Carros que estacionam autonomamente, equipados com assistentes de voz e baterias com autonomia de 700 quilómetros e carregáveis em 20 minutos fazem parte da nova geração de automóveis chineses que ameaçam a concorrência.

“O período da China que copiava acabou”, afirmou à agência Lusa o diretor de marketing da fabricante alemã Volkswagen no país asiático, Jochen Sengpiehl. “A inovação está a acontecer aqui”, acrescentou.

A emergência das marcas chinesas, algumas fundadas há menos de uma década com os olhos postos no segmento elétrico, promete ter “grande impacto” na indústria, advertiu Carlos Martins, que dirige uma fábrica da empresa portuguesa de componentes para automóveis Sodecia no nordeste da China.

Carlos Martins, que vive no país há dez anos, destacou à Lusa a velocidade “completamente diferente” de atuar dos fabricantes locais, em contraposição com as congéneres europeias, que têm estruturas organizacionais “muito pesadas” e que levam “muito tempo” a executar modificações.

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No ano passado, os modelos elétricos da série ID, da Volkswagen, não foram além de 3% de quota de mercado no segmento elétrico na China, que compõe 50% das vendas a nível global do fabricante alemão.

Os elétricos representaram 24% das vendas de carros novos na China, em 2023, segundo dados do setor. Se forem incluídos os híbridos, a quota de veículos alimentados por novas energias nas vendas totais atingiu 36%.

A Volkswagen está a preparar o lançamento de novos modelos em parceria com a Xpeng, a marca chinesa de carros elétricos pela qual pagou 630 milhões de euros por uma participação de 4,99% em 2023. “Já não podemos fazer tudo sozinhos”, admitiu Sengpiehl.

Em causa está a reconfiguração do automóvel pelas tecnológicas chinesas Huawei, Xiaomi ou Baidu de um meio de transporte privado alimentado por um motor de combustão interna, para um dispositivo tecnológico movido a energia elétrica.

“Criar Uma Casa Móvel” é, por exemplo, o lema da Li Auto, a fabricante chinesa cujos veículos estão equipados com tecnologia de controlo por gestos, sistema de karaoke, tomadas elétricas, frigorífico ou um painel OLED de 17 polegadas onde é possível assistir a filmes ou jogar jogos.

“As marcas tradicionais estão a trazer brinquedos analógicos para um parque digital”, descreveu Tu Le, o diretor da consultora Sino Auto Insights, à Lusa. O título de uma reportagem publicada pelo jornal The New York Times é igualmente enfático: “Para o mercado automóvel da China, o elétrico não é o futuro. É o Presente”.

O domínio chinês alarga-se também à indústria de baterias. As chinesas CATL e BYD são os maiores fabricantes mundiais. Pequim mantém ainda forte controlo no acesso a matérias-primas essenciais.

Isto é resultado de mais de uma década de subsídios, investimento a longo prazo e gastos com infraestrutura. “Foi preciso uma política industrial focada, muita paciência e muito capital”, resumiu Tu.

Em 2014, o líder chinês, Xi Jinping, afirmou que o desenvolvimento de carros elétricos era a única forma de a China se converter numa “potência do setor automóvel”, que passou a constar nos planos quinquenais delineados pelo Partido Comunista Chinês e, nos anos seguintes, foram criadas centenas de marcas de veículos elétricos no país.

Isto gerou excesso de capacidade de produção e um problema de sustentabilidade financeira: mais de 60% dos fabricantes chineses de elétricos vendem menos de 10.000 carros por ano.

Devido à feroz guerra de preços em curso, apenas a norte-americana Tesla e a BYD conseguem permanecer lucrativas, o que deverá conduzir a uma consolidação do setor nos próximos anos.

Em nenhuma outra região do mundo a transformação da indústria automóvel é tão rápida como na China”, afirmou Oliver Blume, diretor executivo da Volkswagen, numa conferência de imprensa no Salão do Automóvel da China.

“Este mercado tornou-se uma espécie de centro de alta performance para nós. Temos de trabalhar mais e mais depressa para o manter”, afirmou.