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Duas carrinhas partiram de Kiev durante a manhã da terça-feira passada numa viagem secreta de mais de três mil quilómetros até Madrid. No seu interior seguiam 51 obras de arte do início do século XX destinadas ao Museu Thyssen-Bornemisza, na capital espanhola. Já levavam algum avanço quando a capital ucraniana foi atingida por vários mísseis russos, num dos bombardeamentos mais fortes desde que as tropas russas invadiram o país.

“Estávamos muito nervosos”, disse ao New York Times Svitlana Melnyk, diretora da Kunsttrans Kyiv, uma empresa especializada no transporte de obras de arte. As obras do Museu de Arte Nacional foram empacotadas e carregadas nas carrinhas, partindo numa viagem de cinco dias no dia em que a Rússia lançava quase 100 mísseis.

“Toda a Ucrânia estava sob ataque. Não sabíamos se era mais perigoso ficar em Kiev ou sair.”

Tinha tudo para correr mal. Depois de evitarem por pouco a chuva de mísseis em Kiev e de percorrerem centenas de quilómetros, em algumas regiões às escuras, chegaram à fronteira da Polónia, onde eram recebidos com uma espera de 10 horas. Na pequena aldeia polaca de Przewodow, muito perto da Ucrânia, dois cidadãos tinham morrido numa explosão provocada pela queda de um míssil.

Divulgadas primeiras imagens dos danos provocados pela queda de míssil na Polónia

Depois de cinco dias na estrada, as duas carrinhas chegaram finalmente a Madrid no domingo e na próxima semana as obras de arte já estarão em exposição. “In the Eye of the Storm: Modernism in Ukraine, 1900-1930s” faz parte de uma iniciativa para proteger a cultura ucraniana e vai estar aberta em Madrid entre 29 de fevereiro e 30 de abril.

“No levantamento mais abrangente da arte moderna ucraniana até à data, com muitos trabalhos emprestados pelo Museu Nacional de Arte da Ucrânia, do Museu Estatal de Teatro, Música e Cinema da Ucrânia, o Museu Thyssen-Bornemisza celebra o dinamismo e diversidade da Ucrânia, enquanto preserva o património do país durante a atual ocupação russa inadmissível“, pode ler-se no site da exposição. No total vão estar expostas 70 obras, incluindo pinturas, desenhos e colagens, algumas de coleções privadas. Em exibição vão estar peças de artistas do movimento modernista ucraniano, como Oleksandr Bohomazov, Vasyl Yermilov, Viktor Palmov e Anatol Petrytskyi.

“Trazer estas obras em segurança não se fez sem riscos, mas a prioridade permaneceu em grande parte devido ao desrespeito consistente demonstrado pelos militares russos pelas normas da Convenção de Haia”, explicou ao The Guardian Francesca Thyssen-Bornemisza. A colecionadora, que em março fundou o projeto “Museus para a Ucrânia”, lembra que a Rússia não poupa os objetos culturais e já foram destruídos mais de 500 edifícios do património ucraniano. A guerra na Ucrânia não é apenas sobre roubar território, mas para “controlar a narrativa nacional da herança cultural”, acrescenta.

A exibição vai ser inaugurada na próxima terça-feira com um discurso do Presidente da Ucrânia, Volodymyr Zelensky. Depois de quatro meses em Madrid segue para o Museu Ludwig, na cidade alemã de Colónia.

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