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“Roçou a perfeição, faltando apenas mais eficácia”. Apesar das vitórias frente ao P. Ferreira e ao Sintrense para a Taça de Portugal, a verdadeira resposta da equipa do FC Porto à goleada sofrida diante do Liverpool surgiu no triunfo caseiro com o AC Milan muito elogiado por Sérgio Conceição no final da partida. Mais do que os três pontos, mais do que o dinheiro que cada vitória rende, a forma como os dragões conseguiram ir “secando” o vice-campeão transalpino e a personalidade relevada ao longo do jogo ficaram como uma das exibições coletivas mais conseguidas em cinco anos do técnico. E o próprio não o esqueceu de forma quase indireta a lançar a partida com o Tondela, numa adenda a uma resposta onde voltou a focar o facto.

FC Porto esteve a perder em Tondela, jogou muito tempo contra dez e viu Taremi fazer “hat trick” para a reviravolta vitoriosa (1-3)

“Interesse de grandes clubes em Luis Díaz? Não sinto dores de cabeça com as coisas que gravitam no mundo do futebol, nomeadamente especulações e as notícias do ‘vai, não vai’. É natural que jogar na Liga dos Campeões suscite interesses mas não interfere em nada com estados de espírito, nem com o do Luis, nem com o da equipa”, começou por referir a esse propósito na resposta à segunda questão em causa.

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“Pois, a primeira pergunta foi mais de bola, sobre o Tondela… Não sei se vocês fazem o favor de comentar a forma como nós entrámos no jogo com o AC Milan, a questão da pressão sobre o nosso adversário, de como fizemos essa pressão, de onde quisemos roubar a bola ao AC Milan, o que é que vamos agora preparar contra o Tondela… Vocês vão mais pela questão do pestanejar, do levantar o braço, mais essas questões… Os tubarões… Por isso é que comecei logo por responder a essa”, atirou num estilo descontraído a falar a sério, antes de abordar também a questão de Taremi e o vermelho visto contra o P. Ferreira.

“É um tema que vai ofuscar o jogo com o Tondela mas se tenho de falar disso tenho de dizer o que sinto. Taremi é super honesto com os colegas, com adversários e com os árbitros. Em todos os jogos pede desculpa aos adversários e aos árbitros. A imagem que criaram dele é de má-fé e pior do que isso… Ia dizer uma asneira mas não posso. Vai toda a gente atrás, como alguns animais. O que espanta não é só nesse lance específico do penálti, é que o árbitro pode até ser induzido em erro pela visão que tem do lance, mas ele tem muita gente que o pode alertar numa situação de que é um penálti claríssimo”, salientou.

“Das duas uma: ou [o VAR] não tem competência ou precisa de ir ao oculista. Na minha opinião, claro. Se depende do critério, tudo bem, mas aqui é claro, como já aconteceu noutros lances. Temos a facilidade de colar rótulos nas pessoas e é mais fácil irmos atrás disso e não agirmos de acordo com as nossas convicções. O Taremi é extremamente honesto. Trabalha comigo já há algum tempo, passamos muito tempo juntos, em estágios. Há rótulos e selos que são colados às pessoas de forma que não é merecida. É este o caso”, acrescentou ainda na análise feita a esse lance e à conduta do iraniano.

Esta noite, em Tondela, Taremi caiu muito. Caiu quando se atirou de forma decidida para o toque que deu o empate após o remate prensado de Evanilson na área após cruzamento de João Mário. Caiu quando ganhou a bola numa boa zona de pressão alta coletiva e foi rasteirado por Undabarrena a caminho da baliza. Caiu quando deslizou de carrinho após defesa incompleta de Trigueira a fazer o 2-1. Passando ao lado da tal imagem que Sérgio Conceição condenada, o iraniano mostrou que tem queda para o golo e tornou-se o melhor marcador da Primeira Liga com um hat-trick fechado a dez minutos do final do encontro.

