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À procura de história, parte 5. A seleção portuguesa de futebol feminino recebia esta quinta-feira a congénere israelita no Estádio Municipal de Portimão e o objetivo era mesmo esse, conseguir o que o futebol português nunca havia conseguido: chegar ao Mundial de futebol feminino, cuja próxima edição é no verão de 2023 na Austrália e na Nova Zelândia. Depois de um arranque menos conseguido, com um empate frente à Turquia, a seleção nacional arrancou três vitórias consecutivas, frente a Israel, Sérvia e Bulgária, tendo ainda nas suas mãos a hipótese de chegar por si ao Mundial.

A seleção nacional, sem perder há cinco jogos, partia como o jogo como favorita, depois de ter aplicado chapa quatro em Israel, uma seleção que ainda não marcou qualquer golo, nem tem qualquer ponto nesta fase de qualificação. Os três pontos contra as israelitas significavam que Portugal iria chegar ao jogo com a Alemanha com a hipótese de chegar ou manter um primeiro lugar. As alemãs são, nada mais, nada menos, do que 12 vezes campeãs da Europa, duas vezes campeãs do mundo e vencedoras do torneio olímpico em 2016.

“João Félix é uma referência mundial. Há sempre o lado da pressão mas, se me comparam a ele, tenho de corresponder”

A cumprir esta tarde o jogo 100 ao serviço da seleção nacional, o selecionador Francisco Neto foi claro quanto ao objetivo e o quão é imprudente pensar-se em pensar mais à frente. “O nosso foco está neste jogo com Israel. Num apuramento onde só há dez partidas, cada jogo é uma final e esta é mais uma que queremos ganhar”, disse na antevisão.

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Durante a semana passada, o treinador de Portugal deu uma entrevista ao zerozero em que abordou o que a modalidade tem crescido no país, explicando que a grande diferença não foi técnica, nem tática, pelo menos diretamente. Foi em algo que afeta tudo o que é o jogo: “O grande crescimento e mudança foi na mentalidade. A jogadora conseguir acreditar que não é inferior a ninguém é o grande passo. As pessoas acreditarem que é possível. Este mindset que nos permite encarar os adversários sem olharmos para nós. Não podemos pensar pequenino, não podemos ter medo de pensar em grande, tendo em conta as consequências. A grande vitória é esta”.

“Acredito que será um jogo de domínio de Portugal à procura do golo, mas, sem dúvida nenhuma, temos de estar sempre muito equilibrados e muito concentrados para, no momento de perda, não sermos apanhados desorganizados. [Israel] É uma equipa aguerrida, muito disponível e que vai protelando o jogo, procurando, quando tem bola, explorar os espaços na possível desorganização do adversário”, referiu o centenário selecionador.

E Francisco Neto tinha razão.

Logo aos dois minutos, após boa jogada do corredor direito português, Kika Nazareth apareceu dentro da área, mas finalizou ao lado. Estava dado o mote para a insistência portuguesa e também para um pequeno festival de golos falhados. Aos 16′, num lance em que a capitã Carolina Mendes remata ao poste, a número 10 Jéssica Silva, sem ninguém na baliza, encostou… ao lado do poste direito da baliza das israelitas. As portuguesas descobriam com muita facilidade as costas da defesa de Israel, principalmente nas costas das laterais adversárias ou entre estas e as centrais, criando muitos lances de perigo.

Dois minutos depois do falhanço de Silva, foi Ana Borges a estar perto do golo e aos 25′ mais um falhanço que devia e podia ter dado golo. Kika assistiu da esquerda e Carolina Mendes acertou na guarda-redes de Israel. No entanto, a capitã estava a guardar-se para a segunda metade do primeiro tempo. Aos 27′, após novo cruzamento de Ana Borges, que se desmarcou muito bem pela esquerda no tal espaço que Portugal bem aproveitava, serviu Mendes que fez golo.

Um golo que fica na memória pois esta quinta-feira a capitã da seleção nacional realizou o jogo 100 por Portugal, ao qual juntou o golo 20, mas também o 21: em cima do intervalo (e depois de ter protagonizado mais um lance de golo), volta a ser Ana Borges a servir Carolina Mendes para o 2-0. Destaque para o grande passe de Joana Marchão a desmarcar Borges. Mais uma vez, as israelitas estavam perdidas com o jogo curto português, mas principalmente pelos passes de desmarcação nas costas.

Até ao final, porque era mesmo dia de história para os centenários, Carolina Mendes apareceu isolada, fintou a guarda-redes adversária e encostou para o hat-trick. Até ao final não aconteceram mais golos, mas o resultado e o objetivo estavam conseguidos, com a seleção nacional a conseguir, mesmo com os golos falhados, um bom resultado frente a Israel. Agora? Agora segue-se a poderosa Alemanha, já na terça-feira. Mas uma qualificação histórica nunca iria ser fácil. A liderança portuguesa do grupo é provisória, mas pode ser mantida.