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Um estudo realizado nos Estados Unidos da América, publicado na última segunda-feira, conclui que há uma ligação entre o consumo materno de canábis durante a gravidez e uma maior tendência para a ansiedade, agressividade e hiperatividade nas crianças.

Publicado na revista científica Proceedings of the National Academy of Sciences of the United Sates of America, o estudo, a que o Observador teve acesso, envolveu 322 mães e os seus respetivos filhos, e analisou, num primeiro momento, os efeitos da canábis na placenta e na atividade dos genes relacionados com a imunidade. Numa segunda fase, foram analisadas amostras de cabelo das crianças, com idades entre os 3 e os 6 anos, relativamente à presença de determinadas hormonas, nomeadamente o nível de cortisol, responsável pelo stress.

Além disso, foi analisada a variação do ritmo cardíaco das crianças, e examinou-se o comportamento dos participantes mais jovens para detetar possíveis traços de ansiedade, hiperatividade e agressividade.

Para o estudo, foram aceites participantes que tivessem consumido canábis durante a gravidez e/ou durante o período pós-natal.

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As grávidas de hoje em dia estão a ser constantemente bombardeadas com anúncios para tratar náuseas e ansiedade durante a gestação” com base na canábis, explicou à Scientific American a autora principal do estudo, Yasmin Hurd.

Estas conclusões poderão ajudar as pessoas grávidas através de um maior conhecimento e educação para que possam tomar melhores decisões”, concluiu a investigadora.

Daniele Piomelli, professor e diretor no Centro de Estudos de Canábis da Universidade da Califórnia, destacou o estudo por ser um dos primeiros do género, uma vez que até agora, investigações que relacionassem gravidez e canábis eram muito difíceis de realizar.

Até à data, a maioria das análises desta área envolveram experiências com roedores ou ovelhas, pela semelhança entre a placenta destas e a placenta humana. Isto porque adquirir uma amostra da população humana suficiente para qualquer estudo desta natureza, caso fosse através de variáveis induzidas, seria considerado pouco ético, dado que tal só seria possível através da administração de canábis a mulheres grávidas. Assim, a população foi selecionada com base em inquéritos a pessoas que já consumiam esta droga de forma autónoma.

O professor da Califórnia, ainda segundo a revista científica Scientific American, esclareceu que os estudos relacionados com o comportamento humano têm de ser sempre interpretados com cautela, uma vez que outros fatores como a transmissão genética (que pode ser um modo de adquirir traços de ansiedade) e o contexto de crescimento podem enviesar as conclusões das investigações.

Daniele Piomelli considera, contudo, que o estudo conseguiu isolar bem as variáveis em observação e que o grupo de investigadores encontrou relações entre a canábis e estes traços comportamentais cujos resultado “não podem ser ignorados”.