Uma das ferramentas mais fáceis e enganadoras na hora de promover um conteúdo — neste caso, uma série — é chamar-lhe de “nova qualquer coisa”. Evoca-se uma fórmula e espera-se pelo sucesso, pelo menos do primeiro episódio. Essa tem sido a causa da propagação de muitas séries medianas, um número ainda maior de outras medíocres. Não é exclusivo da “idade de ouro da televisão”: procure-se pelos penosos sucedâneos imediatos de “Perdidos” nos últimos quinze anos. Mas os oito episódios de “Wednesday” — spin-off de “A Família Addams” conduzido por Tim Burton, Alfred Gough e Miles Millar — chegam como antídoto contra a previsibilidade. E isso é bom. “Wednesday” vê-se com o prazer e o divertimento que encontrámos nos primeiros tempos de “Stranger Things”, quando esta era novidade. E esse entusiasmo é meio caminho para uma relação de sucesso entre espectador e televisão. Mas não lhe chamem “nova” coisa nenhuma.

Os trailers enganam. À distância, lembrando o momento em que foi anunciada, “Wednesday” parecia uma combinação entre “Harry Potter” e “Crepúsculo”, com uma escola – Nevermore – a servir de cenário e turmas fantásticas com vampiros, lobisomens, sereias, etc, tudo a servir de metáfora para a clássica história de liceu norte-americano. Há disso em “Wednesday”, como pó num casaco velho que Jenna Ortega (a protagonista, Wednesday, a filha do clássico “A Família Addams”) sacode com desdém. Tim Burton trouxe este universo para o presente do streaming com a mesma relevância que a criação de Charles Addams ofereceu ao cinema há três décadas: uma crítica pouco óbvia ao ideal da classe média norte-americana.

[o trailer de “Wednesday”:]

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