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Apenas 27% dos profissionais de saúde em África estão vacinados contra a Covid-19, segundo um levantamento feito junto de 25 países africanos, disse Matshidiso Moeti, diretora regional para África da Organização Mundial de Saúde (OMS/África), em conferência de imprensa.

Por oposição, entre os 22 países de mais alto rendimento, 80% dos profissionais de saúde e dos lares estão vacinados.

A diretora regional da OMS/África lembra que a maioria dos países em África já têm profissionais de saúde a menos para a população que têm de servir — em 16 países há menos de um profissional de saúde por cada 1.000 habitantes — , daí que cada profissional afastado por doença agrava ainda mais as dificuldades dos serviços de saúde.

A menos que os nossos médicos, enfermeiros e outros trabalhadores da linha da frente obtenham proteção total, arriscamo-nos a um revés nos esforços para travar esta doença. Temos de garantir que as nossas instalações de saúde são ambientes de trabalho seguros”, diz Matshidiso Moeti, diretora regional da OMS/África.

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Os profissionais de saúde, como a população em geral, não só têm falta de vacinas disponíveis, como os receios em relação à segurança e efeitos secundários levam a um elevado nível de hesitação em relação à vacinação.

Na Nigéria, apenas 18% dos profissionais de saúde estão totalmente vacinados e 30% têm a primeira dose. Dos 25 países estudados, já foram vacinados 1,3 milhões de profissionais de saúde desde março — apenas seis têm mais de 90% vacinados e nove têm menos de 40%.

Richard Mihigo, coordenador do programa de Imunização e Desenvolvimento das Vacinas, concorda que a taxa de vacinação é muito variável de país para país e destaca que Cabo Verde e São Tomé e Príncipe, por exemplo, têm a quase totalidade dos profissionais de saúde vacinados.

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Considerando a generalidade da população, há 30 países em África que já conseguiram distribuir mais de 80% das suas vacinas, mas no extremo oposto, há dois países que distribuíram menos de 20% das vacinas que receberam. A OMS/África e os governos têm agora de conseguir aplicar múltiplas estratégias para usar as vacinas que têm antes que estas expirem o prazo de validade.

De forma geral, apenas cerca de 7% da população africana está vacinada contra a Covid-19. A diretora geral diz, no entanto, que agora a campanhas de vacinação estão a acelerar.

Com um novo surto de casos que se avizinham sobre África após a época festiva de fim de ano, os países devem acelerar urgentemente o lançamento de vacinas aos profissionais de saúde”, diz a diretora geral da OMS/África.

Matshidiso Moeti diz que, neste momento, África está num planalto, depois do pico de agosto, mas há receio de uma quarta vaga a partir de dezembro com as viagens de fim de ano. Na África do Sul, por exemplo, depois de 18 semanas com a situação controlada, o número de casos aumentou 48% em relação à semana passada.

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Houve um momento, em que a falta de vacinas em África era o principal motivo para a baixa cobertura vacinal no continente. Mas em países como a Nigéria, que se tem esforçado por levar as vacinas a todos os que precisam dela, a aposta tem de ser na educação em saúde, diz Michael Ekuma Nnachi, presidente da Associação Nacional de Enfermeiros e Parteiros na Nigéria.

A informação nas redes sociais é confusa para a população”, diz Michael Ekuma Nnachi. “É preciso contrariar a desinformação.”

Matshidiso Moeti, diretora regional da OMS/África, lembra que a aceitação das vacinas nas crianças até aos cinco anos é muito grande em África, mas que não é tão comum os adultos serem vacinados, exceto quando têm de viajar, e nunca numa escala como agora.

Depois, os efeitos secundários têm sido apresentados de uma forma desproporcional. São efeitos extremamente raros, mas a população (e os próprios profissionais de saúde) têm uma perceção de que são frequentes, uma perceção que precisa de ser combatida.

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Para aumentar o número de profissionais de saúde vacinados, Matshidiso Moeti reforça, assim, que são precisas duas estratégias: primeiro, que os profissionais queiram ser vacinados; depois, conseguir chegar aos locais mais remotos, criando estratégias para chegar às áreas rurais.

A diretora geral da OMS/África diz que é preciso perceber quais são os motivos que levam os profissionais de saúde a não quererem ser vacinados e tentar ultrapassar esses obstáculos. Não só é importante que os profissionais de saúde tenham a informação necessária para serem vacinados, como sejam capazes de passar a informação aos cidadãos.

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No Togo, Apetsianyi Yawa, coordenadora do grupo de trabalho para as vacinas Covid-19, explica que o envolvimento do ministro a Saúde, das várias organizações profissionais, de especialistas e académicos, ajudou a levar informação de qualidade aos profissionais de saúde e a convencê-los a serem vacinados.

Os profissionais de saúde receberam formação sobre as vacinas, os efeitos secundários e sobre como mitigar esses efeitos. O resultado foi ter 93% dos profissionais de saúde vacinados.

Houve campanhas na televisão, rádio, redes sociais, para fornecer informação de qualidade à população. Os media foram treinados para passar corretamente as mensagens e foi criada uma equipa de comunicação com o objetivo de identificar e desmontar rumores e fake news.

Apetsianyi Yawa acrescenta que a coordenação logística com as 36 regiões de saúde na distribuição das vacinas ajudou a aumentar a cobertura. Além disso, alguns locais exigem a apresentação do passe de vacinação.