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A fila de convidados tinha longos metros para a cerimónia da tomada de posse do presidente da Câmara do Porto e à entrada do Pavilhão Rosa Mota – Super Bock Arena estavam vários elementos dos Bombeiros Sapadores do Porto vestidos a rigor. O primeiro a chegar foi o protagonista, Rui Moreira, poucos minutos depois chega outra figura de destaque, Vladimiro Feliz, cabeça de lista do PSD no Porto, com quem o atual autarca celebrou um acordo recentemente para garantir a governação na cidade.

Foi precisamente sobre esta matéria que respondeu aos jornalistas, dizendo que foi um momento “intenso” e negociado “ao pormenor”. “Foi um acordo intenso, negociado ao pormenor, que visa acima de tudo assegurar a governabilidade da cidade. O PSD sempre fez uma oposição responsável e construtiva, que permite acima de tudo agregar um conjunto de medidas estruturais que integravam o no programa do partido e que desta forma também podem contribuir para a melhoria da qualidade de vida dos portuenses e do Porto.”

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Relativamente à validação do atual líder dos sociais democratas, Vladimiro Feliz garantiu que Rui Rio deu “liberdade total”. “Foi um acordo negociado a nível local e por isso não teve uma interferência especial do presidente do PSD. No momento em que o acordo assumiu alguma maturidade, eu próprio o informei e dei-lhe nota que estávamos a acordar uma série de medidas para a cidade e uma delas incluía a possível eleição do professor Sebastião Feyo de Azevedo para presidente da Assembleia Municipal. Deu-nos liberdade total, disse-nos que era um assunto de cariz local, confinava em nós e o que se fosse bom para o Porto, seria bom para ele também.

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A concordância de Rio não foi, porém, completamente clara. “O Dr. Rui Rio não concordou nem discordou, é uma conversa que fica entre mim e a ele. Entendemo-nos sempre os oito anos em que trabalhamos juntos e vamos entendermo-nos no futuro. Deu-nos abertura para fechar o acordo, há uma confiança mútua entre as partes”, assegurou.

Vladimiro Feliz rejeitou por completo a ideia de que o acordo celebrado com o movimento independente defrauda os eleitores que votaram PSD nas últimas eleições autárquicas. Neste acordo o que negociamos foi a implementação das medidas que propusemos aos portuenses. Acho que de forma alguma estamos a defraudar estas expectativas, estamos a cima de tudo a ter uma posição responsável com a cidade e colocamos os interesses dela acima de tudo”, explicou.

O representante do PSD na cidade discorda que o acordo em causa condicione a “oposição construtiva e colaborativa” do partido no executivo municipal. “Há um programa que venceu, uma candidatura que ganhou na cidade e temos de respeitar isso, é isso que o PSD está a fazer. Do nosso lado estão garantidas todas as condições para que haja estabilidade governativa na cidade e partir de agora compete a todos nós contribuir para um Porto melhor.” Vladimiro Feliz recorda que nos últimos anos o PSD viabilizou o orçamento municipal, por isso, garante, “não há aqui nada de transcendente”. “Acresce a isso o facto de termos conseguido negociar medidas estruturais do nosso programa como a redução fiscal ou a redução do preço da água”, enumera.

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O anúncio do acordo estabelecido foi alvo de duras críticas por parte de todos os partidos da oposição, Feliz considera-as “naturais” e também tem uma resposta guardada. “Há aqui dois pesos e duas medidas. Quando muitos desses interlocutores se cotovelam para impor medidas no Orçamento do Estado, vêm, por outro lado, criticar um acordo que é claro e transparente, que visa apenas construir uma cidade melhor.

Carlos Moedas garante trabalhar para “aproximar” Porto e Lisboa

O burburinho na entrada volta a acontecer com a chegada de Carlos Moedas, presidente eleito para a câmara municipal de Lisboa. “Estou aqui com uma grande alegria, conheço Rui Moreira há muitos anos, é um grande autarca, portanto Lisboa e Porto estão cada vez mais próximos. Estou aqui para simbolizar a relação entre as duas cidades e a proximidade que queremos ter”, disse, recordando o facto de Moreira também ter marcado presença na sua tomada de posse na capital.

Ao seu lado estava o líder do CDS que não se inibiu de comentar o acordo entre o PSD e o movimento “Aqui Há Porto”. “O acordo parece-me que faz todo o sentido, uma vez que cabe o presidente de câmara eleito criar condições para ter uma estabilidade governativa que vão ao encontro da capacidade política para conseguir executar e cumprir e o programa que apresentou aos portuenses”, sublinhou.

Francisco Rodrigues dos Santos fez questão de participar na campanha de Rui Moreira

Francisco Rodrigues dos Santos aproveitou a ocasião solene para recordar que o CDS foi pioneiro no apoio a Rui Moreira. “Estamos onde sempre estivemos, desde há oito anos que fomos pioneiros no apoio partidário a Rui Moreira, somos coerentes e estamos muito satisfeitos com os resultados da sua governação”, destacou, acrescentando que o partido que lidera tem um “papel principal e insubstituível” nos quadros do movimento independente que lidera agora a autarquia do Porto.

