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Capitão de equipa, número 10, um dos melhores jogadores de sempre da modalidade, campeão da Europa e do mundo. O currículo do português Ricardinho, que está longe do que fez apenas na seleção, é vasto, mas admite que a recente vitória no Mundial foi o momento mais alto da sua carreira. Sem problemas, disse ainda que a nível psicológico não está a atravessar um bom momento e que sofreu muito durante o torneio que a seleção portuguesa conquistou de forma histórica.

“Sempre disse que era a cereja no topo do bolo, o título que me faltava e a final que mais desejava jogar. Não esperava que fosse tão tarde, aos 36 anos, mas chegou no momento mais difícil da minha carreira, depois de superar uma lesão muito complicada”, afirmou Ricardinho numa entrevista à Marca. Em março foi operado a uma rotura num tendão da perna, e isso acabou com a época no clube, mas a vontade e o objetivo era chegar ao Mundial. No entanto, admite que Portugal teve um “Ricardinho diferente”, que teve “de passar por uma fase de aceitação de saber o que podia ou não fazer e dar o máximo no que podia”. “Ganhar um título assim foi incrível, o melhor momento da minha vida”, frisou.

“Quando decidi pela operação, em março, vi as coisas muito difíceis [para chegar ao Mundial] Os médicos disseram-me que conseguiria mas não sabíamos como, esse era o problema. Rodeei-me de gente que gosta de mim e trabalhei muito, primeiro com dor e depois a começar a andar e a correr, entendendo que só dependia de mim. Quando percebi que o Jorge Braz [selecionador nacional] contava comigo tirou-me um peso de cima”, continuou.

Admitindo que foram “sem dúvida” os meses mais difíceis da carreira, o craque português falou em alguns problemas psicológicos, relembrando e identificando-se inclusivamente com o que se passou com a atleta norte-americana Simone Biles nos Jogos Olímpicos realizados este ano em Tóquio: “Estou a passar um pouco pela fase das dúvidas e problemas psicológicos por tudo o que passei em França, ao apostar num projeto que saiu mal e a lesão. Foi difícil focar-me apenas no Mundial. Como líderes devemos mostrar segurança, confiança, animar, apoiar, ajudar quando há problemas, que houve. Mas por dentro também tens os teus problemas, ainda que não possas mostrá-los”.

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E ser líder, mais uma vez, desgastou Ricardinho que disse ser a “primeira vez na vida” que acaba uma competição com tanto “cansaço”. “Tudo o que se passo no ano passado ajudou muito a que me sinta assim. Ganhámos o Mundial e no dia seguinte fui a Paris. Precisava de tempo sozinho, nem visitei a minha família. Sei que não é justo, mas queria apenas respirar e dormir. Este ano foi muito difícil para mim. A cabeça é que manda, vimos o caso da [Simone] Biles e isso tocou-me muito. Aconteceu comigo no Mundial, cada dia para mim era um sofrimento. O corpo teve uma queda. Os únicos momentos em que senti felicidade pura e espontânea foi ao ganhar a meia-final, porque já era histórico, e quando levantei o troféu. Foram os únicos momentos em que fui feliz. Sofria a cada dia e cada treino”, rematou.

Sobre o futsal português, que está em altas, com a seleção a ser campeã da Europa e do mundo e o Sporting a conquistar títulos a nível europeu e de Liga dos Campeões, Ricardinho explicou ao diário desportivo espanhol que “há um grande trabalho da federação, que apostou muito no futsal masculino e feminino”. “Fez-nos acreditar. Quando tens condições para competir com os grandes podes tornar-te grande como eles. O trabalho nos clubes também tem sido importante como se vê com os resultados do Sporting, que tinha sete jogadores no Mundial. Vêm com mentalidade ganhadora e tudo isso ajuda”, acrescentou.

Conhecido pelo brilhantismo e momentos técnicos para ver e rever no YouTube, por exemplo, o capitão da seleção nacional e MVP do Mundial que conquistou não teve problemas em afirmar que “é mais díficl jogar assim”, mas que teve de aceitar, apesar de “ser difícil aceitar o papel”. “Valorizo o prémio [MVP], ainda que com o título ele seja secundário, mas os números dizem que fui o que mais minutos teve na equipa, o que mais correu, o que mais bolas roubou, que fez mais mais assistências e ainda fiz dois golos”, disse, afirmando que os números mostram que está “vivo”, apesar de jogar de “outra maneira, não como gostava, mas é preciso aceitar”.

Sobre o futuro, e principalmente porque o clube onde jogar, o ACCS Paris, desceu de divisão após decisão administrativa, mesmo tendo sido campeão de França, Ricardinho diz “precisar de tempo e de recuperar o tempo dedicado ao mundial”. “Estou ‘rebentado’ psicologicamente. Treinei e fisicamente estou bem, mas psicologicamente não. O meu objetivo já não passa por ser o melhor ou ganhar o que seja. Já o fiz e está feito”, disse.

“Agora a ideia é estar no mínimo até dezembro – é a primeira vez que falo disto – para que o clube tenha a oportunidade de recompor tudo o que esteve mal economicamente este ano. Vou dar-lhes uma oportunidade. Se em dezembro as coisas não estiverem como queremos os dois, procurarei outra equipa para jogar emprestado. Se o ACCS não subir à primeira divisão, irei para outro clube. Tenho muitas ofertas de Portugal, Espanh, Rússia, Itália, Brasil… Parece que as pessoas voltam a acreditar, mas a minha mulher não tem muita vontade de mudar”, garantiu.

Sobre a seleção nacional disse não poder “adiantar muito” e que “nas próximas duas semanas, se tanto”, dará uma conferência de imprensa para falar do futuro”. “Preciso de tempo para descansar. Tenho uma decisão tomada e acho que é um bom momento para dizê-lo, mas dependerá muito do que me diga a cabeça. Tenho as coisas clara, mas no entanto ainda tenho algumas dúvidas”, finalizou.