Enviado especial do Observador em Doha, no Qatar

A ideia original de perceber a alegada algazarra ao intervalo nos estádios que recebem o Mundial já estava marcada na nossa agenda para o Países Baixos-Equador no Khalifa International Stadium mas aí acabou por cair. O plano não tinha muito de Bond nem McGyver mas na teoria poderia ou não comprovar os “mitos” das entradas nos recintos: saída um pouco antes do intervalo, duas a três voltas ao complexo (mais do que isso não havia pernas depois para voltar a subir para a bancada de imprensa), falar com o máximo de pessoas possível sobre o porquê de estarem a entrar ou a sair naquela altura, a esperança que a ligação permitisse ir acompanhando o jogo quando fosse reatado, o regresso ao lugar para acabar a crónica. Tudo isso aconteceu, de nada valeu: entre equatorianos, neerlandeses e mexicanos, ali foi mesmo quem segue futebol.

Fim de linha da ideia? Provavelmente sim, agora começam os jogos mais a sério. Ou não, ainda existia uma janela de oportunidade no Japão-Costa Rica. E a própria primeira parte, sem um remate enquadrado ou uma oportunidade num estádio que teria 80% da lotação, era aquele cenário que parecia encomendado.

Algum contexto a este propósito. Há muito que se tem falado sobre os grupos de adeptos que são “pagos” pelo Comité Organizador deste Mundial – e que não têm a ver com pessoas de outros países que apoiam outras seleções mediante os jogadores preferidos. Neste caso são mesmo pessoas originárias das seleções em causa que têm viagem, alojamento e uma diária enquanto as suas equipas estiverem no Qatar, tendo para tal de assinar o “Agreed Code of Conduct” onde basicamente se comprometem a não dizer mal do país. Para uns é uma tentativa de “comprar simpatia em forma de fraude”, para outros a aposta na melhoria da imagem que sai da competição para o exterior tentando fintar questões que são tudo menos unânimes como a questão dos direitos dos trabalhadores migrantes e das comunidades LGBTI e a liberdade de expressão.

Isso é uma coisa. Depois, há a parte das alegadas entradas gratuitas nos vários estádios sobretudo a partir do intervalo, algo que foi potenciado com o fenómeno registado por vários meios dos acessos gratuitos no jogo entre Países Baixos e Senegal logo na jornada inaugural. Nesse caso, aquilo que se passou teve uma outra explicação: a app onde estão os bilhetes dos adeptos (que podem ser digitais ou impressos) teve uma quebra e a certa altura houve mesmo necessidade de deixar entrar quem mostrasse a imagem que estava no seu telemóvel mesmo tendo em conta que a mesma não era reconhecida na passagem pelos torniquetes.

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Houve mais. Nos dias seguintes, um jornalista da ESPN Brasil esperou também no exterior de estádios pelo intervalo para perceber se existiam ou não acessos gratuitos. Existiam, sem margem para grandes dúvidas. Mais: dezenas de pessoas estavam à espera nas imediações dos estádios por essa luz verde para avançar para o interior do recinto. Aconteceu no França-Austrália, no Estádio Al Janoub. Aconteceu no Espanha-Costa Rica, no Estádio Cidade da Educação. Tudo porque, lá está, a lotação não estava preenchida.

Plano em ação, intervalo no Japão-Costa Rica, duas voltas pelo Estádio Ahmed bin Ali. Primeiras pessoas a desistir do jogo? Uma família qatari, com pai, mãe e três crianças, que aproveita a interrupção no jogo para ir embora – e foram mais os casos destes, com o ponto alto no que aconteceu logo no jogo de abertura frente ao Equador em que a desvantagem por 2-0 no final dos 45 minutos iniciais levou a que muitos abandonassem o Estádio Al Bayt até aos 60′. Depois, um canadiano com a camisola da seleção que nos explica que o encontro está demasiado aborrecido e que prefere ir andando para o Bélgica-Marrocos (sendo que pagou por ambos). A seguir, dois adeptos chegam num passo meio perdido à procura da porta de telefone na mão.

– Olá, boa tarde. Só conseguiu chegar agora ao jogo por alguma razão em especial?
– Sim, estava à espera do bilhete e não consegui vir antes.
– Sabe o resultado?
– Não, não sei.
– Posso-lhe perguntar quanto custou o bilhete? Só veio agora, devia ser metade…
– Não sei, não sei…
– Mas comprou bilhete ou foi oferecido?
– Não falo bem inglês…

Até determinado momento a acreditação à volta do nosso pescoço era vista como algo ligado à organização mas o excesso de questões acabou por interromper de forma abrupta a conversa. Um compasso de espera, a confirmação de que não há “borlas”: mostra o telefone e tem acesso pelos torniquetes. Mais uma volta, mais qataris a abandonar o recinto (eram 14h locais), mais um adepto a ir embora (neste caso indiano mas com a camisola do Brasil, que se diz aborrecido com o encontro), nenhuma invasão de pessoas que estivessem à espera de ordem de soltura nas imediações para correrem para o estádio. A terceira volta teria de ser mais à procura de explicações para o que se dizia do que a presenciar acessos gratuitos de adeptos.

Há respostas. A primeira estava debaixo da língua de um dos voluntários que costuma estar neste estádio: há um maior controlo da FIFA depois dos problemas que foram sendo registados – o que não quer dizer que não continue a existir sempre quem tente aceder mais tarde. E é isso que vemos um par de minutos depois, com dois argentinos (um mais velho, um mais novo) a perguntarem se podiam entrar e a ser um elemento da FIFA a explicar que não. Depois, uma outra explicação que nos foi contada já em conversas num outro recinto: a preocupação com a imagem que passa para o exterior faz com que exista essa margem para colocar interessados no estádio não a passar pelas cancelas como se nada fosse mas aproveitando os “lugares de visibilidade reduzida” (exemplo: uma cadeira que possa ter à sua frente aquela câmara suspensa que tira imagens ao relvado de cima). “No final, o que interessa sempre é a aparência. É tudo aparência”.