Alexandrine de Rothschild, uma estudante de medicina, proveniente de uma família abastada, teve o quadro em sua posse depois de o herdar da coleção do pai, Edmond. Também de Rothschild foi forçada a fugir, desta vez por causa da eclosão da Segunda Guerra Mundial. De França, mudou-se para a Suíça, mas sem o quadro na bagagem.

Quando regressou a Paris, depois da guerra, conseguiu recuperar algumas das suas peças, mas “Meules de blé” tinha desaparecido. A pintura tinha sido confiscada pelos nazi durante a ocupação. Em 1941, foi transferida para o museu Jeu de Paume, usado pelo regime para guardar obras de arte consideradas “degeneradas”.

Segundo a casa de leilões, a pintura também foi levada para o castelo Schloss Kogl, na Áustria, onde entrou numa outra coleção privada não identificada. Daí, foi para “as mãos” da galeria Wildenstein & Co., em Nova Iorque, e posteriormente comprada por Edward Lochridge Cox, texano, colecionador, magnata do petróleo.

Por fim, depois da morte de Cox, o quadro passou para os seus herdeiros e finalmente entrou numa disputa entre estes, os herdeiros de Max Meirowsky e os herdeiros de Rothschild.

A Christie’s nota que houve um “acordo de resolução” entre as partes, que permite que o quadro esteja agora para licitação. Outras obras de artistas como Gustave Caillebotte, Paul Cézanne, Claude Monet e van Gogh estão agora em leilão como parte da coleção impressionista de Cox, em que “Meules de blé” está inserida.