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Sobretudo habituados a vê-lo com a camisola do Manchester United, onde ainda esteve quase dez anos, os adeptos do futebol estarão certamente relembrados das boas épocas do francês Patrice Evra à esquerda da defesa, não só dos clubes onde jogou, como também da seleção francesa, que representou 81 vezes. Jogador intenso e titulado, não só em Inglaterra – onde venceu uma Champions –, como também em Itália, onde representou a Juventus, o final de carreira ficou um pouco marcado pela negativa, já no Marselha, quando em Portugal, no campo do V. Guimarães, pontapeou um adepto da sua equipa. Foi despedido do clube francês e em 2017/2018 ainda voltou a Inglaterra, para jogar no West Ham, fazendo apenas cinco jogos antes de retirar-se dos relvados.

Prestes a lançar a autobiografia “I Love This Game” (Amo este jogo), Evra concedeu uma entrevista ao The Times em que falou de um tema do livro que torna público agora, com 40 anos, muito tempo depois do sucedido e algo que nem a mãe sabia até há poucas semanas: o facto de ter sido abusado sexualmente em criança. “Claro que ela ficou devastada. Foi um momento muito duro para mim e ainda tenho de contar a alguns irmãos, irmãs e amigos mais próximos”, relatou o francês.

O ex-jogador, que cresceu em Les Ulis, sudoeste de Paris tinha 13 anos e vivia em casa de um professor para evitar o longo tempo de caminho entre a casa dos pais e a escola. Foi esse mesmo docente que, perante várias investidas, acabou por abusar mesmo de Evra, que já tinha entretanto pedido aos pais e ia sair daquela residência. O que aconteceu, no entanto, manteve-se um segredo para toda a gente. “Uma mãe não espera ouvir isso do próprio filho. Ela sentiu que algo estava errado e perguntou-me [na altura] porque é que não queria dormir na casa do professor. Só agora com 40 anos é que lhe conto. Fui um grande choque para ela. Muita raiva. Ela disse: ‘não deves colocar isso no livro, é privado”. E foi aí que lhe expliquei que não era sobre mim, era sobre outras crianças, e ela disse que entendia”, acrescentou.

Admitindo e dizendo saber que o “livro vai mudar o que muitas pessoas pensam” sobre ele, Evra diz que é agora “uma melhor versão de si mesmo” e que quando amigos lhe falam na “maneira como o mundo vai reagir e na pressão”, refere que a “maior pressão” foi mesmo contar à mãe. O antigo jogador de Monaco, Manchester United e Juventus, entre outros, referiu ainda saber que a “mãe e outras pessoas da família vão pesquisar para verem se conseguem processar o professor”, mas que tem as coisas “tão enterradas dentro de si” que não pensa nesse tipo de ações judiciais.

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“Vou ser honesto. Quando fiz o livro não contei a história toda porque estava ainda envergonhado e com medo do que as pessoas iam pensar. Agora quero contá-lo porque não quero que miúdos na minha situação se sintam com vergonha deles mesmos, a pensar que não são corajosos. Não se trata de ser corajoso, mas sim de estar mentalmente preparado para falar sobre o assunto. Só quero ter a certeza que outras crianças tenham a coragem e não se culpem, porque eu sempre me culpei. Não tenho vergonha de dizer que me senti um cobarde muitos anos por nunca dizer nada. Era algo que me pesava no peito. Mas não o faço por mim, faço-o por outras crianças”, garantiu.

Patrice Evra chegou a ser contactado pela polícia aos 24 anos, quando jogava no Monaco, porque existiam acusações contra o professor em questão, mas negou tudo, o que diz ser “um dos seus maiores arrependimentos”. “Podia ter ajudado tanta gente. Estou farto desta masculinidade tóxica. Para o meu pai chorar era ser fraco, mas não é sobre isso. Eu perdi o meu irmão e amigos e nunca chorei. A minha mãe dizia que eu um ia ia explodir. “Prefiro ser uma inspiração e exemplo do que uma vítima. Não quero esse papel, mesmo sendo verdade que fui uma”, frisou.