A crise global de produtos petrolíferos chegou a Moçambique com um aumento de preços entre 7% e 22% e Gaspar Cumbe pondera agora deixar a sua viatura em casa face à pressão nas contas.

Se este aumento prevalecer, eu terei de deixar o carro em casa. Não terei como me movimentar ou vou ter de voltar aos chapas (furgões de transporte de passageiros)”, declarou à Lusa o moçambicano de 22 anos, poucos minutos depois de abastecer a sua viatura num dos principais postos de combustível da avenida Julius Nyerere, Maputo.

Esta é a primeira vez que Gaspar Cumbe abastece desde a subida de preços, na quinta-feira, quase um ano após o último ajustamento, ocorrido em novembro de 2020 e na altura os preços tinham descido.

Na nova tabela, Gaspar passa a pagar mais 10% por um litro de gasolina, que passou de 62,5 para 69,04 meticais (81 para 90 cêntimos de euro) por litro, num país onde o salário mínimo mais alto é de 13.409 meticais (180 euros).

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“As coisas já estavam difíceis para eu abastecer, mas agora este aumento veio agravar a situação”, declarou o jovem condutor, que tem de fazer, pelo menos, 13 quilómetros por dia para chegar ao seu posto de trabalho.

O gasóleo aumentou 7%, de 57,45 para 61,71 meticais (de 75 para 80 cêntimos de euro) por litro, ainda assim é o produto com o menor aumento.

Para Ali Assane, a subida costuma ser inevitável, mas desta vez é um “exagero”. O condutor acrescenta ainda, enquanto abastece, que “é muito puxado. Passar de 62,5 para 69,04 meticais é muito”.

Embora ciente das dificuldades, para Ali Assane deixar o carro em casa está fora de questão.

Deixar o carro em casa é difícil. Tenho de trabalhar e preciso de pão. Não há outra alternativa, é tentar sobreviver com o que tenho”, acrescentou, explicando que usa a sua viatura pessoal para fazer entrega de encomendas.

A situação é ainda mais grave para Júlio Matavel, diz o próprio, motorista de um furgão de transporte de passageiros, conhecidos como “chapas”. Gasta mais 100 meticais (1,34 euros) por dia, mas o preço do transporte de passageiros continua o mesmo: 10 meticais (0,13 cêntimos de euro) por pessoa.

“O dono da viatura, que é o meu patrão, continua a exigir a mesma receita no final do dia”, conta à Lusa o motorista, que prevê que os transportadores paralisem caso o Governo não encontre uma solução.

“Como o aumento foi feito na quinta-feira, vamos aguardar para ouvir o posicionamento do Governo. Se eles não disserem nada, vamos falar com a associação e com os colegas para paralisar as atividades“, declarou Matavel.

Também sentado no interior do seu furgão, que espera por passageiros na azáfama da Praça dos Combatentes, Elton Artur prevê tempos difíceis para os transportadores, avançando que, pela primeira vez, a subida dos combustíveis vai “realmente ter impacto” no negócio.

“Eu normalmente trabalhava com 2.000 meticais [27 euros] por dia de combustível e agora passo a gastar 2.300 ou 2.350 [cerca de 31 euros], dependendo do ritmo de trabalho nesse dia. É muito”, declarou Elton Artur, que também prevê que os transportadores se manifestem, caso o Governo não aprove um reajuste da tarifa para o transporte de passageiros.

Os preços de produtos petrolíferos anunciados na quinta-feira podem ser mais altos nos postos fora das circunscrições territoriais de cidades com terminais de distribuição (Matola, Beira, Nacala e Pemba), uma vez que a lei prevê que possa haver um acréscimo relativo aos custos de transporte para esses postos.

Os produtos petrolíferos à venda em Moçambique são importados por via marítima em cargueiros especiais, através de um processo centralizado por lei numa única entidade pública, a Imopetro, detida pelas distribuidoras de produtos petrolíferos que operam no país. Depois, compete à Autoridade Reguladora de Energia (Arene)determinar os preços de venda ao público a praticar em todo território moçambicano de acordo com cálculos estabelecidos na lei.

A cotação do barril de petróleo Brent para entrega em dezembro aliviou 1,37% na quinta-feira no mercado de futuros de Londres, para os 84,66 dólares.

A pressão para a subida dos preços do crude mantém-se, devido à perspetiva de alguns produtores de petróleo não aumentarem a sua produção ao mesmo ritmo da procura, impulsionada pela reanimação económica pós-pandemia e a chegada do frio ao hemisfério norte.