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Em atualização

Morreram, pelo menos, sete pessoas nas manifestações contra o golpe de Estado no Sudão. Pelo segundo dia consecutivo, os manifestantes continuam nas ruas da capital Cartum, apesar da forte repressão das forças de segurança, noticiou a Al Jazeera. Lançam-se apelos para a desobediência civil para fazerem frente às forças militares.

Sudão. Dois anos depois do adeus a Bashir, chegou o golpe anunciado dos militares

Os manifestantes pró-democracia começaram a sair à rua na segunda-feira depois das primeiras notícias de que os militares tinham detido representantes do governo, incluindo o primeiro-ministro, Abdalla Hamdok, agora em parte incerta. Depois disso, o general do Exército Abdel Fattah al-Burhan decretou o estado de emergência e dissolveu o governo de transição e o Conselho Soberano, cujo objetivo último era alcançar um governo totalmente composto por civis.

Sudão. Anunciado estado de emergência, Governo fala em “golpe de Estado”

Ainda antes do anúncio de al-Burhan, os manifestantes pró-democracia começaram a construir barricadas nas ruas para impedir o acesso dos militares aos bairros numa demonstração de resistência, reportou um jornalista da Al Jazeera em Khartoum. O general al-Burhan, por sua vez, garante que a transição vai continuar e que se mantém as eleições agendadas para julho de 2023.

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Segundo a CNN, o acordo seria que os militares estariam à frente do Conselho Soberano durante 21 meses e, nos 18 meses seguintes, deveriam ser os civis. O próprio primeiro-ministro, Abdalla Hamdok, pressionava para que a transição acontecesse a 17 de novembro — contra a vontade dos militares — tal como tinha sido originalmente acordado. Os manifestantes pró-democracia faziam o mesmo apelo nas ruas desde quinta-feira.

Segundo a Al Jazeera, as comunicações e acesso à internet estão cortados, a emissora nacional foi tomada e as estradas, pontes e aeroporto de Cartum fechados.

A Organização das Nações Unidas (ONU), União Europeia, União Africana, Amnistia Internacional, Estados Unidos e vários países já condenaram o golpe de Estado e exigem a libertação do primeiro-ministro sudanês.

Milhares saem à rua no Sudão para pedir governo totalmente civil

Internacional Crisis Group pede sanções para militares sudaneses que não restabeleçam governo de transição

A Internacional Crisis Group (ICG) apelou, esta terça-feira, aos “parceiros internacionais do Sudão” a “condenarem a tomada do poder pelos militares” e a estarem “prontos a sancionar os generais”, se estes não restabelecerem o governo de transição.

Este é um momento perigoso para o Sudão e para os seus vizinhos. Suster o derramamento de sangue nas ruas é a prioridade mais urgente”, sublinha a organização não governamental sedeada em Bruxelas, em comunicado.

O ICG sublinha que o Sudão é um dos maiores países de África, faz fronteira com sete países e atravessa o Corno de África, o Norte de África e o Sahel e que “a sua importância geopolítica está a crescer entre as potências rivais ao longo do Mar Vermelho e entre a militância islamista no Sahel”.

A organização alerta para “escalada perigosa da guerra da Etiópia” e para os “conflitos civis no sul do Sudão”, sustentando que “uma luta prolongada no Sudão seria um desastre adicional para a região”. “Todas as partes deveriam envidar todos os esforços para impedir que isso aconteça”, defende o ICG.

A ONG afirma que “é pouco provável que os generais do Sudão invertam” o assalto ao controlo do poder decidido esta segunda-feira “por sua própria vontade”, pelo que “como primeiro passo” o Conselho de Paz e Segurança da União Africana (UA), tal como fez com bons resultados em junho de 2019 na sequência do massacre de manifestantes em Cartum, deve, desde já, “suspender o Sudão” da sua qualidade de membro do organismo.

A UA, apoiada por parceiros-chave, nomeadamente os Estados Unidos e União Europeia, deveria esforçar-se nos próximos dias por persuadir os generais a restaurar a coligação civil-militar, que é o único caminho para a estabilidade sustentável do Sudão”, afirma a ONG.

Por outro lado, também as monarquias do Golfo e o Egito, assim como todas as potências externas que “forjaram laços mais estreitos” com o general Abdel-Fattah al-Burhan, líder do conselho militar no poder, deveriam exortar o poder em Cartum a “exercer contenção em vez de recorrer à força indiscriminada”, prossegue-se no comunicado.

“Os Estados Unidos e a UE deveriam usar a considerável influência que têm junto das capitais do Golfo e do Cairo para os convencer a pressionar os generais em Cartum a mudar de rumo”, diz o ICG.

O ICG estima como “provável” que os militares “queiram concessões sobre a apreensão de bens e a exigência de justiça, mas as discussões sobre estas questões só deverão ocorrer depois de os generais terem colocado as autoridades civis novamente no comando e libertado os prisioneiros políticos”.

Sudão. Bashir destituído. Militares assumem poder por dois anos

Tensão no governo de transição desde 2019

O ditador Omar al-Bashir foi Presidente do Sudão durante cerca de 30 anos, até 2019, quando foi deposto pelos militares e o seu lugar ocupado pelo vice-presidente e ministro da Defesa, o general Ahmed Awad Bin Auf.

Um governo liderado por militares foi prontamente contestado pela população — em junho de 2019, os confrontos entre a população e os militares acabou por resultar em 87 mortos em Cartum. Em agosto desse ano, acabou por estabelecer-se um governo misto, com militares e civis, com o objetivo de servir de transição para um governo civil, recordou a BBC.

Tentativa de golpe de Estado fracassa no Sudão

A tensão entre os militares e os líderes civis no Conselho Soberano era conhecida. A divisão política no país, com 80 partidos diferentes, também se refletia nas divisões dentro do governo. Além disso, as reformas na Economia recebiam muita contestação.

Houve várias tentativas de golpe de Estado falhadas nos últimos dois anos. A última aconteceu em setembro de 2021 e foi atribuída a militares seguidores do ex-Presidente al-Bashir.

Atualizado às 13h20 com declarações da Internacional Crisis Group