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Paulo Goulart: cuidados espirituais

"Santos da casa fazem milagres" presta inesperada atenção àqueles crentes católicos que diariamente tomam a seu cargo o cuidado de capelas e ermidas um pouco por toda a ilha verde.

Talvez a máxima síntese da simbiose religião-natureza do trabalho de Paulo Goulart seja a fotografia da capela pintada a cor de rosa com portadas verdes
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Talvez a máxima síntese da simbiose religião-natureza do trabalho de Paulo Goulart seja a fotografia da capela pintada a cor de rosa com portadas verdes

PAULO GOULART PHOTOGRAPHY

Talvez a máxima síntese da simbiose religião-natureza do trabalho de Paulo Goulart seja a fotografia da capela pintada a cor de rosa com portadas verdes

PAULO GOULART PHOTOGRAPHY

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Título: Santos da Casa Fazem Milagres
Fotografia: Paulo Goulart
Texto: João Vilela Geraldo
Editor: Museu Carlos Machado, Ponta Delgada
Design: Nuno Furtado
Páginas: 152
Preço: 18 €

Não sei se há actualmente nos Açores pintores figurativos de nova geração, mas não duvido que há naquelas ilhas — ou que vai até aquelas ilhas — um sortido rico de fotógrafos que expõe, publica e merece a nossa atenção.

Se a paisagem é ali um motivo inescapável, a condição humana insular também é objecto de ampla, poderosa e diversificada inquirição fotográfica, cuja intensidade e qualidade, creio, não tem equivalente noutras regiões do país. Pepe Brix (1984-) expõe no Museu de Santa Cruz das Flores uma escolha das suas imagens feitas ao acompanhar pescadores de atum. Rui Caria (1972-) apresenta na Galeria Leica, do Porto, “As mulheres da terra”, um portefólio de retratos de criadoras de vacas leiteiras na ilha Terceira. Numa dúzia de ruas de Ponta Delgada, em São Miguel, Eduardo Leal colou há duas semanas outros tantos cartazes com fotografias de mulheres pescadoras, a que chamou “Açorianas do mar”. Em 2019-20 Pauliana Valente Pimentel (1975-) expôs no Arquivo Municipal de Fotografia, em Lisboa, um inquérito panorâmico às perplexidades da juventude micaelense, chamando a título a expressão freudiana “No narcisismo das pequenas diferenças”. E no Núcleo de Arte Sacra do Museu Carlos Machado — no belo edifício da igreja do Colégio, em Ponta Delgada — Paulo Goulart (1973-) exibe agora “Santos da casa fazem milagres”, prestando inesperada atenção àqueles crentes católicos que diariamente tomam a seu cargo o cuidado de capelas e ermidas um pouco por toda a ilha verde, até mesmo “nesses pequenos recantos perdidos da paisagem” a que se refere o texto de abertura (p. 2).

É uma exposição que surpreende. Desde logo porque parece ser uma actualização contemporânea do magnífico quadro de Domingos Rebêlo O Viático (1919) que domina o hall do museu com os seus 2,5 x 3m. A devoção religiosa tem nos Açores uma expressão incomum, que parece resistir sem mácula ou esforço ao laicismo dominante. Grandes estruturas conventuais em quase todas as ilhas dão ainda hoje prova inequívoca da antiga presença das Ordens mendicantes no arquipélago, exigindo e exibindo um prodígio de arquitectura e construção em meio adverso só comparável às indispensáveis fortificações militares dos séculos XVI-XIX. Goulart não busca essa imponência, preferindo os pequenos templos cingidos numa correnteza de casas, que ocupam — e muitas vezes ocupam — os fundos dum cemitério, ou integram uma quinta senhorial ou um convento remanescente. Ainda que em geral estejam muito bem cuidadas, o fotógrafo não ilude sequer quanto as inclemências oceânicas podem atingir fachadas — dando-lhes por vezes uma patine impressiva de rara beleza que nenhuma repintura fresca alcançaria —, nem deixa de lado situações de ruína, decrepitude ou descaso como sinais do nosso tempo espiritual ou da própria circunstância da vida islense, ainda hoje muito marcada por êxodo e desertificação humana.

