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O humorista Tiago André Alves morreu esta quarta-feira aos 32 anos, vítima um cancro terminal localizado na zona do pescoço e da cabeça, anunciou o Lisboa Comedy Club nas redes sociais. O também guionista é recordado pelos responsáveis do espaço de comédia da capital como alguém que tinha “sempre um sorriso” e como um “senhor da comédia nacional”.

Em fevereiro de 2020, o comediante tinha escrito um texto de opinião para o Observador, onde relatava a sua situação clínica e defendia a morte medicamente assistida. “Sou doente oncológico, com um cancro estádio IV, cujo prognóstico é bastante reservado. No meu caso, não é possível uma cura”, sinalizou, acrescentando que apenas “era possível uma tentativa de controlo e supressão temporária das manifestações mais agressivas da doença com o objetivo de me dar qualidade de vida durante o maior período de tempo”.

Paliativo, por enquanto

“Estou sob cuidados paliativos. Neste momento é tudo, apenas e só, uma questão de tempo”, referiu, contando ainda estar a ser tratado no Instituto Português de Oncologia (IPO) de Lisboa. Destacou ainda que ser doente crónico, com um prognóstico reservado, “não é uma realidade confortável para o espírito e para o corpo, por mais cuidados paliativos que me ponham em cima”.

Tiago André Alves soube que tinha cancro em 2017, quando vivia em Belfast, e os médicos comunicaram-lhe que apenas teria mais dois anos de vida. Após o diagnóstico, decidiu abandonar a Irlanda do Norte e voltar para Portugal. Em 2018, organizou o espetáculo “Morrer a rir”, que servia como um roast ao cancro, cujos lucros foram destinados ao IPO de Lisboa. Nesse evento, estiveram presentes outros humoristas como Guilherme Duarte, Diogo Faro, Dário Guerreiro e Diogo Batáguas.

“Fiz a lista de convidados no avião, quando estava a vir da Irlanda do Norte (onde vivia) para Portugal — isto um dia depois de receber o diagnóstico”, confidenciou em entrevista ao podcast “Humor à Primeira Vista” do semanário Expresso.

Para além de ser humorista e guionista, Tiago André Alves também era agente. Um dos seus agenciados, o apresentador e comediante Guilherme Fonseca, escreveu nas redes sociais que “nunca mais” vai “conseguir escrever uma piada sem pensar” o que o amigo acharia: “O teu único defeito era achares-me graça.”

Também o comediante António Raminhos lhe prestou uma homenagem nas redes sociais: [O Tiago] não perdeu batalha nenhuma, pelo contrário. Não se trata de derrotar uma doença ou condição mas a forma como se a vive”. 

“Aqueles que são contra a eutanásia limitam-me sem que eu lhes conceda autorização para tal”

No artigo de opinião escrito no Observador, Tiago André Alves posicionou-se a favor da eutanásia. Defendendo que “escolher morrer não implica a morte de mais ninguém para além da minha morte” e que “é uma escolha que não deve, nem pode, ser limitada por terceiros”, o humorista afirmou que quem é contra a morte medicamente assistida impõe “uma série de ideologias e valores”. “Aqueles que são contra a eutanásia limitam-me sem que eu lhes conceda autorização para tal.”

“É somente essa liberdade que reclamo”, salientou, sintetizando: “Que me deixem escolher morrer, com conforto, com a minha noção de dignidade e em paz, se assim o quiser”.