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O estado atual do Barcelona pode em parte ser explicado numa notícia que correu todas as publicações de Espanha, de Madrid à Catalunha, a propósito do dinheiro que estava em causa numa eliminação precoce na Liga dos Campeões. Sim, havia aquela vertente desportiva quase histórica dos 18 apuramentos seguidos para os oitavos que Jorge Jesus foi buscar na antevisão para valorizar a possibilidade de qualificação que o Benfica tinha, mas era nas contas que se centrava a discussão por uma equação simples: como em termos orçamentais estava prevista uma chegada aos quartos, tudo o que não fosse uma vitória em Munique traria uma perda automática de 20,2 milhões de euros só em prémios. E, parecendo pouco, era muito.

Bayern escreveu mais um capítulo na história que começou em Lisboa do “Era uma vez um Barcelona…”

Mas este era apenas um ponto entre muitos em jogo na Allianz Arena, tendo como contexto não só essa necessidade de ganhar para depender apenas de si nas contas da qualificação mas também aquela que foi a primeira derrota na era Xavi Hernández, em Camp Nou, frente ao Betis. Quando a equipa parecia dar os primeiros pequenos passos para a redenção, mesmo assumindo o longo caminho para corrigir a hecatombe que apanhou o clube desprevenido e sem plano B, caiu à primeira grande contrariedade. E tinha pela frente uma das melhores equipas da Europa, motivada pelo triunfo no clássico frente ao B. Dortmund e a dar provas como fez com o Dínamo Kiev que a qualificação garantida não retirava ambição à equipa.

Por isso, Gerard Piqué, central e um dos capitães de equipa, dizia que era em Munique e em tudo o que iria envolver o encontro decisivo que se veria quem são os verdadeiros culés, quase pedindo uma espécie de regaste de identidade em mais um momento adverso. Xavi Hernández, esse, assumia que não entendia “o que é a palavra fracasso”. “Quem tenta e vai até ao final… Neste momento temos a ilusão de jogar para ganhar, de dominar, de criar ocasiões. No final, logo falaremos. Trabalhamos para que o Barça não seja inferior a nenhuma equipa na Europa mas temos muito trabalho pela frente. É preciso paciência, não é uma coisa de um dia para o outro, e sei que nos últimos tempos o Bayern tem sido melhor”, admitiu.

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Messi contra 11 e no final golearam os alemães – e acabou de vez uma era no futebol (a crónica do Barcelona-Bayern)

Na teoria, tudo certo; na prática, um desejo sempre complicado porque só muito raramente resultados e tempo combinam na mesma frase do léxico do futebol. E o próprio adversário não estava propriamente para estender passadeiras da redenção, como Julian Nagelsmann fez questão de dizer perante todas as preocupações que vinham da Luz a propósito de poupanças esta noite. “Neuer, Lewandowski? Eles vão jogar, não se preocupem. Acho que o Benfica não jogou com os titulares no jogo aqui contra nós, mas sem problema. Vamos jogar com a melhor equipa possível. Cumprimentos ao Benfica”, atirou o técnico.

Aquilo que seria descrito como uma final antecipada há poucos anos tornara-se num jogo em que havia uma preocupação de perceber se os bávaros iriam jogar ou não na máxima força (Goretzka, Choupo-Moting, Sabitzer, Kimmich e Gnabry ficaram de fora por questões físicas) assumindo-se que até em gestão seria teoricamente mais forte do que este Barcelona. Mas havia um outro ponto a ter em conta e que vinha da eleição da Bola de Ouro e de uma espécie de “vingança prometida” de Thomas Müller pela atribuição do troféu a Lionel Messi e não a Robert Lewandowski: “Vai servir também de enorme motivação para repor o equilíbrio, trazer a Champions para Munique e mostrar o que o futebol tem para oferecer”. Ou seja, o facto de a Bundesliga ter passado de novo ao lado do galardão era uma motivação… contra o Barça.

Com Dest como ala direito e Ronald Araújo a fechar à direita, os catalães surpreenderam os germânicos nos primeiros minutos pela forma como não tiveram problema em esticar jogo com e sem bola, tendo ainda pelo meio desse arranque um remate perigoso de Jordi Alba de pé direito para defesa de Neuer (7′). Essa estratégia permitia que a bola andasse mais pelo último terço contrário mas, em paralelo, deixava muitos espaços para as saídas em transição dos bávaros, que só não deram golo em três ocasiões porque falhou o último passe, a mais flagrante num pequeno desvio de Ter Stegen que tirou o golo a Lewandowski.

Com o Benfica a ganhar já na Luz por 2-0 ao Dínamo Kiev, o Barcelona teria de fazer ainda mais pela vida e sem Jordi Alba, que no corte a afastar o perigo nesse lance entre Müller e o avançado polaco sentiu logo um problema muscular e deu lugar a Mingueza (que mal entrou ficou logo com os olhos trocados numa jogada de Coman com cabeceamento de Lewandowski para as mãos de Ter Stegen). A forma como Dest tentou passar no 1×1 por Alphonso Davies, ficou sem a bola e levou depois cinco metros num ápice do lateral canadiano mostrava bem a diferença de valores entre as equipas, materializado no seguimento do lance no primeiro golo do encontro com Lewandowski a assistir Müller para o 1-0 (34′), antes de Leroy Sané arriscar a meia distância de pé esquerdo e fazer o 2-0 com Ter Stegen a ficar muito mal na fotografia (43′).

O intervalo estava a chegar mas ficavam duas imagens na retina. Na primeira, Müller fazia um gesto de “boa, muito bem, impecável” a Sané enquanto pedia à equipa para manter a intensidade no jogo à procura de mais golos. Na segunda, Dembelé tentou passar por meio mundo sozinho mas foi Sané que foi ao seu meio-campo acabar com a jogada e sair a jogar. Daí sobraram outras tantas conclusões: o Bayern é um máquina completa de futebol para quem não amigáveis; o Barça, como o conhecemos, acabou.

Foi também por isso que a segunda parte teve pouca ou nenhuma história, com os catalães a tentarem esticar a partida para reduzirem a desvantagem e tentarem ainda o impossível e o Bayern de quando em vez a ir lá à frente criar perigo ou mesmo marcar, como aconteceu com Musiala após mais uma cavalgada de Alphonso Davies pela esquerda (62′). As substituições espantaram os fantasmas que voltaram por minutos a pairar na Allianz Arena sobre mais uma goleada como aquela que os bávaros conseguiram na Luz, nos quartos da Champions, em 2020 (8-2). Mas, mais uma vez, foi o Bayern a mostrar o fim do Barça.