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A par e passo, num jogo bem medido Paulo Goulart intercala imagens de ermidas e seus cuidadores com fotografias de onda batendo em rocha, névoa sobre vale, copas de árvore num bosque denso, campos de milho estendidos até ao mar

PAULO GOULART PHOTOGRAPHY

A par e passo, num jogo bem medido Paulo Goulart intercala imagens de ermidas e seus cuidadores com fotografias de onda batendo em rocha, névoa sobre vale, copas de árvore num bosque denso, campos de milho estendidos até ao mar, um trecho de estrada ladeado de hortênsias transbordantes sob névoa espessa, rocha basáltica com líquens, grandes árvores verticais despidas no inverno, um floco de nuvem colorido pelo sol, pequenas flores silvestres num campo indistinto, até mesmo um farol e seu presumível faroleiro, não apenas para apontar a singularidade deste lugar mas para dar conta do grande mistério natural — e sobrenatural — que o envolve, as admiráveis massas feitas emergir no meio dum oceano por inimagináveis fenómenos naturais ocorridos no fundo dos tempos tanto quanto a busca do divino percorre a história humana.

De algum modo, o espanto brandoniano — “Se Deus existe eu sou um homem, se Deus não existe eu sou outro homem completamente diferente” (do Húmus, 1917) — parece ganhar nas Ilhas, que o escritor visitou sete anos mais tarde, uma declinação superlativa que também a religiosidade dita popular leva a todos os recantos, numa servidão espiritual convicta que o fotógrafo captou nos rostos daqueles que foi encontrar nos templos-refúgio de que são os guardiões, por vezes encostados à ombreira da porta com uma informalidade (melhor seria dizer: familiaridade) desconcertante. Mesmo nas fotografias encenadas, por exemplo quando à entrada se exibem estatuetas sacras de particular devoção, não há margem mínima — uma roupa domingueira, uma cara barbeada, um cabelo aparado… — para o que afinal também poderia ser um acto distintivo face à vida de todos os dias. Em vez disso, mãos empoeiradas, uma T-shirt transpirada, botas com lama, um colete reflector, camisas velhas, batas domésticas, um boné descambado, uns chinelos de dedo estão presentes neste inventário humano informal, que acaba um pouco comprometido — pessoal ou socialmente, tanto faz — pela presença de duas jovens irmãs e de uma graciosa menina em fotografias simpáticas porém claramente fora de contexto.

Talvez a máxima síntese desta simbiose religião-natureza seja a fotografia da capela pintada a cor de rosa com portadas verdes, cuja porta de vidro reflecte o arvoredo distante nas costas do fotógrafo. Todavia, não consigo sequer identificá-la com segurança no catálogo — será talvez a Ermida de Santa Ana, na Quinta dos Peixes Falantes, em Rabo de Peixe —, porque as páginas deste não estão numeradas, inutilizando o índice, apresentado em folha final descartável. Num livro que me parece particularmente bem impresso, neste ponto o designer contornou o mais elementar bom senso, e o curador e o artista não foram capazes de lhe impor juízo e profissionalismo. Também os pequenos textos de comentário, por João Vilela Geraldo, me parecem desfasados do público alargado a que esta exposição e livro dizem respeito, ou que podia interessar-se por eles, mostrando — uma vez mais — que a linguagem museográfica e expositiva precisa de despojar-se dos jargões em moda e dum suposto elitismo que tudo faz e tanto se esforça para não ser sequer entendido. Afinal, que pensaria aquela boa gente fotografada por Paulo Goulart lendo “essa luz que todos procuram e que não se deixa encarcerar no preconceito ou na hegemonia da opinião”? Credo!…

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