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O filme “A metamorfose dos pássaros”, de Catarina Vasconcelos, é o candidato de Portugal a uma nomeação aos Óscares. A longa-metragem, que pode ser vista neste momento nos cinemas portugueses, foi a escolhida para a candidatura nacional ao Óscar de Melhor Filme Internacional — categoria para a qual nunca um filme português foi nomeado.

Em comunicado enviado à imprensa, a Academia Portuguesa do Cinema detalha que a votação para a eleição decorreu “entre 12 e 28 de outubro”, tendo-se apurado o vencedor a partir de um conjunto de seis filmes que um comité de seleção havia previamente nomeado.

Os restantes filmes que poderiam ter sido eleitos (por estarem incluídos numa pré-seleção) eram “Sombra”, de Bruno Gascon, “Nunca Nada Aconteceu”, de Gonçalo Galvão, “O Som Que Desce na Terra”, de Sérgio Graciano, “Terra Nova“, de Artur Ribeiro e “O Último Banho”, de David Bonneville. Os membros da Academia Portuguesa do Cinema (APC) optaram por escolher “A Metamorfose dos Pássaros”.

“A Metamorfose dos pássaros” é a primeira longa-metragem de Catarina Vasconcelos, antiga estudante de Belas-Artes (e não de cinema) que começou a carreira como cineasta em 2014 com a curta-metragem “Metáfora ou a Tristeza virada do Avesso”.

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A estreia desta longa-metragem, que chegou às salas de cinema portuguesas este mês, aconteceu em 2020, no Festival Cinema de Berlim, onde venceu o Prémio FIPRESCI. A chegada às salas acabou por ficar adiada logo de seguida, devido à pandemia da Covid-19, mas o filme ainda circulou por vários festivais de cinema que o premiaram, nacionais (como o IndieLisboa) e internacionais (como, entre outros, o Festival de San Sebastián).

O filme é descrito pela Academia Portuguesa do Cinema como “um misto entre documentário e ficção”, abordando “a história de amor dos avós e a morte da avó paterna da realizadora, que nunca conheceu, baseada nas memórias da infância e da juventude da família”.

Este mês, em entrevista ao Observador, a realizadora defendia que “fala-se muito pouco da forma como lidamos com a morte, com a perda”. E abordou a sua experiência pessoal, que acaba por marcar o filme: “Quando a minha mãe morreu, senti-me a pessoa mais sozinha do mundo: era muito nova, tinha 17 anos. Não conhecia meninos ou adolescentes à minha volta cujos pais tivessem morrido. Portanto, achava que aquilo só estava a acontecer-me a mim. E durante muito tempo não tinha colegas cujos pais tivessem morrido”.

Isso fazia com que a experiência fosse muito solitária. Depois cresci e percebi que não tinha a ver com a idade em que isto me tinha acontecido. Não falamos disto, ponto, não há espaço para os mortos ou para falar de quanto isto nos custa. Achamos que são assuntos que são mórbidos, que não devem ocupar a nossa vida. Se pudermos falar um pouco mais destes assuntos, talvez eles se tornem menos assustadores e mais naturais”, dizia ainda Catarina Vasconcelos.

Durante a conversa, a cineasta defenderia ainda: “Acredito que o cinema não pode trazer justiça à vida, mas pode trazer-nos possibilidades e pode trazer-nos formas de a repensar. E de alterarmos a nossa história, mesmo que seja no plano da ficção. Podemos recontar a nossa história e recontar como quisermos, com toda a esperança, com um olhar mais distante. Por isso conseguimos torná-la outra coisa.”

O cinema de Catarina Vasconcelos não quer trazer justiça à vida: quer repensá-la

A 94.ª edição dos Óscares está marcada para 27 de março de 2022 em Los Angeles, na Califórnia. No dia 8 de fevereiro ficarão a conhecer-se os nomeados, sabendo-se aí se será desta vez que uma longa-metragem nacional conseguirá uma nomeação nunca obtida ao Óscar de Melhor Filme Internacional.