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Rui Rio apresentou-se numa sala composta e cheio de vitalidade, que contrapunha com o ar pesado com que saiu, derrotado, do último Conselho Nacional. “Costumam dizer quando me picam eu vou melhor. E eu estou picado“. A partir do Hotel Sheraton do Porto, mostrou-se confiante e desafiador, disse que as estruturas nacionais e locais “não mandam nos votos” e conta com a palavra de Marcelo Rebelo de Sousa para voltar a utilizar o trunfo de que, em caso de chumbo do Orçamento do Estado, as eleições legislativas são mesmo em janeiro.

Ao principal adversário, Paulo Rangel, também lançou ataques duros, lembrando que “teve o pior resultado da história do PSD”. Acusou os críticos, no geral, de uma “tendência autofágica” e de “num espaço curto de três, quatro semanas” terem originado “divisões internas que o bom senso aconselharia a evitar, em período tão favorável ao nosso partido.”

Rui Rio: “Estamos bem mais perto de ganhar ao PS”

O apelo ao voto livre: “PSD não é coutada seja de quem for”

Rui Rio sabe que não tem o apoio das principais estruturas e tenta conquistar o partido no chamado “voto livre”, não cacicado. O presidente do PSD também sabe que, para as vitórias de 2018 e 2020, foi essencial o apoio dessas mesmas estruturas (e que continua a ser: não é ao acaso que escolheu um homem do aparelho para diretor de campanha, Salvador Malheiro).

Ainda assim, apelo é ao militante base. O atual presidente do PSD diz que são os militantes – todos e cada um dos militantes – que livremente devem escolher o seu presidente.” E acrescenta: “Não são as estruturas dirigentes nacionais ou locais que são os donos dos votos, ou seja, da dignidade das pessoas. O PSD tem de ser um partido de homens e mulheres livres, não pode ser uma coutada seja de quem for, muito menos de quem, tantas vezes, se move essencialmente pela defesa do seu lugar pessoal.”

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O trunfo Marcelo e as eleições antecipadas

O presidente do PSD continua a acreditar na hipótese de uma crise política e de eleições em janeiro. Foi a comissão política nacional de Rui Rio que deu início ao processo eleitoral, mas o presidente do PSD acredita que as circunstâncias mudaram com a crise orçamental e com a ameaça de eleições vinda de Belém.

Apesar de ter visto ser chumbada a proposta de adiamento das eleições no Conselho Nacional, Rio diz que “a marcação definitiva do nosso Congresso, antes mesmo de se saber se o País não terá de enfrentar eleições legislativas antecipadas, constituiu um aventureirismo que a sensatez prudentemente evitaria”.

Rui Rio falou, já na fase de resposta às perguntas dos jornalistas, como se tivesse a garantia de Marcelo Rebelo de Sousa que, em caso de chumbo do Orçamento na generalidade. “Da parte do senhor Presidente da República, ele foi claro: se [o OE2022] não passar, quer eleições em janeiro. Essa data está fixa e definida. Não tem agora que o Presidente da República atender aos interesses do partido a ou partido b; atende ao interesse nacional, que foi o que ele disse.”

As diferenças e o ataque a Rangel: “O pior resultado da história”

O maior ataque feito por Rui Rio a Paulo Rangel foi quando explicou que se ia recandidatar porque o seu adversário tinha um resultado do pior que o partido já tinha vivido. “Não ia dar um passo atrás, quando o meu adversário teve o pior resultado da história do PSD”, atirou Rui Rio. Rangel não chegou aos 22% nas Europeias de 2019 e Rio teria mais seis pontos percentuais cinco meses depois.

O presidente do PSD só não completou que foi ele próprio que convidou Rangel para encabeçar a lista e que, à exceção de Passos Coelho, Rangel foi o único cabeça de lista que venceu umas eleições nacionais pelo PSD (as europeias de 2009) desde 2004.

Rui Rio tentou marcar também as diferenças para Paulo Rangel, considerando que tem mais perfil para chefiar um Governo. “O que está em causa é a escolha do próximo primeiro-ministro do nosso país. Não estamos perante a escolha de um bom tribuno, nem de um eficaz angariador de votos partidários”, explicou Rio, que sugere que Rangel até pode ser um bom orador na retórica políticaE complementou, a puxar a brasa ao seu perfil: “Estamos perante a responsabilidade da escolha de alguém que tenha capacidade de resiliência, coerência de percurso, experiência e vocação executiva, e inequívocos atributos de liderança. Porque o que está verdadeiramente em causa é a escolha do principal governante de Portugal, de alguém que os portugueses reconheçam com o perfil adequado ao exercício do cargo que vai estar em disputa entre PS e PSD.”

O ataque a Costa de quem acredita que pode chegar lá

Rio acredita que “ganhar as próximas eleições legislativas e substituir a governação socialista está hoje bem mais perto” e diz que compete agora “aproveitar a dinâmica de vitória”. Para Rio o “caminho faz-se caminhado” e que “depois da manutenção do Governo regional da Madeira, de recuperar os Açores, de contribuir para a eleição do Presidente da República” recuperar autarquias, incluindo Lisboa, “falta concluir uma etapa: vencer as eleições legislativas”.

O presidente do PSD acrescenta que “por mais específicas que sejam as eleições autárquicas, este resultado, particularmente o registado nos centros urbanos, evidencia uma inversão da tendência de voto ascendente para o PSD e descendente para o PS”. Para Rio “ganhar as próximas eleições legislativas e substituir a governação socialista está, hoje, seguramente, bem mais perto de nós, como todo o partido e todo o País soube reconhecer”.

Nas críticas a Costa, Rio diz  que o país “reclama um primeiro-ministro que fale verdade e que não utilize os instrumentos governativos para fazer campanha partidária” e que os use, sim, para desenvolver o país e melhorar a vida das pessoas.” Numa alusão à atual crise, Rio diz que “Portugal tem de ter de um Governo que não esteja agarrado ao PCP e ao Bloco de Esquerda e estagnado no tempo da luta de classes.”

Rio reclama ainda “um Governo que perceba que as empresas não são as opressoras dos trabalhadores, mas as únicas entidades capazes de criar emprego e de promover o progresso do país.” Para Rio é essencial “um Governo e uma maioria com coragem para reformar.”

Rui Rio apresentou, de forma simbólica, a sua recandidatura no Porto, distrito que está ao lado de Paulo Rangel na corrida à liderança do PSD. O próprio presidente do PSD admitiu que pensou, num primeiro momento, lançar a candidatura em Lisboa, mas foi considerado “mais oportuno, nas atuais circunstâncias políticas internas, fazê-lo na cidade do Porto”. Rio não tem o apoio das estruturas, mas quer ter contacto direto com os militantes para tentar vencer o distrito no chamado “voto livre”.

Artigo atualizado com a sistematização dos principais temas do discurso de Rui Rio e das respostas às perguntas dos jornalistas