O realizador belga Lukas Dhont, que venceu o Grand Prix do Festival de Cannes com “Close”, disse à Lusa que o filme pode incentivar conversas em torno da atual “crise da masculinidade”.

“Foi muito importante mostrar os desafios da masculinidade, jogar com eles e também fazer-lhes oposição”, afirmou o realizador, que falou à margem da apresentação do filme em Los Angeles.

“Penso que há uma crise da masculinidade. Se pudermos ter essa conversa, isso é a coisa mais valiosa que sairá deste filme”, considerou.

“Close” está na corrida às nomeações para os Óscares e é a segunda longa-metragem de Lukas Dhont, depois de “Girl”.

A história gira em torno da amizade muito forte de dois adolescentes de 13 anos, Léo e Rémi, e como ela se desmorona quando a proximidade entre ambos é questionada pelos colegas da nova escola. Léo, incomodado com a sugestão, começa a questionar a natureza da sua relação com o melhor amigo. “Há uma mudança. De repente ele tem esta necessidade de compreender que tipo de relação é aquela”, explicou Lukas Dhont. “Esse é um ponto de não retorno”.

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O filme “é sobre a ternura e a perda dela” numa altura confusa do desenvolvimento. Há uma tragédia que ocorre mais tarde e uma aparente supressão emocional no adolescente, que Dhont explorou como forma de questionamento.

“Muitas vezes, as pessoas que são mais próximas de alguém que morre não são as primeiras a expressarem o que sentem ou não conseguem fazê-lo”, disse o realizador. “As suas emoções não conseguem ser expressadas porque ele ainda se sente muito culpado pelas suas ações”, continuou.

“O filme também é sobre como esperamos que jovens rapazes reajam e sobre o espaço que lhes damos para se expressarem”.

Este ponto contrasta com a cena de um jantar em que o homem chora e a mulher mantém um semblante estoico, contrariando os estereótipos.

“Normalmente os papéis estariam completamente invertidos”, disse Dhont. “Quisemos fazer outra abordagem. Foi um continuar do tema do filme sobre o universo da masculinidade”.

Dhont questiona o que significa a intimidade entre adolescentes, o que é considerado normal e anormal, que expectativas há na reação a uma perda trágica, e de que forma o peso das emoções é aguentado no contexto do condicionamento social.

Falado em francês, “Close” tem nos principais papéis Eden Dambrine (Léo), Gustav de Waele (Rémi), Émilie Dequenne (Sophie), Léa Drucker (Nathalie) e Kevin Janssens (Peter).

Apoiado em interpretações fortes, o filme tem uma estética muito ligada à natureza, com enormes campos de flores (o negócio da família de Léo) e a solitude dos bosques. Lukas Dhont explicou que a produção “trabalhou com a natureza”, filmando em várias estações para captar os diferentes momentos de plantação, floração e colheita.

O cineasta esteve em Los Angeles e São Francisco a apresentar o filme e depois seguiu para Paris, onde continuará a promover a longa-metragem, que começará a entrar no circuito comercial europeu em novembro, com uma primeira exibição nas salas francesas anunciada para dia 1.

“A experiência é sobretudo conhecer a audiência, falar com as pessoas, manter as conversas sobre amizade, sobre a importância da conexão”, explicou.

Antes da projeção em Los Angeles, Dhont disse à audiência que o filme era o início de uma conversa com eles. “É a minha forma de me conectar a vocês, a minha forma de expressar coisas que não consegui expressar na vida real”, disse. “Espero que encontrem beleza neste filme. É uma ode à amizade e à importância da conexão”.

O belga também disse que se tornou cineasta sob influência da sua mãe e que a sétima arte foi fundamental no seu crescimento. “Os filmes e o cinema salvaram-me, de muitas formas”, afirmou. “Porque quando eu era adolescente sentia-me muito desconfortável. O cinema foi o meu escape”.