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Uma mulher foi violada num comboio nos subúrbios de Filadélfia (Estados Unidos) no dia 13 de outubro. A polícia e os representantes do transporte acusaram os passageiros de nada terem feito para ajudar a mulher. Esta quinta-feira, o procurador do condado de Delaware disse que as acusações levantadas contra os passageiros são falsas.

Fiston Ngoy, de 35 anos, entrou no comboio na mesma paragem que a vítima e sentou-se ao lado dela. Molestou-a, apalpou-a e acabou por violá-la, numa ataque que durou cerca de 40 minutos (mais de 20 paragens) apesar dos esforços da mulher para o afastar. O ataque começou por volta das 21h16 (hora local) e só terminou quando a polícia o retirou do comboio. Pelas 21h52, o homem despiu as calças da vítima e as suas e violou a mulher, descreveu o jornal The New York Times. A polícia entrou no comboio poucos minutos depois.

O homem diz que já se conheciam e que a interação foi consensual. A mulher diz que nunca o tinha visto e que não lhe deu autorização para o homem lhe tocar. Fiston Ngoy está acusado de violação e várias outras ofensas relacionadas e foi sujeito a uma fiança de 180 mil dólares (cerca de 155 mil euros), reportou a Associated Press. O homem entrou nos Estados Unidos com um visto de estudante que caducou em 2015, tem evitado as tentativas de deportação para a República Democrática do Congo e já esteve detido por outros ataques a mulheres.

Testemunhas são serão sujeitas a qualquer processo

Jack Stollsteimer disse, em conferência de imprensa, que os outros passageiros do comboio não estiveram presentes durante os 40 minutos da agressão e podem não ter percebido o que se passava, rejeitando assim os relatos de que teriam feito vídeos para seu próprio deleite.

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As pessoas entram e saem em cada paragem. Isso não significa que quando entram e veem pessoas a interagir percebam que está a acontecer uma violação”, disse o procurador.

Timothy Bernhardt, superintendente do Departamento de Polícia da Upper Darby Township, que tinha acusado os passageiros, mudou o discurso durante a conferência de imprensa com o procurador, descreveu o New York Times.

O que disse na altura, e repito agora, é que havia pessoas a entrar e a sair e que eu pensava que poderiam ter intervido e feito alguma coisa”, disse. “O que testemunharam ou o que pensaram, não sei, porque não fomos capazes de falar com eles.”

Até ao momento, apenas um dos passageiros do comboio apresentou testemunho e entregou um vídeo à polícia. O procurador lembrou que as pessoas não podem ser acusadas por serem testemunhas de um crime e pediu que mais testemunhas prestem informações à polícia.

Como intervir numa situação como esta?

Apesar de ser uma história “de partir o coração”, Laura Palumbo, diretora de comunicação no Centro Nacional de Recursos sobre a Violência Sexual, explicou que também é preciso perceber o que se passou do lado dos passageiros que alegadamente viram tudo sem fazer nada. “Não sabemos se tiveram medo, se estavam confusos ou se estavam à espera que outra pessoa fizesse alguma coisa — o que, provavelmente ser o caso”, disse, citada pelo USA Today, antes da conferência de imprensa do procurador.

É verdade que ser um espectador ativo muitas vezes não é fácil, muitas vezes não é simples”, disse Laura Palumbo.

Laura Palumbo e outras fontes ouvidas pelo USA Today dizem que documentar (filmar o que está a acontecer) pode ser uma ajuda, mas não é suficiente. É preciso interromper o ataque, com uma distração, uma intervenção direta ou, simplesmente, gritando “Ei, o que se passa aqui?!”, para ver se outros passageiros também se sentem compelidos a agir. E, naturalmente, chamar a polícia.