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“Ser do bairro”. Frase curta, mas que guarda um festival de orgulho de quem lá mora e preconceito de quem olha de fora. Há quem sinta um orgulho tradicional, porque são as raízes que mais importam no fim de contas, a família, os amigos, os vizinhos, as lojas onde tiraram as fotografias da primeira comunhão ou o tasco com cadeiras de metal e cerveja morna. Quem desconhece, traz o preconceito consigo que contagia os moradores, especialmente de quem avia as malas para ir à procura de uma vida, pensará o próprio, melhor do que a que tinha.

Foi isso que fez Marta (Vicky Luengo), que saiu de Cornellà, região periférica de Barcelona, pintada por edifícios iguais, num quadro que tem elementos facilmente reconhecíveis como o velho que dá comida aos pombos, para perseguir o sonho de ser fotógrafa profissional. Em “Chavalas”, a primeira longa metragem da realizadora catalã Carol Rodriguez Colás que abre, esta quinta-feira, a Mostra de Cinema Espanhol em Lisboa (de 25 a 30 de novembro), Maria vê a sua vida de voltas trocadas, que é como quem diz, entrega-a ao desemprego, sendo obrigada, aos 27 anos, a voltar para casa dos pais.

História simples, talvez já repetida até à exaustão, mas que tem aqui uma nova versão à espanhola. Aliás, à catalã. Marta não só regressa para casa dos pais como para junto do seu núcleo duro de amigas. Desi (Carolina Yuste), Bea (Elisabet Casanovas) e Soraya (Ángela Cervantes), todas com empregos diferentes, mas que não conseguiram sair do bairro. Pararam no tempo, ingénuas, orgulhosas, está-se bem.

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Só Marta o fez. Obrigada a ter de reviver a infância e adolescência toda outra vez para continuar a tentar manter-se à tona no mundo da fotografia profissional, fica-se, assim, a conhecer uma personagem que, por muito adulta que queira parecer, continua a precisar do aconchego das amigas, a refilar com a mãe quando não bate à porta antes de entrar no quarto. Ou mesmo a olhar para aquele bairro, com um certo tom de arrogância, como se estivesse sempre em negação com a ideia de que ainda pertence aquele lugar.

Ora, não inventando a roda, Carol Rodriguez quis, para a sua estreia em longas metragens, falar do que sabe — até porque uma das suas curtas-metragens, tem, imagine-se, quase o mesmo nome do que este filme: “Super Chavalas” (2017). Do que conhece bem, sem se levar muito a sério. Quis entreter o público com uma história comum, sem grandes maneirismos ou vontades supremas de impor uma moral. Quis fazê-lo tendo a história tão enraizada na pele de realizadora que o que se vê em “Chavalas” faz parte também da sua memória. Aliás, da sua vivência. Aquele é o seu bairro e o da família — onde se inclui a irmã, Marina Rodriguez Colás, guionista do filme. “Não fiz exatamente o trajeto que a personagem principal fez, mas tive aquele sentimento de sair do sítio de que sou, que levei com orgulho. Estão ali ruas que percorri imensas vezes, um dos edifícios que filmámos [as cenas finais, que, sem spoilar, mas spoilando, exibem uma enorme exposição fotográfica] foi onde vivi. O que gostei mais no processo foi filmar o que conhecia, replicar a maneira como as minhas amigas falavam ou a minha família. Tinha de me soar a verdade”, refere a realizadora em conversa com o Observador.

Nessa tal verdade não houve, porém, qualquer pretensão da cineasta em levar uma mensagem mais ativista até ao público. Ou seja, o estigma contra quem mora no bairro continua a existir, sim, mas ao mesmo tempo, para Carol Rodriguez, também existe agora a ideia de que, no mundo das artes, ser do bairro “também pode ser cool”. “Acho que essa visão mais preconceituosa mudou e não mudou. Explico: a má fama continua a existir, sim, tal como comprovei num novo projeto que estou a fazer com adolescentes do bairro, mas há muitos artistas que colocam esses lugares na moda. Mas isso não é real. Estes não são sítios que sejam perfeitos como se vê nos videoclips, nem perigosos para viver. Quis, então, filmar uma terceira via, a da comédia”, conta.

Uma comédia sem pretensões que só quer entreter

Pois bem, comédia é o que não falta. E no feminino, diga-se, que é uma das pretensões deste início de carreira nas longas-metragens para a realizadora espanhola. O tom humorístico nota-se em praticamente todas as personagens. Nos pais de Marta que agora fazem tai-chi ou cuidam de uma tartaruga encontrada no meio de entulho, nas três amigas, felizes da vida, de grandes argolas nas orelhas e sangria de pacote na mão, que, desligadas de Barcelona (ou das questões atuais sobre assédio sexual), pouco ou nada se indignam (e até gozam, com muita graça, diga-se) quando um homem, bêbedo, decide “entusiasmar-se” com elas. E com o esforço de Marta, mal humorada, resmungona, com o seu “chapéu francês” em riste, para que ninguém perceba que está metida num buraco de onde não consegue sair. Com tudo isto, Carol Rodriguez só quis uma coisa: entreter. “Esta é uma história pessoal mas que tem um ponto comercial, não o vou negar. Gosto desse equilíbrio, não quero histórias super sobrenaturais, quero é entreter, que os filmes cheguem a mais pessoas”, diz.

Até porque, e ao contrário do que se possa pensar olhando para sucessos comerciais em Espanha como foi o caso de “Casa de Papel” (Netflix), a indústria cinematográfica do país é difícil para quem quer começar. “É muito complicado aqui, não é como em França, onde existem quotas, mais subvenções. Em Espanha é uma luta muito grande para se juntar o dinheiro todo”, argumenta. Ainda assim, e mesmo depois de ter demorado cinco anos para fazer “Chavalas” — tendo sido obrigada a interromper as rodagens em 2020 por causa da pandemia de Covid-19 — Carol Rodriguez tem esperança. Especialmente, num certo movimento feminista catalão no cinema. “Há uma fornada de mulheres da minha idade [39] que estão a fazer as suas primeiras longas-metragens, estão a fazer filmes brilhantes, a falar do que lhes interessa, a contar histórias pessoais”, afirma.

Carol Rodriguez Cólas chega esta quinta feira à Mostra de Cinema Espanhol no Cinema São Jorge  — e na Cinemateca Portuguesa com uma seleção de quatro filmes — com outra esperança quando chegar o momento de falar com o público presente: a de que, tal como aconteceu quando o filme estreou noutros festivais na Escócia e na Alemanha, qualquer um sinta algum tipo de ligação a esta história. “Tive medo de que as pessoas não entendessem, mas houve muita gente que se sentiu identificada com aquela ideia de saíres do pueblo (aldeia, região periférica) para ires estudar. Acho que pode acontecer o mesmo em Lisboa”, argumenta.

E mesmo sendo a indústria do cinema em Espanha difícil, se “Chavalas” for fazendo o seu caminho e abrir portas para outros voos — leia-se, grandes produções patrocinadas por grandes plataformas como a Netflix ou a HBO — a cineasta catalã não vai hesitar em dizer que sim. “A minha família nada tem a ver com cinema, licenciei-me em comunicação visual e acho que esta sempre foi a minha vocação. Fui fazendo as minhas curtas-metragens, pedi ajuda a amigos e família, paguei-as com o meu dinheiro e com apoios. Se alguma plataforma me der oportunidade, serão bem vindas, pois claro”, termina.