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Criada oficialmente no final de 2015, a Connect Robotics tem no currículo parcerias e projetos-piloto com os CTT, a Santa Casa da Misericórdia de Penela (Coimbra), uma farmácia em Tondela, “um dos maiores distribuidores de medicamentos” e “um dos maiores laboratórios de análises clínicas” (destes dois últimos, não está autorizada a revelar os nomes). Os drones que disponibiliza já chegaram a sobrevoar as ruas, fazendo chegar medicamentos a utentes de lares, refeições a habitantes de aldeias isoladas ou amostras de sangue de hospitais até laboratórios.

Mas no final do ano passado, tudo mudou: nova legislação tirou-lhes as autorizações para operarem os drones por não cumprirem os requisitos de exigência que consideram “absurdos”. “Já estamos com um nível maior até do que a aviação. Estão a mudar as regras a cada momento”, critica Eduardo Mendes, cofundador da Connect Robotics, em conversa com o Observador durante a Web Summit. A startup foi um dos três projetos escolhidos para o stand da Enterprise Europe Network (EEN), uma rede que apoia projetos de inovação a nível europeu.

Com os novos entraves nacionais, a equipa de três pessoas pondera levar o negócio para o estrangeiro. Em cima da mesa estão países que, na transposição da diretiva, concedem maior abertura. É o caso da Irlanda, “um país muito aberto”. Eduardo Mendes aponta ainda como possível destino a Suíça. “É uma coisa que estamos a considerar. Fizemos o pedido de reunião à Autoridade Nacional da Aviação Civil (ANAC), para perceber se vale a pena continuar aqui.”

O foco nas entregas urgentes

A ideia de criar a Connect Robotics, oficialmente fundada no final de 2015, surgiu durante o doutoramento em controlo de veículos aéreos de Eduardo Mendes, na Faculdade de Engenharia da Universidade do Porto. Na altura, vivia-se o “boom dos drones”. Em 2016, fizeram a primeira demonstração de entrega de longa distância, curiosamente na mesma semana em que a gigante Amazon fez o mesmo, nos EUA. “A diferença é que eles investiram alguns milhões”, nota Eduardo.

Startup teve vários projetos-piloto em Portugal

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Mais recentemente, a Connect Robotics tem recebido particular atenção de empresas ligadas à área da saúde. Eduardo reconhece que “é onde faz mais sentido” estar e que o segmento-alvo devem ser os produtos em que há urgência na entrega, como amostras de sangue, testes ou mesmo comida. “Por exemplo, uma carta de uma conta de luz tanto faz chegar hoje ou daqui a uma semana. Não há necessidade de drone”.

Precisamente, um dos parceiros num outro projeto-piloto foi com a Farmácia da Lajeosa, em Tondela, através da entrega de medicamentos em lares. Em Portugal, explica Eduardo Mendes, a regulação obriga a que seja um farmacêutico a entregar medicamentos. A Connect Robotics conseguiu autorização do Infarmed para que, enquanto o drone está a voar, o farmacêutico possa fazer uma videochamada com o paciente.

Uma viagem normal, de carro, para entregar os fármacos levaria cerca de 50 minutos, “por entre as curvas da montanha”. O drone faz o mesmo percurso em 30 minutos (ida e volta), frisa. Os aparelhos não são construídos pela startup, que os compra e adaptada às necessidades do cliente, nomeadamente com elementos patenteados (por exemplo, ganchos para o transporte de medicamentos).

Se não fossem as alterações legislativas, na transposição para a lei nacional da diretiva europeia, a Connect Robotics já poderia estar a transportar medicamentos de todas as farmácias. Eduardo Mendes conta que o Infarmed já lhes concedeu essa autorização. Mas há outra, essencial: da ANAC. A que existia, e que lhes permitiu realizar os projetos-piloto, expirou no final do ano passado. Com a entrada em vigor da nova regulamentação, que aperta as regras para poder pôr um drone no ar, através de exigências tecnológicas mais rígidas, a operação ficou suspensa.