À semelhança do que aconteceu frente ao P. Ferreira, o FC Porto começou em desvantagem mas neste caso quando as equipas mal tinham entrado em campo: Salvador Agra bateu bem com o arco para dentro um livre lateral na esquerda do ataque do Tondela, Neto Borges saltou mais alto entre os centrais e desviou para o poste contrário sem hipóteses para Diogo Costa (4′). Apesar da saída de bola com qualidade que os beirões iam mostrando, a chegada ao último terço trazia problemas diferentes que foram solucionados pela bola parada para o primeiro golo do encontro no primeiro remate feito a qualquer uma das balizas no jogo.

Com Vitinha a agarrar na posse na primeira fase de construção, os dragões tentavam reagir à desvantagem com o domínio total da partida mas sem conseguirem os desequilíbrios necessários na frente para visarem a baliza de Trigueira, fosse em ataque organizado, fosse em ações individuais de Luis Díaz, inevitavelmente com dois adversários sempre por perto. Também por isso, a primeira boa ocasião surgiu de bola parada, com Evanilson a chegar atrasado a um desvio de Marcano após canto de Vitinha (16′). Era uma questão de paciência, de leitura de jogo, de perceção de desequilíbrios no adversário. Foi dessa forma que o FC Porto construiu o empate, com João Mário a aumentar a largura e a profundidade da equipa subindo pela direita, Evanilson a ver o primeiro desvio prensado e Taremi a surgir de forma oportuna para o 1-1 (19′).

Voltava tudo à estaca zero, com o FC Porto por cima em termos anímicos e o Tondela a protestar muito por um lance entre Zaidu e Murillo que Fábio Veríssimo e o VAR mandaram seguir. Mais do que isso, nem os visitados tinham perdido qualidade nas saídas em transições, nem os visitantes tinham abdicado de jogar no meio-campo adversário em ataque posicional. O encontro tinha as suas bases definidas até que uma boa zona de pressão alta dos azuis e brancos propiciou o lance que mudaria o encontro com Undabarrena a rasteirar Taremi quando o avançado iraniano seguia isolado para a baliza e a ser expulso com vermelho direto (29′). As contas dos beirões mudavam de forma radical e pior ficaram ainda quando Trigueira também facilitou, largando um livre de Uribe para a recarga vitoriosa de Taremi (43′).

Até pelo timing em que surgiu o golo do 2-1, o FC Porto tinha o encontro no “bolso” e foi por pouco que as contas não ficaram resolvidas num remate de Luis Díaz que saiu muito perto da baliza de Trigueira. Não que o Tondela tenha desistido da partida, como mostrou numa boa saída em que Dadashov acabou a sofrer falta de Pepe já perto do limite na área (Salvador Agra viu depois o livre ficar na barreira), mas porque um golo acabaria de vez com as contas do encontro em que os dragões criassem oportunidades para tal.

Sérgio Conceição lançou Corona como lateral direito em vez de Zaidu para dar mais criatividade no jogo exterior da equipa, viu pouco depois Marcano marcar num lance anulado por fora de jogo, apostou de seguida em Sérgio Oliveira e Fábio Vieira pelo corredor central para “segurar” o encontro e encontrar outras formas de chegar ao terceiro golo que arrumasse em definitivo as contas. E seria mesmo por aí que os dragões iriam construir o momento da tranquilidade, com os dois médios a trabalharem em passes curtos pelo meio antes da assistência para o remate de pé esquerdo de Taremi na área (79′).

O Tondela caía de vez perante os dois golos de desvantagem e foi o FC Porto a rondar números de goleada nos minutos que se seguiram até ao final da partida com Francisco Conceição a fazer rasar a bola na trave numa diagonal da direita para o meio (84′) e Pepê a atirar muito por cima após assistência de Taremi (86′). Os dragões asseguravam mais uma vitória na Primeira Liga e subiam com esses três pontos à liderança à condição da prova, esperando o que fará o Benfica este domingo em Tondela. Já Taremi acabou com o seu primeiro hat-trick pelos azuis e brancos, que lhe valeu a liderança dos melhores marcadores.