A Rússia anunciou esta quarta-feira que vai dar início a uma análise para estimar os prejuízos provocados pela decisão de um tribunal holandês de devolução à Ucrânia de tesouros arqueológicos da Crimeia disputados entre Moscovo e Kiev.

O Comité de Investigação russo, encarregado dos principais processos criminais, disse, em comunicado, que fará “uma avaliação adequada da violação dos interesses da Rússia” neste caso, que já decorre desde 2014. Avisou ainda que a Justiça holandesa tomou uma “decisão política”, pelo que o Ministério da Cultura da Rússia considera que está em causa uma violação do direito internacional.

O processo ficará a cargo da filial do comité na Crimeia e terá como objetivo estabelecer, em colaboração com a diplomacia russa, as circunstâncias “do não retorno” do tesouro arqueológico.

Peças de ouro que estiveram em museus da Crimeia devem regressar à Ucrânia, decide tribunal holandês

A Justiça holandesa ordenou na terça-feira a devolução à Ucrânia de uma coleção de objetos arqueológicos de valor inestimável, que a Crimeia tinha emprestado (antes de ser anexada pela Rússia) a um museu de Amesterdão.

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Face à nova situação geopolítica, o museu decidiu reter as peças nos Países Baixos.

A coleção, composta por quase 2.000 objetos de um período vasto entre o século II e o início da Idade Média, tinha sido temporariamente transferida para o museu Allard Pierson por quatro museus da Crimeia, pouco antes da anexação pela Rússia, em março de 2014.

Os quatro museus da Crimeia resolveram, entretanto, interpor uma ação judicial para forçar o museu Allard Pierson a devolver a coleção.

Em 2016, um tribunal holandês decidiu que os objetos deveriam ser devolvidos, mas salientou que a Crimeia não era considerada um Estado autónomo, tendo os quatro museus da Crimeia recorrido desta decisão.

Andreï Malguine, diretor do Museu de Tavrida em Simferopol (capital da Crimeia), uma das instituições que deu entrada com a ação judicial conjunta, acusou a Justiça holandesa de “arrastar” este processo, classificado pelas agências internacionais como um “imbróglio” entre a Ucrânia e a Crimeia.

“Esta questão é muito complicada. É claro que gostaríamos que a nossa coleção fosse devolvida à sua casa”, disse o porta-voz do Kremlin, Dmitry Peskov, em setembro passado a propósito deste processo.

“Não estamos apenas a recuperar peças de museu”, mas também “relíquias que testemunham a nossa história milenar”, afirmou esta quarta-feira o chefe da diplomacia ucraniana, Dmytro Kouleba, após a divulgação da decisão do tribunal holandês.

Nas mesmas declarações, Dmytro Kouleba defendeu ainda que “todas as falsidades e manipulações russas” que, segundo frisou, marcaram o processo, acabaram por se revelar “um fiasco”.

O caso poderá agora ser levado ao Supremo Tribunal dos Países Baixos.