A larga maioria dos elementos dos conselhos de administração das Unidades Locais de Saúde do SNS não são administradores hospitalares de carreira. Segundo dados a que o Observador teve acesso, apenas 18% destes elementos têm formação em gestão hospitalar. Depois das críticas da ministra da Saúde às lideranças dos hospitais (que classificou como “fracas”) e da demissão do conselho de administração da ULS de Viseu, a associação que representa os administradores hospitalares pede “maior exigência” nas nomeações dos gestores.

A maioria dos elementos dos conselhos de administração das ULS são médicos (38%), 18% são enfermeiros, 18% são administradores hospitalares e outros 27% representam outras profissões. No que diz respeito aos presidentes dos conselhos de administração das 39 ULS do país (os responsáveis máximos dos hospitais), apenas 40% são administradores hospitalares de carreiras — os restantes 60% têm outras profissões (nomeadamente médicos, mas também juristas, gestores, enfermeiros ou farmacêuticos).

A Associação Portuguesa dos Administradores Hospitalares (APAH) critica as nomeações que têm sido feitas pelos governos e pede que os conselhos de administração “sejam constituídos por profissionais com formação e experiência no setor”.

APAH pede exigências nas nomeações feitas pelos governos

“As ULS são empresas públicas com orçamentos na ordem das centenas de milhões de euros e com importância fundamental para o bom funcionamento da nossa sociedade. Isso obriga-nos a ter exigência máxima na nomeação dos seus dirigentes o que, infelizmente, nem sempre aconteceu no passado”, diz a APAH, num comunicado enviado às redações esta sexta-feira, um dia depois da demissão em bloco do conselho de administração da ULS de Viseu.

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Conselho de Administração de ULS de Viseu demite-se após críticas de ministra

A administração, liderada por Nuno Domingos Duarte, renunciou aos cargos esta quinta-feira, por entender “já não reunir as condições para continuar a exercer o seu mandato”. O conselho de Administração justifica que “face à falta de confiança manifestada” no seu desempenho, não há outra alternativa senão apresentar o pedido de demissão. Na quarta-feira, numa audição no Parlamento, a ministra Ana Paula Martins visou diretamente a administração do hospital de Viseu devido ao fecho da Urgência de Pediatria durante a noite.

“Porque é que eu tenho hospitais que em janeiro já tinha todos os médicos pediatras a entregarem o papel das 150 horas e das 250 horas. E não aconteceu nada? Não se fez nada? E achou-se normal que isto acontecesse? E esperou-se até agora que fechasse a urgência de pediatria? Isto são bons líderes? Não, não são.”

“Lideranças fracas”? Administrações recusam generalizações

Além disso, a ministra da Saúde classificou as lideranças dos hospitais como fracas. “Nós temos lideranças fracas. Nós precisamos de lideranças à frente dos hospitais e à frente dos serviços que sejam mobilizadoras, que atraiam os jovens profissionais, que os tratem bem”, disse Ana Paula Martins perante os deputados da Comissão de Saúde da Assembleia da República.

Em comunicado, a associação que representa os administradores hospitalares recusa o que diz serem “generalizações”. “Não devemos embarcar em generalizações. Os Conselhos de Administração são, na sua grande maioria, constituídos por elementos capazes e empenhados, que merecem o nosso reconhecimento”, diz a APAH.

Quanto à avaliação dos administradores hospitalares, que a ministra da Saúde também anunciou que iria começar em breve, os administradores hospitalares avisam que “qualquer processo de avaliação deverá associar a responsabilidade ao grau de autonomia e à capacidade de decisão” e deixam uma sugestão, em forma de crítica às limitações que têm sido impostos aos hospitais pelo Ministério das Finanças.

“Se porventura a avaliação incidir sobre quem efetivamente pode influenciar os resultados das ULS (nomeadamente porque decide sobre contratações ou investimentos), então mais valeria que se avaliasse o desempenho do Ministério das Finanças enquanto principal responsável pela gestão dessas unidades do SNS”, diz a APAH.

Nota: notícia corrigida às 12h20 para clarificar que, entre os 60% dos presidentes dos conselhos de administração da ULS que não são administradores hospitalares de carreira, há médicos e outros profissionais