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Título: As Crónicas
Autor: António Lobo Antunes
Editora: D. Quixote
Páginas: 512

São 173 crónicas seleccionadas e editadas por Maria Piedade Ferreira, editora de António Lobo Antunes (ALA), a partir de um universo de mais de 400 crónicas já publicadas em 5 livros, entre 1988 e 2013. Para além destas, há ainda 9 crónicas inéditas.

Se a crónica é um estilo que ALA parece levar pouco a sério, a verdade é que a displicência com que lhe faz referência não bate certo com o que apresenta. É que o autor dá a ideia de que a crónica é uma coisa leve, breve fuga de mão, um escape, mas apresenta ao leitor prosas que puxam. Cada uma é um gancho que agarra até ao fim. O autor bem diz que a única forma de abordar os romances que escreve “é apanhá-los do mesmo modo que se apanha uma doença” (p. 193), mas o vírus anda à solta e não há xarope que anestesie o efeito destas crónicas.

Se, muitas vezes, nas próprias crónicas, ALA denuncia o seu desejo de que aquilo fosse outra coisa, noutras leva ao título a aparente despreocupação (“Crónica que não me rala um chavo como ficou”). A modéstia das crónicas contrastaria com o grande empreendimento da construção do romance, mas os anos foram passado, a experiência foi-se acumulando, e ALA é hoje, no imaginário dos leitores portugueses, tão romancista quanto cronista. Prova disso são os cinco livros publicados pela D. Quixote, e agora este compêndio, que nos dá as grandes obsessões do autor: a infância, a cristalização da memória, uma certa insatisfação com a efemeridade das coisas, a guerra, o quotidiano da família, a escrita, a vida como luta, a morte como bicho à espreita. É ainda de notar que, pese embora o reconhecidíssimo estilo de ALA, o conjunto de crónicas já está imbuído de uma variedade de registos. ALA é aquele jogador explosivo em campo. Corre, finta, chuta e marca de cabeça, e as frases fluem em vertigem, numa pressa controlada, como um Neymar a dançar com a bola. Numa colectânea de textos, vai e toca em tudo.

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Há vários motivos para o autor se destacar no panorama literário português. A maioria escreve para ser lida, ALA escreve para soterrar o leitor. Uma frase entra pelos olhos e nem há tempo para habituação, nem é preciso habituação. De repente, estamos noutro lado, meia dúzia de caracteres funcionam como um vento.

O autor traça cenários com a intimidade de quem é esses cenários. Manipula o tempo como ninguém, usa a memória como instrumento de empatia. Num cenário que crie sobre a infância, vemos de imediato a acção do tempo, nem que seja pela ingenuidade com que se encara um hábito, uma certeza, sem se poder cogitar – porque o olho ainda viu pouco – que o que existe em redoma terá por força maior de ser efémero. É o que vemos em “Saudades de Ireneia”, em que o autor faz do presente o futuro de imagens que, estáticas no passado, se movem na memória. O leitor, sem outro remédio, lá sabe que Ireneia já não sai da rua da escola com os patins às costas, e talvez já não tenha o cabelo loiro, mas o autor dá a memória e o leitor, indefeso, lembra, e lá fica a condoer-se do cronista que, idos os anos, idas as décadas, parece que ainda sente a meninice a escapar-se-lhe pelas mãos. Lemo-lo, sabemos que é um homem, mas é tão frequente vermos um menino ainda a brincar com a vida. A capacidade de criar a existência sem que se lhe vejam artimanhas ou cinismos, só osso, só beleza, é não só um dos trunfos da prosa de ALA, mas também um dos alcances mais incisivos da prosa em língua portuguesa. E é difícil definir essa beleza mesmo que a tenhamos ali escancarada.

Neste conjunto de crónicas, qualquer coisa descomprometida tem grandeza. Aliás, grande é já a forma como ALA trata a banalidade, sublimando-a como o alicerce da matéria que somos: a memória, o luto, a efemeridade. Há momentos em que não é possível ao leitor não fraquejar de ternura ao ver que quase oito décadas não chegaram para matar o menino dentro do escritor. Pelo contrário, ALA traz visões de mundo que sabem a inocência, a um olhar virgem e inteiro que ainda não teve tempo para se transformar em cinismo. Os pequenos textos sabem, por isso, a grandeza esculpida.

A autora escreve de acordo com a antiga ortografia