Foram mais de quatro mil gravações de chamadas telefónicas entre soldados russos e os seus familiares que o jornal The New Tork Times analisou ao longo de meses. As conversas, cujo conteúdo é agora divulgado pelo jornal revelando apenas o primeiro nome dos militares, incluem relatos de ações que podem configurar crimes de guerra e saques às populações ucranianas. Mas incluem também críticas ferozes às chefias militares e ao governo russo, incluindo ao Presidente Vladimir Putin.

As chamadas telefónicas foram intercetadas pelo governo ucraniano perto da área de Bucha, durante o mês de março. O Times confirmou a autenticidade das gravações cruzando informações sobre os números de telefone e redes sociais dos soldados em questão.

Os relatos mostram soldados e familiares assustados com o rumo de uma operação que consideram estar a ser perdida pela Rússia. “Eles só querem enganar as pessoas na televisão, dizem ‘Está tudo bem, não há guerra, é só uma operação especial’. Mas a verdade é que é a porra de uma guerra a sério”, diz a certa altura um soldado, Sergey, à namorada. “Estamos a perder esta guerra”.

Os militares revelam também falta de equipamento militar, decisões questionáveis das chefias e um número de baixas elevado. “60% do regimento já desapareceu”, confessa o soldado Nikita à mãe. Outro militar diz que apenas 38 pára-quedistas de um regimento de 400 sobreviveram.

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As chamadas provam ainda que o saque aos bens dos ucranianos era generalizado. O mesmo soldado chamado Nikita faz a seguinte descrição a um amigo, a certa altura: “Foi tudo saqueado. Todo o álcool foi bebido. E todo o dinheiro foi levado. Toda a gente está a fazer isto aqui.” Outro militar pergunta à namorada que tipo de televisão ela prefere (“LG ou Samsung?”).

Um dos soldados confessa ainda uma situação que pode configurar um crime de guerra, ao confirmar que o seu capitão ordenou a execução de três civis. “Por que não fizeram deles prisioneiros?”, pergunta a namorada. A resposta é simples: não havia comida suficiente. “Disseram-nos que no sítio para aonde íamos há muitos civis. E deram-nos ordens para matar qualquer pessoa que víssemos”, conta outro soldado.

Muitos dos militares dizem às suas famílias que estão a considerar desertar. E as críticas ao governo russo são tantas que o próprio Presidente é posto em causa: “Putin é um idiota. Quer que tomemos Kiev, mas é impossível conseguirmos isso”, diz a certa altura um dos soldados.

O conjunto de chamadas ilustra a descrença generalizada daqueles militares na operação da qual fazem parte, quer em termos de capacidade militar, quer até nas motivações da ofensiva. “Mãe, não vimos um único fascista aqui”, diz a certa altura o soldado Sergey. “Esta guerra baseia-se em motivos falsos. Ninguém precisava disto.”