Num pavilhão muito bem composto, junto ao palco estão os elementos da Orquestra Juvenil da Bonjóia e da formação musical da UNIR – Universidade Intergeracional de Ramalde, que protagonizaram o primeiro momento musical da tarde. Em cima do palco, os vários eleitos que estavam prestes a tomar posse, um púlpito e um microfone. Na plateia não faltaram caras ilustres da cidade, como Mário Ferreira ou Jorge Nuno Pinto da Costa. Miguel Pereira Leite, presidente cessante da Assembleia Municipal, declarou o arranque da cerimónia solene e foi aplaudido de pé.

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Depois de serem anunciados e aplaudidos todos os vereadores do executivo municipal e elementos da Assembleia Municipal foi a vez de Rui Moreira discursar e começar por agradecer a reeleição e dizer que ela aconteceu, pela terceira vez, “contra tudo e contra todos”. “Um Porto que para além de ter escolhido, pela terceira vez e contra tudo e contra todos, um projeto político independente, deu um sinal claro que acreditou, sem hesitações, em mim. Não se deixou perturbar com névoas falaciosas, manteve-se ao meu lado e voltou a dar-me, com uma vitória inequívoca, a honra e a responsabilidade de voltar a ser Presidente da Câmara Municipal do Porto.”

O presidente reeleito prometeu continuar a lutar contra o centralismo e assegurou aos portuenses que o seu executivo “irá respeitar cada compromisso assumido na campanha eleitoral”, recordando que a vitória alcançada em setembro foi “a mais expressiva da histórica autárquica do Porto, no que diz respeito à distância para com os dois principais partidos/adversários”. Moreira falou ainda da estabilidade governativa, conseguida graças ao acordo com o PSD. “Não ponham em causa os méritos e as vantagens das soluções de governabilidade: vejam o que se passa hoje no país. Obrigado a todos pelo acordo. Estou certo de que o Porto reconhece o vosso nobre gesto.”

O candidato à Câmara Municipal do Porto pelo Movimento "Aqui Há Porto”, Rui Moreira, visita o futuro Parque Urbano da Asprela, durante uma ação de campanha para as eleições autárquicas 2021, no Porto, 22 de setembro de 2021. No próximo dia 26 de setembro mais de 9,3 milhões eleitores podem votar nas eleições autárquicas para eleger os seus representantes locais. ESTELA SILVA/LUSA

Garantindo que a sua independência política “não exclui ninguém”, Moreira recorda que, há oito anos, os portuenses “decidiram ter uma governação diferente do que é habitual na democracia portuguesa, tendo escolhido um projeto político independente.” Aproveita a ocasião solene para voltar a dar força aos movimentos independentes, afirmando, tal como aconteceu na noite eleitoral, que “é urgente, para o bem da democracia, promover a federação dos milhares de cidadãos que continuam a acreditar nos candidatos independentes”.

“Avanço, desde já, poupando-me a explicações e interpretações excessivas, que manifesto total disponibilidade para ajudar a dar corpo a esta ideia que tem as suas fundações na AMAI – Associação Nacional dos Movimentos Autárquicos Independentes, mas recuso qualquer cenário de liderança”, revelou, acrescentando saber que existem “entre as dezenas de políticos independentes eleitos nas últimas eleições autárquicas (que se assumiram como terceira força política), altos e qualificados quadros políticos capazes de assumir a liderança dos independentes de Portugal”.

Rui Moreira garante continuar ligado à cidade, depois de 2025, e diz acreditar que o Porto pode ser “a base histórica de um movimento político mais próximo dos cidadãos”, esclarecendo que não ter uma especial obsessão por esta matéria. “Não tenho qualquer obsessão por este caminho e estou preparado para abrir o debate sobre este tema.”

O autarca reeleito garante “tudo fazer” para manter a identidade do Porto. “Não desistirei de lutar para criar condições que projetem um futuro ainda melhor para as gerações futuras. E advirto que é necessário alterar velhos paradigmas. Na mobilidade, no consumo, na utilização de recursos escassos como o espaço público, que deve continuar a ser resgatado… com ou sem os malfadados pilaretes, certamente substituíveis por civismo.

Reafirmou o que tem vindo a dizer desde que decidiu recandidatar-se a este terceiro mandado, quer concluir projeto que a pandemia atrasou, como o Mercado do Bolhão, o Terminal Intermodal de Campanhã, a recuperação do Cinema Batalha, a extensão da Biblioteca Municipal do Porto ou antigo Matadouro Industrial de Campanhã.

No rol de promessas, referiu ainda o reforço de competências nas juntas de freguesia. “Assumo perante vós que haverá um reforço das competências para estes órgãos autárquicos, acompanhado dos recursos indispensáveis, e comprometo-me a ajudar no trabalho de proximidade e de rede que tão bem sabem empreender junto dos nossos munícipes”, declarou.