A dois meses das eleições antecipadas, a esquerda já começou a sair à rua e a subir a temperatura do confronto com o Governo. Tanto Jerónimo de Sousa como Catarina Martins aproveitaram a manifestação da CGTP em Lisboa para apontar o dedo a António Costa pelo descontentamento dos trabalhadores.

Do lado de Jerónimo de Sousa, e depois de o PCP ter passado dias a promover a manifestação dizendo que não “faltam razões” para protestar, ficou a acusação de teimosia dirigida ao Governo, que disse não ter cedido nas negociações orçamentais por já estar a pensar na maioria absoluta.

Questionado sobre se a manifestação seria um “cartão amarelo” a Costa, Jerónimo atirou: “Não fazemos isto a pensar no primeiro-ministro. Fazemos por uma necessidade objetiva para a vida das pessoas, para a vida dos trabalhadores. Ninguém consegue explicar porque é que não é possível valorizar devidamente os salários, tanto o salário mínimo nacional, como mesmo o salário médio”, vincou.

Milhares de pessoas em manifestação da CGTP em defesa de melhores salários

Para Jerónimo de Sousa, o Governo “deveria olhar para esta Avenida [da Liberdade], para estas pessoas, para estes trabalhadores que lutam tanto por um direito de uma vida mais digna”.

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Sobre a questão do salário mínimo nacional, que esteve à mesa nas negociações do Orçamento do Estado para 2022 – que acabou chumbado, dando assim origem a uma crise política — o líder comunista concordou que este foi um dos “elementos de rutura” em relação aos quais o Governo não cedeu porque “já estava a pensar com certeza na maioria absoluta”.

“Nós procurámos apresentar uma proposta, como é sabido, de mais de 800 euros, mas admitimos até, num processo de diálogo, aplicar os 755 euros num quadro evolutivo para 2022. Infelizmente o Governo não saiu e fez finca pé dos 705 euros, que fica muito aquém daquilo que objetivamente é necessário fazer de valorização particularmente do salário mínimo nacional”, referiu.

Outros temas que levaram à rutura entre PCP e PS foi, de acordo com Jerónimo de Sousa, a necessidade de “salvar o SNS” e a caducidade da contratação coletiva. “O Governo teimou e não explicou porque é que não pode alterar esta malfeitoria”, condenou.

BE quer “alterar as regras do jogo” no Trabalho

Já Catarina Martins viu também no falhanço das negociações — e na suposta intransigência do PS — um motivo para protestos nas ruas. A coordenadora do BE criticou o Governo por não ter querido alterar “as regras do jogo” da legislação laboral para que os salários sejam dignos em Portugal, considerando por isso normal que as pessoas saiam à rua para protestar.

Participando na mesma manifestação, Catarina Martins defendeu aos jornalistas que esta é “seguramente a mostra do descontentamento por não terem sido dados os passos necessários para recuperar salários”, o que “está ao alcance” de Portugal.

“Está nas mãos do poder político em Portugal alterar as regras do jogo para que os salários sejam dignos e o Governo não o quis fazer até agora e é normal que as pessoas saiam e saiam para protestar, saiam para exigir futuro. Futuro para si, futuro para o país”, afirmou.

Na perspetiva da líder do BE, “não há nenhuma razão” para não se repor o pagamento das horas extra ou das compensações por despedimento, nem sequer “para não combater a precariedade de uma forma decidida” ou “para não respeitar os trabalhadores por turnos ou o ‘outsourcing’”.

“Se há uma coisa que Portugal sabe é que a direita não é resposta para o problema dos salários baixos, a direita não é resposta para o problema da precariedade. Não. A direita fez as regras que baixam os salários em Portugal, que aprofundam a precariedade em Portugal e é por isso que a direita neste momento não é solução para nada e não é com a direita que se debatem as soluções para o problema do país”, defendeu.

Para Catarina Martins, aquilo que é preciso é “uma resposta forte”, pedindo que das eleições antecipadas de 30 de janeiro saia uma “esquerda mais forte para tirar a troika das relações laborais”.

“Se a esquerda desistir dos salários, desistir de salários dignos está a desistir do país e isso não pode fazer de maneira nenhuma”, avisou.

Questionada sobre a disponibilidade para um novo entendimento com o PS a seguir às eleições legislativas, a coordenadora do BE afirmou que o partido se apresenta às urnas também com a reivindicação “que haja força à esquerda para que se alterem as leis do trabalho e para que os salários possam evoluir em Portugal”.