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Muito antes de Britney Spears, Beyoncé ou Miley Cirus havia Ronnie Spector: a rapariga marota antes de as raparigas poderem ser publicamente marotas, a que mostrava a perna, abanava a anca, a rapariga que cantava canções que oscilavam entre o desespero amoroso, a submissão e o confronto – a rapariga que tentava ser independente num mundo de homens que a procuraram dominar e que todas as raparigas em idade de namorar queriam ser. Ronnie, a mais rebelde das estrelas dos girl groups, morreu esta quarta-feira, 12 de janeiro, aos 78 anos – mas os sonhos que a moveram ainda persistem.

Quando os anos 60 chegaram, Ronnie estava cansada dos trejeitos virginais dos girl groups que até então haviam vingado: as Ronettes, o grupo do qual era a principal vocalista, enfiaram os seus corpos “nas saias mais apertadas que conseguimos encontrar”, contou Ronnie na sua memória, Be My Baby: How I Survived Mascara, Miniskirts, and Madness, or, My Life as a Fabulous Ronette –  “depois entrávamos em palco e subíamos as saias para mostrar ainda mais as pernas”.

“Be My Baby”, que deu título à memória, será talvez a canção mais conhecida das Ronettes e em si encerra uma dupla tragédia: na canção há uma rapariga tão apaixonada que se reduz à submissão; na vida real, Be My Baby foi produzida por Phil Spector, que viria a casar com Ronnie, dando-lhe o nome de família que ela usou até morrer. O casamento com Spector foi abusivo, violento e podia ter destruído Ronnie para sempre.

[“Be My Baby”, numa atuação das Ronettes:]

Spector deu às Ronettes (constituídas por Veronica Yvette Bennett, aka Ronnie; Estelle, a irmã de Veronica; e Nedra Talley, prima de ambas) os maiores sucessos, tornando-as estrelas mundiais durante um breve período nos anos 60: “Be My Baby” chegou a nº2 em 1963 e posteriormente foi usada em filmes como “Mean Streets” e “Dirty Dancing”; a banda acabou em 1967, mas entretanto obtivera uma série de êxitos, de “The Best Part of Breakin’ Up” a “Walking in the Rain”, marcados pelo “Wall of sound” de Spector, um som grandioso, retumbante, que enchia os cafés onde as canções tocavam nas jukeboxes (aparelhos antigos que permitiam que se ouvissem discos a troco de dinheiro).

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É espantoso que tudo isto tenha acontecido com um único disco de estúdio, Presenting the Fabulous Ronettes Featuring Veronica, alguns singles e a participação num disco de natal de Phil Spector. E é redutor falar apenas em “Be My Baby”, “The Best Part of Breakin’ Up”, “Walking in the Rain”, quando (por exemplo) “Do I Love You?” é uma canção simplesmente sensacional, com a sua progressão de piano dobrada por palmas que, só por si, criam um ritmo diabólico mesmo antes da entrada da melodia (e dos espantosos coros). “Baby, I Love You” é tão extraordinária que podia estar em Pet Sounds, dos Beach Boys – um raro caso de explosão de hormonas adolescentes que inclui castanholas.

Um álbum, uns singles e uma participação num disco de natal e as Ronettes estavam a encabeçar a sua própria digressão pelo Reino Unido, antes de fazerem parte da digressão americana de 1966 dos Beatles, e Estelle namorou tanto George Harrison como Mick Jagger. Supostamente, Ronnie também terá tido um caso com Jagger.

Não foi apenas o som e as canções que Phil Spector deu às Ronettes (não que as escrevesse, mas conseguia as melhores canções para elas); Phil tentou controlar todos os aspetos da vida da banda, chegando a gabar-se de ter tido a ideia de as três usarem o famoso beehive (os penteados em forma de colmeia) pelo qual ficaram conhecidas. A necessidade de controlo de Phil estendia-se a graus inimagináveis.

[“Do I Love You”:]

Os Spectors tornaram-se um casal em 1968 e, na sua biografia, Ronnie confessou que ele costumava deixá-la em casa rodeada de cães de guarda, além de lhe apontar armas. Para evitar que ela fugisse, Phil tirava-lhe todos os sapatos; Ronnie bebia de manhã à noite, por duas razões: para esquecer e para ser levada para centros de reabilitação, que à beira do inferno caseiro eram um paraíso.

Aqui estava uma estrela internacional que até ao ano anterior tinha liderado o girl group de mais sucesso do mundo, que podia namorar com qualquer estrela do rock, ter o homem que quisesse, fechada em casa, a ser insultada diariamente, sem sapatos, com cães à sua volta e sem poder falar com ninguém.

Não era este o sonho de adolescente de Ronnie, que nasceu em 1943, em Nova Iorque e se chamava Veronica. Não havia muito dinheiro em casa, e a música sempre fora o escape das irmãs, que na adolescência já cantavam em girl groups – eram, como disse posteriormente Ronnie, “raparigas do gueto que só queriam cantar”. Em 1961, o trio assinou um contrato sob o nome Ronnie and the Relatives. Dois anos depois Phil Spector descobri-las-ia, contratá-las-ia para a sua editora, a Philles, e nesse mesmo ano escreveu e produziu para elas “Be My Baby” – e logo ali, na extraordinária bateria que abre a canção, Ronnie Spector e família entravam na história da música pop.

O “Wall of Sound” de Phil Spector dominou a pop durante alguns anos, sendo a principal influência do mais extraordinário disco pop da história, Pet Sounds, dos Beach Boys. Mas a crueldade e demência de Spector afetaram todos à sua volta – o produtor morreu o ano passado, na prisão, após ser condenado pelo assassinato a tiro de uma aspirante a atriz em 2009.

[“Baby I Love You”:]

Em 1974, Ronnie conseguiu finalmente o divórcio, mas para tal teve de abdicar de todos os direitos de autor relativos à obra criada em comum – segundo Ronnie, fê-lo porque o ainda marido ameaçou matá-la se não abdicasse do dinheiro. No final dos anos 80, as Ronettes processaram Phil Spector à conta de royalties – inicialmente ganharam mas um processo posterior revogou essa vitória.

Depois do divórcio, Ronnie tentou uma carreira a solo mas só teve um êxito menor, com uma canção menoríssima, um dueto com Eddie Money chamado “Take Me Home Tonight”. Posteriormente – e já em 2012 – levou a palco um one-woman show chamado “Beyond the Beehive”.

Nenhum destes falhanços, se assim se pode chamar a um disco ou a um espectáculo só porque não chegaram às tabelas de vendas, altera minimamente a importância de Ronnie na história da pop adolescente: durante anos, as Ronettes foram a banda-sonora da adolescência feminina, dando voz aos anseios das raparigas – muito graças à extraordinária voz de Ronnie, que sabia conciliar ânsia amorosa e marotice num só vocábulo, caminhando naquela linha ambígua entre submissão e independência que só as grandes vocalistas aprenderam a dominar.

Mais importante que tudo isto, a rapariga do gueto que só queria cantar voltou a casar – o seu marido de quatro décadas ainda está vivo, bem como os seus dois filhos, que já são adultos. O sonho de adolescente pode ter-se tornado um pesadelo – mas a vida de adulta foi repleta de amor e livre de abusos. A rainha da colmeia morreu, mas o seu mel nunca passou do prazo.