Uma associação de médicos sudaneses acusou esta segunda-feira as forças de segurança do país de impedirem manifestantes feridos de receberem tratamento e de atacarem hospitais desde o golpe militar de 25 de outubro.

Segundo um relatório do Escritório Unificado de Médicos Sudaneses, o exército impediu as ambulâncias com manifestantes feridos de chegarem aos hospitais, a polícia entrou em urgências hospitalares e deteve pacientes, e disparou gás lacrimogéneo no interior de pelo menos dois hospitais da capital desde o golpe.

Pelo menos 41 manifestantes foram mortos em protestos contra o golpe no Sudão desde que os militares depuseram o Governo civil do país, segundo o último balanço, apresentado no domingo pelo Comité de Médicos do Sudão, que tem estado a registar as mortes relacionadas com os protestos.

A vítima mais recente foi um rapaz de 16 anos que morreu de um disparo na cabeça em protestos contra um novo acordo de partilha de poder entre o exército e o primeiro-ministro deposto.

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Não houve qualquer resposta por parte das autoridades sudanesas, que têm sido acusadas pelas Nações Unidas de excesso de força contra as manifestações pró-democracia.

No entanto, a polícia tem-se distanciado de qualquer papel na violência, argumentando que as forças presentes nas ruas não estão armadas e que tem havido violência cometida pelos manifestantes. A polícia prometeu repetidamente investigar os relatos de mortes.

No domingo, o primeiro-ministro deposto, Abdalla Hamdok, assinou um acordo que implica que irá retomar o poder quase um mês após o golpe militar que o colocou em prisão domiciliária.

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O acordo prevê um Governo independente e tecnocrata, que será liderado por Hamdok, até que se possam realizar eleições. Mesmo aí, o Governo continuará sob vigilância militar.

Em resposta, milhares de sudaneses saíram à rua para denunciar o que muitos consideram uma traição à causa democrática por parte do seu antigo primeiro-ministro, que tem sido a face civil do governo de transição desde que tomou o poder em 2019, numa revolta popular que depôs o autocrata Omar al-Bashir.

Segundo o escritório dos médicos, a polícia disparou gás lacrimogéneo dentro do Hospital Universitário de Cartum, perto de uma unidade de cuidados intensivos e da unidade neonatal.

Em 25 de outubro, o chefe do exército sudanês, general Abdel-Fattah al-Burhan, mandou prender quase todos os civis no poder, pôs fim à união formada por civis e militares e declarou o estado de emergência.

Abdallah Hamdok, que liderava o governo de transição, foi colocado sob prisão domiciliária.

Desde o golpe, os protestos contra o exército e o apelo ao regresso do governo civil têm decorrido sobretudo em Cartum.

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Mais de 40 civis foram mortos e centenas ficaram feridos na repressão pelas forças de segurança dos protestos, de acordo com números de uma comissão de médicos.

A comunidade internacional denunciou a repressão e apelou para um regresso do Governo civil.

No sábado, centenas de manifestantes marcharam em Cartum Norte, um subúrbio da capital, erguendo barricadas nas ruas e incendiando pneus. “Não ao domínio militar”, gritavam.