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A chinesa Evergrande tem nova “prova de fogo” esta sexta-feira, 29 de outubro, com mais um pagamento de dívida em dólares que se não for feito até este prazo poderá provocar a declaração formal de incumprimento. Isto depois de a gigante da promoção imobiliária chinesa ter escapado ao default no passado sábado, transferindo o dinheiro a poucas horas do fim do prazo.

O prazo que termina esta sexta-feira é a data-limite para o pagamento um juro periódico (“cupão”) no valor de 47,5 milhões de dólares (cerca de 40,7 milhões de euros). Em rigor, o prazo para esse pagamento era o dia 29 de setembro mas, tal como boa parte dos títulos de dívida emitidos pela Evergrande, existe um período de carência de 30 dias.

No passado sábado, 23 de outubro, a Evergrande conseguiu reunir a liquidez suficiente para fazer um pagamento semelhante (embora do dobro do valor) e evitar algo que já parecia ser inevitável aos olhos de muitos analistas. Porém, mesmo tendo sido possível fazer esse pagamento, logo se alertou que a Evergrande enfrenta um calendário apertado de pagamento de cupões e reembolsos de dívida nos próximos meses e, por isso, esse seria apenas um adiamento para “evitar que os processos comecem já a chover”, disse um investidor.

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Caso a Evergrande não consiga fazer este pagamento, a expectativa é que seja declarado o incumprimento não apenas nesta linha de financiamento mas automaticamente em todos os títulos emitidos pela empresa junto de investimentos estrangeiros. Segundo a Reuters, trata-se de 19 mil milhões de dólares (ainda assim uma fração da dívida total da empresa, que ronda o equivalente a 300 mil milhões de dólares) – um enorme desafio para a frágil tesouraria da Evergrande e um risco para o sistema financeiro chinês que, ainda assim, o banco central garantiu ser “controlável”.

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Fundador da Evergrande pressionado a pagar dívidas com riqueza pessoal

Nos últimos dias foi noticiado pela Bloomberg que as autoridades chinesas estão a pressionar o fundador da Evergrande, o multimilionário Hui Ka Yan, para que recorra à sua fortuna pessoal para ajudar a pagar a dívida da empresa. Isto apesar de não ser totalmente claro, nesta fase, em que ativos está aplicado esse património e se ele pode ser liquidado para, depois, ser usado para ajudar na amortização de dívida.

O fundador (e presidente) da Evergrande, terá recebido recebeu o equivalente a 6,8 mil milhões de euros em dividendos extraídos da empresa desde 2009. Apesar de nesse ano Hui Ka Yan ter aberto o capital da empresa na bolsa de Hong Kong, conservou para si próprio uma participação ultra-maioritária de 77% – e, ao longo de todos estes anos, mesmo com o endividamento da empresa a subir cada vez mais, até níveis estratosféricos, a Evergrande (quase) nunca deixou de pagar dividendos.

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A notícia da Bloomberg, desta semana, acrescentava que as autoridades chinesas estão a monitorizar todas as contas bancárias da Evergrande para garantir que quaisquer encaixes financeiros que estão a ser feitos pela empresa – por exemplo, com venda de ativos – são mesmo canalizados para o pagamento de dívida e não sejam desviados para outros fins, eventualmente fins que beneficiem os acionistas e gestores da empresa.

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Os problemas no setor da promoção imobiliária chinesa não se limitam, porém, à Evergrande. As ações e obrigações de outras empresas concorrentes também têm sido duramente penalizadas nos mercados de capitais, nas últimas semanas. O Kaisa Group, por exemplo, viu evaporar-se um quinto do valor em bolsa em apenas uma sessão depois de sofrer uma série de cortes de rating.

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