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A Netflix despediu um funcionário por este alegadamente ter revelado informação confidencial sobre o novo especial do comediante Dave Chappelle, que está a causar polémica por ter conteúdo transfóbico.

B. Pagels-Minor, pessoa transsexual não binária, de sexo feminino à nascença, foi despedido por ter divulgado informações “confidenciais” e “comercialmente sensíveis” sobre o programa à Bloomberg. No artigo, pode ler-se, entre outras informações, que a Netflix gastou 24,1 milhões de dólares (cerca de 20,8 milhões de euros) em “The Closer”, o novo programa de Dave Chappelle, mais do que investido em “Squid Game”, o maior êxito da empresa na sua estreia, que custou ao gigante do streaming 21,4 milhões de dólares, perto de 18,4 milhões de euros.

A empresa diz que o conteúdo foi descarregado e partilhado externamente por apenas uma pessoa. Por outro lado, a advogada do funcionário diz que este nega ter revelado informações à imprensa.

Muitas críticas tem recebido “The Closer”, que gerou uma discussão acerca de transfobia no humor. Vários grupos de defesa dos direitos LGBT+, como a GLAAD (uma ONG que analisa a forma como a comunidade é retratada nos media), acusam “The Closer” de ter conteúdo transfóbico, alertando para uma série de piadas acerca de genitais e promomes neutros, que consideram danosas para a comunidade.

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Dave Chappelle fez piadas sobre a comunidade LGBT+ e disse fazer parte da “equipa TERF”, sigla inglesa para “feminista radical trans-exclusiva”, ou seja, um grupo que acredita que o sexo determina o género da pessoa, em oposição à ideia de que o género e o sexo são coisas diferentes.

“O género é um facto. Todos os seres humanos nesta sala, cada ser humano no planeta teve de passar pelas pernas de uma mulher para estar aqui. Isso é um facto”, disse o comediante no especial.

Não é a primeira vez que Chappelle é criticado pela comunidade por tecer comentários deste tipo, sendo que em 2020 também fez piadas sobre pessoas transgénero noutro especial lançado pela Netflix. Um grupo de funcionários transsexuais da empresa fez greve, por esta “continuar” a apoiar este tipo de conteúdo. Segundo a The Verge, Pagels-Minor era o organizador desta greve.

Uma funcionária, também transsexual, manifestou-se ativamente no Twitter contra os comentários, tendo sido suspensa, segundo a mesma publicação, mas foi readmitida entretanto.

A greve era também uma forma de protesto contra o CEO da Netflix, que saiu em defesa do humorista. Em declarações a que a Variety teve acesso, Sarandos disse que “percebe que a preocupação não é sobre conteúdo que é ‘ofensivo para alguns’, mas sim os títulos, que poderiam aumentar os danos no mundo real (tais como marginalização de certos grupos, ódio, violência, etc.)”. O CEO diz, no entanto, ter uma “forte convicção de que o conteúdo no ecrã não se traduz diretamente em danos no mundo real.”

“Nós compreendemos que este funcionário possa ter sido motivado por desilusão e se sinta magoado com a Netflix, mas manter uma cultura de confiança e transparência é a essência da empresa”, disse outro porta-voz da empresa, citado pela CNN.

À própria CNN, foi dito pela empresa que “os funcionários são encorajados a discordar abertamente e nós apoiamos o seu direito a fazê-lo”.