Tem acesso livre a todos os artigos do Observador por ser nosso assinante.

“As Coisas que Dizemos, As Coisas que Fazemos”

Daphné (Camelia Jordana), grávida de três meses, está à espera que o seu namorado François (Vincent Macaigne) se junte a ela para umas férias no campo. Maxime (Niels Schneider), o primo deste, está com ela, e estabelece-se entre ambos uma relação de intimidade confessional. Este novo filme de Emmanuel Mouret (“A Arte de Amar”, “A Fabulosa Caprice”) pende muito para as bandas de Woody Allen (com uma pinga de Eric Rohmer à mistura) na história, na personalidade narrativa, nas peripécias amorosas, no tom  e na caracterização das personagens, embora o realizador acabe por forçar a credibilidade das sucessivas situações sentimentais em que elas se envolvem (só mesmo num filme francês as pessoas vão para a cama umas com as outras com tanta facilidade, e a descontração de quem muda de camisa). Mesmo assim, a qualidade da escrita, os atores e a capacidade de Mouret em manter o filme numa leveza que evita a frivolidade, por um lado, e a circunspeção, pelo outro, fazem com que “As Coisas que Dizemos, as Coisas que Fazemos” mereça uma espreitadela.

“O Meu Primo Desajeitado”

Num canto, está Pierre Pastié (Vincent Lindon), o muito sério presidente de uma importante companhia vinícola; no outro canto, está Adrien (François Damiens), o seu primo idealista e desastrado, e sócio na companhia com parte igual, que se debate com problemas mentais. Eram amigos inseparáveis na infância, mas a vida afastou-os um do outro. Pierre precisa agora da assinatura de Adrien para vender a empresa, e concretizar um lucrativo negócio, e enquanto a procura conseguir, vai meter-se com o primo em várias confusões e equívocos. Realizado por Jan Kounen, “O Meu Primo Desajeitado” quer jogar ao mesmo tempo no tabuleiro da comédia burlesca expansiva à francesa e no do drama familiar com baixo teaor lacrimal, e não satisfaz em nenhum destes registos. Isto embora Lindon e Damiens deem tudo o que tem para defender as suas personagens e a relação entre ambas. Mas é muito difícil, sobretudo quando se trabalha com um argumento tão transparente e irremediavelmente previsível como este.

“The Card Counter: O Jogador”

Paul Schrader volta mais uma vez neste filme aos temas do peso insuportável da culpa, da necessidade de expiação e da possibilidade de redenção, que atravessam a sua obra de argumentista e realizador. O protagonista, William Tell (Oscar Isaac), é um veterano da guerra no Iraque que cumpriu pena num presídio militar por torturar prisioneiros em Abu Ghraib, e se tornou jogador profissional. Um dia, sai-lhe ao caminho Cirk (Tye Sheridan), filho de um ex-camarada de armas que esteve em Abu Ghraib como Tell e como ele torturou presos e esteve na cadeia, mas que uma vez cá fora, se suicidou. Cirk quer que Tell o ajude a matar John Gordo (Willem Dafoe), um civil que orientou os militares naquela prisão iraquiana mas que, ao contrário destes, se safou sem ser punido e agora tem um negócio de segurança privada. Tell não quer violência e vingança, quer expiação e perdão, e procura assim demover Cirk da sua intenção. “The Card Counter: O Jogador” foi escolhido pelo Observador como filme da semana e pode ler a crítica aqui.

PUB • CONTINUE A LER A SEGUIR