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António Saraiva, presidente da Confederação Empresarial de Portugal (CIP), acusou esta sexta-feira o Governo de dar o dito por não dito nas negociações em sede de concertação social. “Num conjunto de 64 propostas, o Executivo apresentava gradualmente, de reunião para reunião, novas realidades”, relata o líder da associação patronal, acrescentando que isso servia para obter a aprovação do Orçamento do Estado (OE) por parte do Bloco de Esquerda e do PCP.

Em entrevista à TVI24, António Saraiva dá conta que à medida que o Governo ia apresentando novas propostas, os líderes patronais respondiam por escrito e davam o seu parecer sobre as mesmas. Na quarta-feira, havia já um “caderno” que os líderes patronais consideravam que ia ser o “final” para ser levado a Conselho de Ministros — com todas as medidas previamente discutidas — mas que foi “rejeitado”.

Na realidade, o Conselho de Ministros debateu um documento que não passou em sede de concertação social, como o próprio primeiro-ministro reconheceu, salientou António Saraiva. Confrontado com esta realidade, o representante patronal sinaliza que “em política nada é por acaso, tudo tem uma intenção”. “O Governo, estando como está nesta cedência para a obtenção da votação favorável [do Orçamento], vai cedendo a ganhos de causa” dos partidos de esquerda.

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Para garantir a “estabilidade social e política”, segundo afirma António Saraiva, “não vale tudo, não vale desonestidade negocial”. “O Governo não pode tudo, independentemente das desculpas eticamente corretas que foram apresentadas”, salienta o presidente da CIP, acrescentando que o mais importante é “definir o crescimento económico”.

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Segundo António Saraiva, as discussões do Orçamento devem ter em conta a “alteração dos fatores de produção” que podem prejudicar as empresas e colocar em causa a igualdade com as congéneres europeias. “Houve um aumento brutal de todos os fatores de produção, o custo de energia quintuplicou, o custo do gás natural quintuplicou, os custos de transportes triplicaram”, aponta.

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Algo que a atual proposta do Orçamento do Estado não corresponde, defende António Saraiva. “Este orçamento não promove o crescimento económico, não promove a competitividade, não coloca [Portugal] em termo de comparação com os outros estados-membros.” O representante patronal indica que o país “há 20 anos” que não cresce, elencando ainda algumas escolhas feitas nos últimos anos que pouco contribuem para esse objetivo, como o aumento da despesa, ou o número de funcionários públicos contratados. “Os partidos deviam estar preocupados com essas questões”, atira.

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Questionado sobre as declarações do secretário-geral da UGT que davam conta de que o abandono dos patrões da concertação social não passava de uma “birra”, António Saraiva confessou-se “surpreendido” e comentou que o dia de Carlos Silva “não terá corrido bem” e que isso lhe “toldou o raciocínio”. “A UGT tem sido o parceiro neste diálogo virtuoso entre o Governo, as partes sindicais e patronais”, sublinha.

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Na mesma entrevista, o presidente da CIP indicou que os patrões apenas “suspenderam a concertação” e que depois da reunião com Marcelo Rebelo de Sousa se tomará uma decisão sobre o regresso às discussões em sede de concertação  social. Em relação às declarações do Presidente da República, que anunciou que se vai reunir com as confederações patronais na próxima sexta-feira, António Saraiva elogia a iniciativa.

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António Saraiva garante que os patrões querem manter a estabilidade política, mas não descarta uma ida às urnas “se a situação não se definir” e se as “cedências” continuarem. O líder da confederação patronal diz que se for preciso “definir um rumo, então que se clarifique”. “Advogamos estabilidade social e política, mas há determinadas situações pantanosas em que pode haver novas eleições.”

“Tem de haver racionalidade, critério e princípio. Estabilidade política e social é fundamental, mas não a qualquer preço”, sintetiza.