A transição para a nova legislação “está a ser um bocado traumatizante”. “Desde 2019, vínhamos a fazer um processo de autorização ao mesmo nível de aviação civil, até níveis maiores de complexidade. Já utilizamos novos procedimentos, mas quando virou a chave e surgiu a nova regulamentação nacional, a ANAC passou a ser auditada pela EASA, mudou critérios e a forma de interpretação”, refere. “Agora, a cada três meses, voltamos lá e pedem mais coisas”.

Com a entrada em vigor da nova regulamentação, que aperta as regras para poder pôr um drone no ar, através de exigências tecnológicas mais rígidas, a operação ficou suspensa

Eduardo Mendes pede que se reduza o “nível de exigência absurdo”. Por exemplo, um dos requisitos é a existência da tecnologia ADS-B, que permite ao drone identificar o transmissor de um avião. Só que, diz Eduardo Mendes, alguma aviação nacional ainda não implementou a tecnologia, ou seja, não tem o tal transmissor. Uma das formas de detetar essas aeronaves — e, assim, resolver uma das exigências de segurança para os drones — seria com radares colocados no aparelho, o que, acrescenta, é tecnologia que ainda não existe e “custa milhões”.

Estamos a procurar no mercado, é um problema mundial. A maioria das operações na UE estão paradas, porque são exigências irreais. Nós voamos a baixo nível. Temos de procurar soluções de coordenação com os aeródromos e torres de controlo, para garantir que não temos problema. Temos ADS-B, mas estão a pedir um nível tecnológico que ainda não existe e não faz sentido”.

Agora, a Connect Robotics vai fazer novo pedido de reunião ao regulador para conseguir voltar a obter autorização. Os três contratos que já tinha em carteira — com o tal distribuidor de medicamentos, o laboratório de análises clínicas e a farmácia de Tondela — estão em risco. Por exemplo, o contrato que firmaram com o laboratório incluía um drone, mas também um orçamento previsto para outros 20 drones. “Tem grande impacto para nós e para eles. O cliente quer resultados e temos prazos curtos, mas vamos trabalhar para conseguir a autorização.”

Dos projetos-piloto às redes de encomendas

A parceria da startup com os CTT durou três dias e a ideia foi mostrar o “potencial da tecnologia”. “Os CTT têm muita preocupação com os funcionários, não querem substitui-los, mas adicionar um novo nível de serviço“, aponta Eduardo. A demonstração consistiu na entrega de encomendas desde o armazém em Cabo Ruivo e a sede, no Parque das Nações.

Já com a rede de laboratórios, o objetivo foi levar amostras de hospitais para centros de análises. “Com a pandemia, um internamento obriga a fazer teste Covid. Mas nem todos os hospitais têm esse laboratório internamente.” Geralmente, conta, os laboratórios têm carros disponíveis 24 horas por dia para ir buscar a amostra ou o teste. “Mas se chamam dois ao mesmo tempo, têm de contratar um táxi para fazer isso. No Porto, há um gasto mensal de 25 mil euros com táxi só para isso.” O drone, garante, conseguiria fazer trajetos em 15 minutos e a um preço mais baixo (1.000 a 3.000 euros, dependendo do contrato).

Um outro projeto foi o “Aldeia Remota”, em Penela, em que um drone fez entregas de “marmitas” ao domicílio ao único habitante de uma aldeia. Mas não pode uma máquina tirar o fator humano, sobretudo nestes casos de forte isolamento social? Eduardo Mendes diz que essa foi uma das preocupações, mas que a questão não se colocava neste caso já que o morador tinha visitas diárias de outras entidades, para a entrega de medicamentos ou visitas de assistentes sociais. “O que permitia era substituir uma delas. A entrega de comida convém que seja rápida para chegar quente. Em cinco minutos estava lá.”

O objetivo a curto prazo (dois a três anos) é focar nas entregas na área da saúde para, mais tarde, direcionar a entrega de alimentação. Pelo meio há planos de internacionalização: desde um projeto-piloto na Bélgica para fazer chegar encomendas a espaços apertados, como janelas, telhados ou varandas, até a conversas com potenciais parceiros, nomeadamente do Dubai e da Argentina. Num terceiro momento, em cinco ou dez anos, o sonho voa mais alto: construir infraestruturas que cubram cidades inteiras, nas quais “qualquer um pode, a qualquer momento, colocar encomendas para entrega”. Mas até lá, há uma legislação para resolver.