Tem acesso livre a todos os artigos do Observador por ser nosso assinante.

A Austrália quer um balanço nulo das emissões de gases com efeito de estufa até 2050, mas com um plano que não represente uma carga demasiado grande para a população, anunciou o primeiro-ministro australiano, Scott Morrison. Cientistas criticam a falta de objetividade e ambição do plano.

Os australianos querem um plano de emissões líquidas nulo até 2050, que faça o que é correto em relação às alterações climáticas e que assegure o futuro num mundo em mudança. Também querem um plano que seja justo e prático”, disse o primeiro-ministro em comunicado de imprensa.

Scott Morrison garante que o acordo alcançado entre os Liberais e os Nacionalistas assenta na tecnologia e não no aumento dos impostos, “respeitando as escolhas das pessoas, sem mandar naquilo que as pessoas podem fazer ou comprar”. Um plano que será feito à maneira australiana e não segundo o modelo de outros países, alerta.

Não vamos receber lições de outros que não entendem a Austrália. O ‘Caminho Australiano’ é sobre como o fazemos e não sobre se o fazemos”, disse.

PUB • CONTINUE A LER A SEGUIR

O primeiro-ministro assegura que a energia continuará a ser acessível e confiável e que haverá um investimento nas zonas rurais da Austrália, mais afetadas pelos efeitos das alterações climáticas. Mais, Scott Morrison diz que não vai aceitar que mandem a Austrália fechar as explorações mineiras ou mude as práticas agrícolas.

Os pormenores do plano e os modelos sobre o impacto das medidas no balanço das emissões de gases (o que é produzido menos o que é capturado ou eliminado) não é, no entanto, conhecido, destaca o jornal The Guardian.

“A chave para a aborgadem é investir em novas tecnologias, como hidrogénio e energia solar de baixo custo, para assegurar que a nossa produção, recursos, setores agrícolas e de transporte podem estar seguros no futuro, especialmente nas áreas rurais e regionais”, disse o primeiro-ministro. “Queremos que as grandes indústrias, como a exploração mineira, se mantenham abertas, continuem competitivas e se adaptem, de forma a continuarem viáveis enquanto a procura global o permitir.”

COP26. Fuga de informação mostra como governos tentam influenciar o relatório sobre as alterações climáticas

As declarações do primeiro-ministro, na antecipação da COP26 – Cimeira do Clima 2021, em Glasgow (Escócia), mostram como o governo australiano se continua a opor ao fim das centrais de carbono e à redução da produção pecuária, duas das principais fontes de gases com efeito de estufa que estarão em discussão no encontro de novembro.

Uma fuga de informação recente mostrou como a Austrália e outros países tentaram, com os seus comentários, influenciar o relatório do Painel Intergovernamental para as Alterações Climáticas (IPCC), minimizando os riscos associados ao uso de combustíveis fósseis.

Presidência britânica da COP26 quer manter meta de aquecimento em 1,5 graus centígrados

“A anunciada política tem a força de um saco de papel molhado”, disse especialista australiano

A meta de zero emissões líquidas em 2050, por si, é apoiada por alguns dos especialistas ouvidos pelo Science Media Center da Austrália, mas outros destacam que o governo australiano está atrasado no alcance dessa meta e que o plano não permitirá lá chegar — especialmente se o primeiro-ministro continuar a insistir em usar carvão e gás.

“A mudança de posição do governo australiano para as zero emissões líquidas em 2050 é muito bem vinda”, disse Ariel Liebman, professor de Sistemas de Energia Sustentável e diretor do Instituto de Energia da Universidade Monash. O que falta agora, alerta o especialista, é que isso seja convertido num plano para 2030 que preveja a redução de 50% das emissões em relação a 2020 e uma estratégia para reformar o mercado da energia.

Cimeira do clima decisiva para resolver o que ainda falta para cumprir Acordo de Paris

“A anunciada política de zero emissões líquidas até 2050 tem a força de um saco de papel molhado. Sem mais ambições para 2030, veremos o mesmo vácuo político, sem rumo, que tem sido uma força contrária ao investimento e à inovação que impulsione a descarbonização da economia australiana”, disse Joe Fontaine, professor de Ecologia do Fogo na Universidade de Murdoch.

Levar uma política tão oca a Glasgow irá solidificar ainda mais a reputação da Austrália de trapaceira e atrasada em termos climáticos, que remonta a Quioto em 1997″, disse Joe Fontaine.

Jatin Kala, cientista climático na Universidade Murdoch, alerta que não é a aposta nas tecnologias de captura e armazenamento de carbono que permitirá contrariar as emissões de gases com efeito de estufa, uma vez que ainda está provar que sejam eficazes na redução do aquecimento global. “Temos de descarbonizar o nosso sistema de energia e eletrificar os transportes e há toda a vantagem em conseguir fazê-lo.”

Jonathan Symons, professor de Políticas e Relações Internacionais na Universidade Macquarie, acrescenta que apostar nas tecnologias de captura de carbono e continuar a usar carvão e gás vai requerer “um milagre não planeado” para atingir a meta de 2050, como a compra de quotas de emissão de outros países.