Rui Rio vai avisando os mais distraídos: na próxima lista de candidatos a deputados, só vão ter lugar aqueles que forem competentes e leais. “Ter alguém que é muito competente mas é desleal não me serve para nada”, sugeriu o líder social-democrata.

Em duas entrevistas consecutivas, à SIC e à CNN Portugal, Rio fez questão de sublinhar que não pretende afastar todos aqueles que estiveram com Paulo Rangel nas últimas diretas, até porque ter estado do outro lado da barricada não significa necessariamente que tenha cometido uma traição.

Mas que não haja dúvidas: Rio vai riscar da lista todos aqueles que, apesar de terem sido peças importantes no rioísmo, decidiram mudar de equipa nestas diretas. “A pessoa tem de ser competente e leal“, sugeriu o presidente do PSD na SIC.

Na CNN Portugal, Rio completou: “Não sou ingrato. Vou reconhecer o esforço que as pessoas possam ter feito por convicção”, começou por dizer. Sobre os adversários internos, pelo menos aqueles que estiveram “sempre contra” a atual direção, a porta da rua é serventia da casa.

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“Não se vai fazer uma limpeza étnica. [Mas] não podemos ser todos hipócritas. Tenho dificuldade em respeitar quem anda aqui com jogos.”

De resto, Rio não deixou de falar sobre Carlos Moedas, que na reta final da campanha interna tornou evidente que apoiava Paulo Rangel na contenda. O líder social-democrata não gostou e não fez grande esforço para o esconder. “Tinha sido mais prudente manter-se assim [neutro] até ao sábado. Mas ninguém se zanga.”

Na SIC, desafiado a revelar se tem planos para reintegrar Paulo Rangel ou se pensa nele para um eventual futuro governo, o social-democrata ensaiou um não diplomático. “Neste momento Paulo Rangel tem um lugar relevante na Europa. Diz que vai continuar e bem“, cortou.

Na CNN Portugal, e mesmo dizendo que não queria desenterrar um assunto arrumado, Rio não deixou de criticar a forma como o eurodeputado avançou para as eleições internas. “Podia ter sido feito de forma diferente“, desabafou.

Rio deixou também escapar dois pontos da estratégia do PSD para o pós-legislativas: tal como o Observador já tinha antecipado, o líder social-democrata não acredita que António Costa esteja em condições de reeditar uma geringonça se ficar em segundo nas próximas legislativas; e que os socialistas deixarão o PSD governar se forem derrotados nas eleições. “Nunca aconteceu na vida. Não sei se poderá acontecer. Mas quero acreditar que o PS pode evoluir.”

“Depois de tudo aquilo que aconteceu, não vejo que António Costa possa reeditar uma geringonça nos exatos termos em que o fez em 2015. Não acredito que a geringonça possa renascer da mesma forma que nasceu em 2015″, defendeu.

Sobre o outro cenário — o PS ganha, o PSD perde –, Rio não se comprometeu com uma resposta fechada sobre o seu futuro no partido. “Em função das circunstâncias, logo se vê o que é melhor para o partido. Não pensei nisso, nem vou pensar”, disse aos microfones da CNN Portugal.

Como explicava o Observador, o líder do PSD entende que, mesmo perdendo as próximas legislativas, ainda pode desempenhar um papel importante na governação do país. Para Rio, aliás, se batesse com a porta e deixasse o partido entrar numa nova guerra fratricida pouco depois destas diretas, seriam o PSD e o regime a ficar em causa. Os tempos que se avizinham exigem estabilidade política e construção de pontes. Só assim, entende o social-democrata, será possível reerguer o partido e derrotar, finalmente, os socialistas.

Rio assumiu ainda outra informação já avançada pelo Observador: o líder social-democrata chegou a ponderar não avançar com uma recandidatura. “Muito no início, quando avancei, sabia que avançava com muito atraso e havia que recuperar atraso. Tive uma fase de reflexão a sério. Estive mesmo a pensar ‘vou ou não vou’”, assumiu.

O presidente do PSD reiterou ainda a indisponibilidade total para formar qualquer tipo de aliança com o Chega e tratou de insistir no apelo ao voto útil à direita. “O único partido que pode fazer frente ao PS é o PSD”, reforçou na SIC.

Quanto a uma eventual pré-coligação com o CDS, Rui Rio deixou tudo em aberto, assumindo que uma e outra solução tem vantagens e desvantagens.  Recorde-se que a Comissão Política Nacional (CPN) do PSD já discutiu a questão e ‘chumbou’ de forma expressiva e maioritária qualquer aliança com os democratas-cristãos.

A proposta não foi votada formalmente, mas o sinal político foi dado, incluindo por três dos seus seis ‘vices’, André Coelho Lima, David Justino e Nuno Morais Sarmento.  Ainda assim, Rio ainda não se compromete com uma resposta fechada. “Estou a fazer reflexão. Temos de todos ponderar isso muito bem”, sublinhou.