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A tempestade Blas, que tem provocado chuvas impiedosas nas ilhas Baleares, não vai interferir com o verão de São Martinho na península, mas ainda ameaçou transformar-se num “medicane” (do inglês “Mediterranean hurricane“, furacão do Mediterrâneo).

Haverá verão de São Martinho. Dias de sol e temperaturas máximas acima do normal vão manter-se no continente

Em Portugal continental (e, até, em grande parte de Espanha), a manutenção do tempo seco e ameno é resultado do anticiclone dos Açores, que nos traz o ar quente do norte de África, antes de a atmosfera fazer o reajuste das massas de ar para o inverno. É quase sempre assim nesta época do ano, daí o tal tempo quente, devido à posição que o anticiclone dos Açores ocupa, bloqueando as frentes polares, ainda que a ciência não o consiga explicar.

No Mediterrâneo, as temperaturas altas também têm um impacto, mas muito diferente, são elas que ajudam à formação de ciclones, menos intensos do que os furacões atlânticos — um medicane, como aconteceu no final de outubro no sul de Itália e em mais uma ilha mediterrânica, a Sicília.

Medicane. O fenómeno que está a assolar o sul de Itália — e que as alterações climáticas vão tornar mais frequente

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Por agora, as ilhas Baleares e a costa da Catalunha e Comunidade Valenciana podem contar com chuvas intensas, cheias, ventos fortes e ondas que ultrapassam os cinco metros, segundo a Agência Estatal de Meteorologia espanhola (Aemet). Uma situação que se manterá, pelo menos, até ao fim de semana, com as ilhas a poderem assistir a 100 litros de chuva por metro quadrado.

Quanto ao medicane parece que, apesar de ter dado sinais de se estar a formar e até apresentar algumas condições para isso, teve o seu fim antes mesmo de ter um início.

Juan Jesús González Alemán, meteorologista do Aemet, físico e investigador em ciclones (e medicanes), tem seguido a evolução da tempestade Blas na sua conta do Twitter. Desde o início do mês de novembro, que o meteorologista apontava para previsões de formação de um medicane que afetasse a costa espanhola, ainda que destacasse a dificuldade de prever este tipo de fenómenos.

É ainda demasiado cedo para determinar se se vai formar, pois trata-se de um fenómeno com muito baixa previsibilidade. Mas dá uma ideia da importância da situação que se avizinha”, escreveu González Alemán.

Nos dias seguintes, os modelos registaram a possibilidade de ocorrerem condições favoráveis à formação de um medicane. “Em qualquer caso, a formação de um vórtice ciclónico tão intenso teria um impacto notável.” Mas o físico insistia na “elevada incerteza” das previsões, tal como já havia, aliás, explicado num artigo científico em relação a uma outra situação.

Ao longo dos dias (e dos tweets), o meteorologista da Aemet ia mostrando e explicando o potencial de formação (ou não) do ciclone, mas também a incerteza associada à formação ou ao impacto. Dúvidas não havia de que as ilhas Baleares seriam atingidas intensamente pela tempestade. Na quarta-feira, as imagens mostravam a formação de um vórtice ciclónico típico que poderia levar ao medicane.

Ao final da tarde de quarta-feira, González Alemán reportava os primeiros sinais de que a tempestade Blas se estava a transformar em medicane a este da ilha de Menorca. Mas foi um falso alarme. As mudanças de atividade na atmosfera baralham os modelos e evidenciam a incerteza que o físico tantas vezes destacou.

“A tempestade Blas poderia ter adquirido certos toques de ciclone subtropical (um medicane híbrido), de caráter simétrico e núcleo convetivo próximo ao centro”, escreveu o meteorologista na manhã de quinta-feira. “No entanto, não parece ter muito potencial para se intensificar e se tornar um ciclone tropical.”

O que é, afinal, um medicane?

Definir este tipo de fenómeno meteorológico e perceber como se formam estão entre os objetivos do projeto financiado pelo programa Horizonte 2020 da União Europeia — Rede europeia de ciclones mediterrânicos no estado do tempo e clima (MedCyclones). Este projeto conta com a participação de 29 países, incluindo Portugal .

“Medicane tem sido amplamente usado nos ciclones que adquirem características tropicais no mar Mediterrâneo (ciclones de tipo tropical), mas estes não adquirem totalmente a estrutura tropical”, alerta a página Twitter do projeto. Se compararmos com os furacões atlânticos, estes precisam de temperaturas superficiais da água na ordem dos 26º C, mas para o medicane bastam os 15º C, como destaca a CNN.

Em comparação com os furacões tropicais, como os que assistimos no oceano Atlântico e atingem os Estados Unidos, os medicanes também formam um “olho”, mas são mais fracos (a velocidade dos ventos é menor) e duram menos tempo (estão confinados pelas costas do Mediterrâneo, em vez de atravessarem o oceano). Além disso, os medicanes são mais frequentes noutra época do ano, entre setembro e dezembro.

No futuro, influenciados pelo aumento das temperaturas globais e alterações climáticas, os medicanes podem tornar-se mais intensos. Prevê-se assim, também, um aumento dos impactos sócio-económicos e ambientais, porque estes ciclones atingem as regiões costeiras do Mediterrâneo com ventos intensos e chuvas fortes.