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A Caixa Geral de Depósitos acumulou 429 milhões de euros em lucros nos primeiros nove meses do ano, mais 9,4% do que no período homólogo. Perante este resultado, e com “perspetivas de um impacto da situação pandémica na economia de menor dimensão face ao passado”, a comissão executiva do banco decidiu propor o pagamento de um dividendo extraordinário ao acionista – o Estado – de 300 milhões de euros.

O banco já tinha indicado, quando questionado pelo Observador a 22 de outubro, que estava a “medir o verdadeiro impacto” do fim das moratórias e que seria dessa análise que iria depender o valor que o banco público poderia entregar ao Estado em dividendo “extra” (ainda relativo aos lucros obtidos em 2020). Com essas melhores perspetivas relativas à evolução da pandemia e tendo em conta a “robusta posição de capital”, o banco decidiu que pagará esse dividendo ainda antes do final de 2021.

Quanto aos resultados destes nove meses, o banco indica que ao “nível dos resultados core regista-se uma relativa estabilização, fruto da recuperação da margem financeira pelo segundo trimestre consecutivo”. Por outro lado, o banco salienta que se verificou “uma boa performance dos resultados de operações financeiras que atingiram em base corrente 92,5 milhões de euros”, o que corresponde basicamente à venda de títulos de dívida pública.

O resultado líquido inclui, ainda, um resultado extraordinário de 32,7 milhões de euros (depois de impostos) relacionados com uma “reavaliação das responsabilidades com benefícios pós-emprego e provisões para o programa de pré-reformas”. Quando se exclui efeitos irrepetíveis como este, “o resultado líquido corrente foi de 394 milhões de euros, o que corresponde a um aumento de 15,2% face ao resultado corrente do período homólogo em 2020, muito por força da boa evolução dos resultados de operações financeiras”.

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CGD. Dividendo “extra” a pagar ao Estado depende do “verdadeiro impacto das moratórias”

O banco indica, também, que foram feitas novas imparidades de crédito de 180,4 milhões de euros nos nove meses já decorridos de 2021, um reforço face aos 90,2 milhões de euros registados no final do primeiro semestre. “Estas novas imparidades tiveram genericamente um cariz preventivo para os potenciais efeitos do fim das moratórias de crédito”, afirma o banco público.

Os custos de estrutura totalizaram, em base recorrente, 606 milhões de euros, menos 1,6% do que no período homólogo. O banco diz que teve dois trimestres consecutivos de aumento da margem financeira mas, no acumulado dos nove meses, esse importante indicador baixou, mesmo assim, 6,5% em relação ao período homólogo.

No que toca às comissões, na atividade doméstica essa cobrança aumentou mais de 12% para 349 milhões de euros. Já na atividade internacional da Caixa as comissões subiram 10,3% para 62,8 milhões de euros.

Apesar da conjuntura económica atual, a atividade core do Grupo CGD continua a demonstrar resiliência ao conseguir compensar a diminuição da margem financeira com o aumento das comissões líquidas e da eficiência operacional conseguida através da redução dos custos de estrutura”, diz o banco.

O banco destaca, ainda, o “crescimento significativo (+5,9%) em Portugal no crédito a empresas e negócios (excluindo construção e imobiliário) e na quota de mercado acumulada da nova produção de crédito à habitação que atingiu os 24,2% em agosto de 2021”.

Sobre as moratórias, cuja maioria terminou no final de setembro, o banco já só tem 149 milhões de euros em créditos em moratória, que irão expirar nos próximos meses (porque alguns clientes podem ter pedido as moratórias mais recentemente e podem beneficiar 9 meses – até ao final do ano irão expirar todas). Esses 149 milhões de euros dizem respeito, quase totalmente, a créditos a empresas.

Com o fim das moratórias, diz a Caixa, foram aplicadas medidas de reestruturação a cerca de 3.000 famílias, com um total de exposição de 330 milhões de euros; e aproximadamente 600 empresas, com um total de exposição de 150 milhões de euros, ao que acrescem operações ainda em negociação.

Custos das empresas. “Se problema não se normalizar, será pior que moratórias”

Na conferência de imprensa de apresentação de resultados, Paulo Macedo reiterou, sobre o tema das moratórias, que o banco acha que “não vamos ter um problema macro e que não vamos ter um problema na banca”. “Sempre alertei que só haveria problema se as empresas tivessem dificuldades”, recordou o presidente da Caixa, acrescentando que “felizmente o que temos assistido é um nível de estabilidade no emprego, que é extremamente positivo e diferente da outra crise, e que leva a que nós tenhamos reestruturado cerca de 3.000 créditos”.

“Estamos a falar neste momento de 3% das famílias entre todas as famílias que pediram moratória e 4% das empresas”, diz o responsável, sublinhando que “o primeiro sinal é positivo”.

Mais preocupante do que essa questão das moratórias é, na opinião de Paulo Macedo, os problemas associados ao aumento dos custos das empresas – sejam custos energéticos ou não-energéticos. “Isto cria um problema de preço (custos), um possível problema de margem (caso as empresas não consigam passar os custos aos consumidores) e um terceiro problema que é um problema de vendas” relacionado, por exemplo, com a escassez de matérias-primas que impede as empresas de corresponderem à procura que têm – Paulo Macedo deu um exemplo de uma empresa portuguesa que faz molhos de tomate e mostardas e que não está a conseguir obter matérias-primas.

Se estes problemas se resolverem em março, junho, deve ser acomodável pelas empresas, elas conseguem suportar este embate. Senão, será mais complicado”, diz Paulo Macedo, admitindo que este pode ser “um problema maior do que as moratórias”, até porque as “moratórias já só são uma questão em Portugal, ao passo que esse problema é mundial”, diz Paulo Macedo.

Crise política. “Há decisões que o país tem de tomar e que são urgentes”

Paulo Macedo comentou, ainda, o cenário de crise política em Portugal, afirmando que são matérias respeitantes “ao poder político” mas, ainda assim, lembrando que “o que temos é que é preciso tomar decisões várias, como relativamente ao PRR, à transição digital, aspetos que são urgentes”. “A nossa expectativa é que isso aconteça”, atirou.

Esperamos que se consiga chegar a uma solução que permita que haja uma estabilidade futura, porque nós precisamos de capacidade de transformação, com ainda ontem referiu a presidente do BCE – é preciso que politicamente seja possível fazer essa transformação”, acrescentou o presidente da comissão executiva da Caixa.

Uma das matérias onde esta incerteza tem impacto direto é nas negociações para que o edifício-sede da Caixa, em Lisboa, possa albergar alguns Ministérios. Sobre esse tema, “não houve evolução e creio que não haverá evolução sobre essa matéria nestes próximos meses”.

Porém, “é firme intenção da Caixa de que não faz sentido este edifício ser só ocupado pela Caixa”, por isso, o banco “continuará a desenvolver diligências nesse sentido”. “Da parte da Caixa, a decisão é clara e continuaremos a trabalhar para isso”.