Na casa do deputado Ventroux, há um problema: nada de questões de compadrio, corrupção, endogamia, finanças, dossiers complicados. O problema do promissor deputado é que está calor e Clarisse, a sua mulher, prefere vestir uma camisa de dormir fina e transparente e andar assim pela casa. Tudo não passaria de um problema doméstico se o político não achasse escandaloso este facto e se não viesse uma abelha intrometer-se, fazendo de uma crise conjugal uma catástrofe política. “Não Andes Nua Pela Casa” é uma peça de Georges Feydeau, mestre absoluto da comédia francesa e precursor do Teatro do Absurdo, agora recuperada pela Comuna, que nos seus 50 anos quer testar os seus próprios limites encenando um conjunto muito diferenciado de géneros que vão da tragédia, à comédia, passando pelo Café-Teatro, de António Torrado, e pelo expressionismo alemão de “Woyzeck” de Buchner (a estrear em 2023).

Agora, para acabar o ano e “porque o dinheiro já não é muito e os subsídios ainda não chegaram”, João Mota propõe a comédia non sense que é uma flecha apontada aos políticos, mas também uma homenagem à rebelião feminina. “Não Andes Nua pela Casa”, estreia-se esta quinta-feira, 24 de novembro, e fica em cena até 18 de dezembro.

Escrita e estreada em 1911, não sem algum escândalo, esta peça em um ato pertence ao período final de Feydeau. Ela espelha os conflitos pessoais do dramaturgo, nomeadamente o seu divórcio, mas também mostra como, enquanto autor, ele se foi afastando do teatro de vaudeville dos seus primeiros anos para deixar o absurdo tomar conta de peças que começam sempre de uma forma bastante realista, antes de caírem num ambiente claustrofóbico, maníaco e cruel — aqui, mais do que a comédia, salta para primeiro plano o absurdo das vida humana, em especial quando ela se tenta encaixar em preconceitos morais, puritanismos e construção de aparências.

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