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Era uma vez um filme dinamarquês, “O Culpado”, realizado em 2018 pelo sueco Gustav Möller. É um exercício muito bem conseguido de “thriller” claustrofóbico e tritura-nervos, todo passado nas instalações do 112 da Dinamarca. Asger Holm (Jakob Cedergren), um polícia que ali foi colocado enquanto espera ser ouvido num inquérito por ter morto um adolescente, recebe um telefonema de uma mulher que foi raptada pelo marido e segue com ele num carro, enquanto os dois filhos menores ficaram abandonados em casa. Sempre ao telefone, o polícia faz tudo para que os seus colegas que andam em patrulha localizem o carro do casal, enquanto tenta ajudar a mulher e evitar que o marido a mate. Só que a história é mais complicada do que ele pensa.

[Veja o “trailer” do filme dinamarquês original:]

Um exímio exercício em tensão concentrada, verbal e confinada a um só cenário, explorando com grande eficácia dramática o sentimento de impotência e o crescente desespero da personagem principal, “O Culpado” monopolizou os prémios do cinema local, ganhou o Prémio do Público em Sundance e representou a Dinamarca na pré-nomeação ao Óscar de Melhor Filme Estrangeiro. O realizador foi contactado para fazer o “remake” americano, mas recusou por ter outros planos e não querer repetir-se. Os direitos foram vendidos aos ator Jake Gyllenhaal para a sua produtora, e ei-lo agora na Netflix a interpretar o papel principal do novo “O Culpado”, realizado por Antoine Fuqua e passado no 991 (o 112 americano) de Los Angeles.

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[Veja o “trailer” do novo “O Culpado”:]

Quem desconhece o original dinamarquês decerto achará este segundo “O Culpado” um filme angustiante e de um “suspense” crispadíssimo. Aqueles que viram a fita de Gustav Möller constatarão mais uma vez a inutilidade e a redundância dos “remakes” americanos de bons filmes europeus. Fuqua e o argumentista Nic Pizzolatto seguiram quase à risca a história do primeiro, acrescentando-lhe um elemento de atualidade dos EUA, os fogos devastadores na Califórnia, que neste enredo dificultam a caça à carrinha onde viajam marido raptor e mulher raptada. Mas não tiveram a coragem de ir até onde o filme de Möller foi num aspeto relacionado com um dos filhos do casal, para garantir o final feliz convencional e reconfortante.

[Veja uma entrevista com Jake Gyllenhaal e Antoine Fuqua:]

Tal como sucede a outros filmes de “apropriação” como este, “O Culpado” é um decalque muito aplicado mas menor, uma réplica inferior, um objeto cinematográfico em segunda mão. Pouco mais serve senão como uma montra para Jake Gyllenhaal (que deve estar a considerar as possibilidades do papel lhe poder dar uma nomeação ao Óscar de Melhor Ator), inegavelmente um ator de muito mérito, mas que mesmo assim não evita aqui, por vezes, recorrer ao melodramatismo onde a parcimónia lhe teria sido mais útil. De um filme muito bom, Gyllenhaal, Pizzolato e Fuqua tiraram uma duplicação que não vai além do suficiente.

“O Culpado” está disponível na Netflix