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A orquestra feminina afegã Zohra voltou a tocar ao vivo esta segunda-feira, diante uma audiência, pela primeira vez em meses. Não Cabul, mas em Doha, na capital do Qatar. Com a tomada do Afeganistão pelos talibãs, a maior parte dos elementos do conjunto musical decidiu abandonar o país. “Se eles soubessem que nós éramos músicas ter-nos-iam matado”, confessa à AFP a maestrina de 18 anos Shogofa Safi.

A maior parte das jovens pertencentes à orquestra, que têm entre 13 a 20 anos, estão satisfeitas por estarem perto dos seus “antigos companheiros”, isto é, os instrumentos. Depois de deixarem o Qatar deverão ser acolhidas em Portugal, contando com o apoio do Governo português.

Mesmo assim prevalece um sentimento agridoce. “Amo o Qatar e amo as pessoas do Qatar, mas nunca vou amar tanto como amo Cabul”, confidencia Mohammed Qambar Nawshad, maestro que faz parte da Orquestra Nacional do Afeganistão, a que pertence a orquestra feminina Zohra.

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O maestro conta ainda que foi “uma maravilhosa oportunidade” voltar a tocar no Qatar, acrescentando que é positivo para “toda a comunidade” continuar a realizar “os sonhos” das jovens. “Nós vamos garantir que a herança cultural rica do Afeganistão continue viva.”

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As instrumentistas relatam ainda que uma afegã que se dedique à música não é bem-vista pelos extremistas, que alegam que tal vai contra as leis religiosas da sharia. “Eles consideram tudo ‘haram’ [palavra que significa ‘proibido’ à luz da sharia] para as mulheres, particularmente a música”, desabafa a violinista de 18 anos Marzia Anwari, que diz ainda que os talibãs as apelidam de “promíscuas” apenas por tocarem música.

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“A situação era muito perigosa e foi assustador sair do país”

Cerca de 100 músicos afegãos saíram do país natal no início de outubro. Shogofa Safi frisa que “a situação no Afeganistão é muito perigosa” e que “foi muito assustador sair do país”.  

Algumas jovens da orquestra Zohra ficaram no Afeganistão e o desejo das colegas é que elas consigam sair do país rapidamente. “Eu espero que elas se possam juntar a nós o mais cedo possível e consigamos reconstruir a nossa orquestra”, diz Marzia Anwari.

Desde 2010 que a Orquestra Nacional do Afeganistão tem sido uma referência na luta pela igualdade de género no país, apoiando a educação de raparigas e tendo criado a sua própria orquestra inteiramente feminina em 2015 — a Zohra — que chegou mesmo a fazer uma turné mundial e a tocar no Fórum Económico Mundial, em Davos, na Suíça.